O efeito libertador da arte

Recentemente num seminário de música ouvi do palestrante que músicos cristãos devem se afastar de músicas que não condizem com os valores do Cristianismo. Nada mais castrador do que observar o incentivo à categorização de toda cultura como algo cristão ou não-cristão, espiritual ou carnal. Inquieto, procurava ficar confortável naquelas cadeiras horríveis. O que mais me incomodava, na verdade, não era a pequenez do pensamento daquele homem, mas as cabeças que balançavam concordando com o que estava sendo dito, e eram muitas.

Não me interessa se Caetano Veloso participa de cultos afro. Muito menos se o Renato Russo era homossexual e que eu saiba, a Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Nando Reis não professam a mesma fé que eu, muito menos suas composições. Concordo com Hans Rookmaaker, historiador de arte holandês, devemos observar as obras de forma individual. Diante de uma obra, não me pergunto: este artista é ateu? Pelo contrário, meu espírito se volta para as qualidades que aquela tela ou composição despertam em mim sentidos.

Quando da minha formação musical, não encontrava nos artistas cristãos a qualidade que observava nos músicos do dito segmento secular. Porém, aos oito anos ganhei um songbook do Tom Jobim e o impacto que aquele livro sobre mim teve efeitos devastadores: desconstruiu meu olhar para a cultura além dos nichos freqüentados por minha família. Talvez a reverência aos xamãs da música como Bob Dylan, John Lennon e Paul MacCartney, entre outros, possa ser discutida, entretanto o abando ao rigor da interpretação da arte nivelando-a pelos valores religiosos é necessário para alcançarmos a compreensão de uma poesia concreta, do cinema sueco, de um romance do Saramago ou uma tela do expressionismo.

As experiências sensitivas, auditivas ou místicas, ocorridas nos shows do Coldplay ou Los Hermanos contribuem para o diálogo acerca da sensibilidade presente nas obras que não estão presas à religião. Particularmente, chorei num show do Djvan, cantei a plenos pulmões em uma apresentação de Zélia Duncan e me comovo toda vez que leio uma poesia de Manoel de Barros. Lembro com bastante saudade de uma vez em que um amigo meu leu a “Oração de São Francisco de Assis” numa reunião de evangélicos. Além dos murmúrios sem fim, ele teve que dar explicações para um sem número de retrógrados presentes no mesmo espaço. Sua resposta ficou gravada em mim: Quem disse que Deus não está rindo de toda esta discussão???

Voltemos ao seminário de música. Levantei-me, tomei uma água e pedi a Deus que aquela tortura chegasse ao fim. Acredito, porém que ele estava rindo de toda aquela besteira. Tolice humana, razão das piadas no céu.

Para ouvir, se quiser…

Marcos Almeida (lead vocal “PalavrAntiga”) em Rookmaarker

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