Murilo Rubião: do fantástico ao real (parte II)

A primeira parte deste post “enorme” você lê aqui.

O caráter sombrio do conto e também o tom amargo do não desfecho dá ao conto “A armadilha” qualidades de imposição do irreal como se fosse real. A ruptura com o cotidiano, neste caso, sustenta e possibilita a fantasia e o desdobramento de uma lógica que atua como mapa para “organizar” a narrativa. Esta lógica a que me refiro é a noção do maravilhoso, da estética que concilia o natural e o sobrenatural. É a imaginação dando lugar para um mundo ficcional apoiado no real.

Murilo Rubião não me parece um autor preso a uma coerência que justifique uma narrativa modelar. Ao criar um mundo subjetivo e dado a múltiplas interpretações, os motivos da fantasia ficam em segundo plano. O que interessa é ser devorado pelo universo proposto.

Alguns detalhes são colocados pelo autor durante o conto, que explicito aqui, como que para complicar a interpretação: a maleta volumosa que Alexandre traz consigo quando entra no prédio, continha o quê? Porque estão numa sala com portas e janelas de aço? O conto é muito curto (short story) para se limitar à explicação dos objetos ali postos para criar e concentrar na “não -resposta” seu elemento mais precioso. Há ausência de explicações, mesmo que extraliterárias, para os acontecimentos absurdos. E talvez por isso, constitua a noção de que o sobrenatural não pode ser, ou não deve ser, explicado por intervenções ou resoluções rápidas, a fim de um final feliz ou compreensível à maioria dos leitores.

Portanto, a literatura fantástica de Rubião é tão rica que qualquer tentativa de explicar o conto além de sua natureza seria o mesmo que tentar explicar ironia à uma criança de dois anos de idade. Se na maior parte do tempo aceitamos situações verossímeis, qual o problema em não dar respostas, ou ver a solidão de uma personagem ou pensar no definhar de seu corpo durante um, dez ou mil anos? Geralmente, aceitamos explicações parciais a respeito do que nos cerca, porque haveria “A armadilha” ser diferente? Nisto temos mais uma vez a tensão entre o real e ficcional, nos levando à dúvida do que é real, ou para, além disso, problematizar a realidade acima das estruturas fáceis dos contos de fada.

Referências
SCHWARTZ, Jorge (Org.). Murilo Rubião: Literatura Comentada. São Paulo: Abril Educação, 1982, p. 99 a 102

Murilo Rubião: do fantástico ao real

Num prédio abandonado um diálogo entre dois homens inicia-se de modo não convencional e, seu término troca a posição dos dois em relação a quem é a caça e quem é o caçador, um trocadilho não tão necessário assim, por conta do título no conto de Murilo Rubião, “A Armadilha”, contido em no livro “A casa do girassol vermelho”. A escolha do conto “A armadilha” para este post se deve pela curiosidade em investigar Murilo Rubião, até então desconhecido pelo autor deste trabalho. Entretanto, este não é um privilégio meu, visto que a obra do autor permaneceu desconhecida de grande parte dos leitores brasileiros, por aproximadamente três décadas. Por volta de 1974, é que Murilo Rubião torna-se conhecido.

Inicialmente, é preciso reconhecer que Rubião faz parte dos autores brasileiros que tendem para o universo fantástico. Elementos sobrenaturais se sobrepõem ao rotineiro, e mistura o real com o ficcional que implica numa narrativa envolvente e subjetiva, isto porque, o autor não dá respostas fáceis e abre possibilidade para algumas possíveis interpretações, e este é o caso do conto já citado.

A principal característica de “A armadilha” é tentar descobrir o porquê de Alexandre Saldanha Ribeiro, protagonista da ação, estar indo ao encontro de alguém sobre quem Rubião não dá a mínima pista. É um jogo de armadilha com o próprio leitor, que precisa dar conta de descobrir os porquês e se livrar do enigma proposto pelo autor. Não há o desenvolvimento da personagem principal, nem seu antagonista. São apenas os dois em ação, porém a progressão se dá no embate das duas personagens. O autor não está muito interessado em explicar coisa alguma, e é aqui que se apóia o elemento fantástico da obra: as cenas descritas trazem luz e sombra, e acima de tudo questionam o leitor se é verossímil o que se está lendo. O choque inicial causado pela recepção do velho à Alexandre, já incomoda o leitor na busca por respostas: quem é ele? Porque está com uma arma? O que ele faz ali?

Rompendo padrões do realismo tradicional, Rubião nos conduz à um intrigante diálogo, onde só é possível deduzir o que se passa entre as duas personagens. A cada frase, a troca de papéis se impõe: quem é o perseguidor, quem é o perseguido?. A utilização de uma linguagem simples aproxima o leitor e, parece tornar, mesmo que por alguns minutos a experiência próxima da realidade: há um movimento claro, por parte das personagens, de “surpresa-ação-surpresa-reação”.

Este movimento de “surpresa e ação” faz todo o sentido no final do conto, que na troca de papéis oferece a possibilidade de completar o aspecto cíclico. Num dado momento, Rubião destaca o seguinte sobre uma de suas personagens: “Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto”. É como se Alexandre fosse arrancado de suas recordações, porém em nenhum momento temos acesso à elas.

O autor nos dá a conhecer apenas a parte central da história, não é importante para ele nos indicar nem o começo, nem o fim. Mais uma vez, o movimento de surpresa e ação, salta do conto e toma conta do leitor: surpresa diante do desconhecido, do que não é explicado, e a reação de prosseguir na construção de estruturas possíveis para dar conta de fazer algum sentido. Rubião, ao fugir de uma escrita rebuscada, o que aproxima o leitor, não torna sua conclusão fácil, isto é, não há pistas que sugiram algum outro sentido que não o subjetivo.

Na metade do conto, percebemos a existência de uma terceira personagem (Ema), que não faz parte da ação, mas que parece ser objeto de disputa entre os dois. Por outro lado, não é apontada nenhuma relação passional entre eles. Porém, o questionamento persiste quem é Ema? Qual a importância dela na narrativa? Longe de ser apenas um objeto decorativo da ação descrita por Rubião, Ema é a responsável por indicar que a personagem Alexandre sofre com a humilhação do outro, diante do fato de que ela havia abandonado o velho: “Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.” Ainda assim, quem é Ema?

Rubião, num processo de auto-reflexão e constante reiteração, reescrevia continuamente seus contos, talvez numa tentativa de busca desesperada por clarificar sua linguagem ao produto que temos em mãos hoje. Esse lançar-se à perfeição traduz a necessidade do autor em codificar sua obra, mas produz o oposto, é clara demais para ser descrita como algo simples. Partindo para uma interpretação pessoal, por isso subjetiva, devo destacar antes de tudo que, SCHWARTZ (1982) propôs alguma lógica aos contos de Rubião. “A armadilha” está contida numa subdivisão nomeada por ele de “tendência ao infinito”. Este elemento, a infinidade/eternidade, fica evidente na última frase do conto analisado aqui: “Aqui ficaremos, um ano, dez, cem ou mil anos”.

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