Melancholia: sobre o fim de nós mesmos

Contém quantidade generosa de spoilers.

Lars von Trier, talvez seja um dos poucos sensíveis na arte de fazer cinema como se estivesse pintando uma tela. Em, Melacholia, um filme sobre o fim do mundo, a abertura é de encher os olhos. Por volta de 10 minutos, ao som da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner, que também serve de trilha do longa, o espectador é levado a apreciar cenas em câmera lenta, como quadros sendo criados naquele momento. Arte em movimento. Cinema, portanto. A utilização da técnica do slow motion é operada por Trier com tal maestria, que é praticamente impossível não se sentir tocado.

Ao contrário de muitos críticos, Melancholia talvez seja a fita mais reflexiva de Trier. Isto porque, não temos a violência de AntiChrist, de 2009, nem os abusos domésticos de Dogville, 2003, para ficar em poucos exemplos. Acusado por muitos de polêmico, o diretor não cai no pecado de outros tantos tentando procurar desfechos satisfatórios para uma plateia-pipoca. Por meio de um microcosmo, duas irmãs com noções distintas da realidade, Trier discute o apocalipse, sem precisa fazer uso de efeitos especias de última geração, nem de Nwe York sendo esvaziada, muito menos um monstro alienígena ou formação de uma equipe para destruir um meteorito.

O grande trunfo do diretor seja sua maneira de dirigir atores que em outros filmes nunca rendem o máximo de seu potencial dramático. É o caso do trabalho irrepreensível com Kirsten Dunst, no papel de Justine, uma das irmãs de quem metade do filme trata (parte I). Por este trabalho, Dunst foi premiada em Cannes, como melhor atriz, à exemplo de Charlotte Gainsbourg, Clarie, a outra irmã, vencedora da Palma de Ouro por outro filme do cineasta, Anticristo. É de Claire a parte II do filme.

O casamento que toma grande parte da ação na primeira parte, mostra os noivos, em princípio felizes, mas é só o verniz superficial da alma. O desastre vem a seguir, com as crises maníaco-depressivas de Justine, bem como os insultos, cobranças, choros, decepções. A fotografia é de um amarelo que reforça o sentimento contido naquelas cenas, tristeza. O estranhamento por causa dos diálogos é somente um dos aspectos que fazem do roteiro uma crítica às relações forçadas que desempenhamos em movimentos robóticos, atuações dignas de premiação.

Talvez a certeza de que um meteoro, Melancholia, se chocará com a Terra, ou mais que isso, a incerteza de algo concreto no futuro, na vida, descole a razão da emoção e a resposta que damos à realidade. Justine é a heroína do filme, pois na descoberta de sua finitude, tende a melancholia, aquele estado de contentamento, nem por isso menos reflexivo. Claire, ao contrário da irmã, representa a outra parte da humanidade que, na possibilidade do fim do mundo, se apega em coisas, uma taça de vinho, uma composição de Bethoven, e uma dança, a dança da morte, neste caso.

A irônia da condição humana é saber perfeitamente o seu destino, mas nada poder fazer a respeito.
O desfecho do filme, que não cabe aqui explicitar, é de um lirismo comovente. Talvez inicie reflexões sobre nossa melancholia, nossa apatia, nossa condição. Em Melancholia, há falta do politicamente correto, e isso, por si só, já é um belo convite à sua apreciação.

Por um sexo menos ordinário

Muitas sociedades impõem limites rigorosos a sexualidade do individuo, basta pensar nas punições extremas dos países muçulmanos. O caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, por exemplo, provocou comoção internacional, visto que o delito era o adultério e um suposto assassinato do marido. A orientação da atividade sexual nesses países é claramente definida pela religião, entretanto, em outras culturas ultrapassa os limites do credo. Historicamente, as sociedades e suas organizações político-sociais variam seus níveis de inibição dependendo da densidade demográfica, ou seja, na medida em que não há necessidade de reprodução, o foco passa a ser a repressão da sexualidade e, dessa maneira, o valor de uma mulher nessas comunidades é medido por quanto foi pago por ela – na África Oriental a quantia tem a ver com quantas vacas estão envolvidas na negociação.

Apesar de vivermos num contexto de aparente liberação sexual e suas manifestações, da exposição de corpos no carnaval à poesia funkeira, o discurso de livre sexualidade aparece como tema de filmes e novelas, contrapondo casos em que homossexuais são alvo de linchamento público, e em poucos casos se observa punição aos envolvidos, nesse caso necessária já que violam os direitos mais básicos. Até pouco tempo atrás o divórcio não era visto com bons olhos pelos brasileiros, hoje, no entanto ouve-se em muitas rodas: “se não der certo, separa”. A expressão parece legitimar uma atitude mais livre, um casamento sem necessidade de comprometimento.

Sendo assim, nada mais radical que optar por se unir a alguém já que a possibilidade de ser livre das obrigações que o casamento define é inversamente proporcional. Segundo João Mohana, não basta amar para ser feliz no casamento. Por isso, um individualista não experimentará a profundidade da experiência conjugal. Fatalmente, tem-se aí a matéria-prima de muitas crises.

Não à toa, os padrões de dupla moralidade aparecem nas definições do homem ocidental, que apesar de casado não deixe de praticar uma livre sexualidade baseada no poder do gênero: ser homem é estar pronto para transar. O treinamento da sexualidade masculina é bem diferente da criação feminina. De forma geral, elas são criadas para serem a metade do casal e eles predadores sexuais: ativos, assertivos, não-verbais, assumidores de riscos.

Os efeitos práticos dessas experiências são seres humanos dependentes de sexo e afeto.

Observação: as imagens que ilustram este post são frames do filme ‘Antichrist’ cometido pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier.

 

%d blogueiros gostam disto: