Paulo não tinha um blog

Se existisse internet por volta de 64 D.C, dificilmente ele não seria um blogueiro. Seu perfil no Twitter certamente teria milhões de seguidores e, outros tantos o adicionariam no Facebook.  Porém, não é esse o contexto do homem responsável por difundir o Cristianismo além dos limites judaicos. A estratégia ou ferramenta para alcançar seus objetivos foi a utilização de cartas, muitas delas escritas enquanto esteve preso por conta da defesa de sua fé.

O impacto que seus escritos causavam nas igrejas, ainda em formação, era tão grande que suas posições são até hoje são combustível para discussão tanto no meio cristão, quanto em filosofia. Foi Niestzsche quem acusou Paulo de ter transformado a mensagem libertária de transformação individual numa religião de culpa e de rígidos padrões, por isso que o Cristianismo teria se tornado uma espécie de negação as idéias de Jesus.

A finalidade da trajetória de Paulo, para retomar o argumento inicial, não era o número de seguidores que teria e sim a eficácia de sua mensagem. Ele tinha o que dizer. Atualmente muitos usuários das redes sociais ou blogueiros sonham em ter milhões de seguidores e não se preocupam muito com o que estão dizendo. Por causa da facilidade em digitar meia dúzia de palavras sem sentido no computador em contraponto ao exercício mental de construir um argumento sólido para justificar um conceito, os números a seguir são assombrosos.

Algumas estimativas dão conta de apontar cerca de 126 milhões de blogs existentes até 2010 (fonte Blog Pulse). O número de “tweets” por dia é de 27,3 milhões. Esses dados nos mostram o poderoso cenário da importância das mídias sociais. Dessa forma, a criação do Contraposição tem a ver com a espera despendida pela inspiração. Mas, inspiração é para amadores me disse alguém. Os demais, os meros mortais simplesmente se põem ao trabalho. Todas as grandes sacadas surgem a partir do processo, e era o que Paulo sabia de cor e salteado.

A imagem que ilustra este post é de Caravaggio, “A conversão de São Paulo, a caminho de Damasco”, (1600-1601), Santa Maria del Popolo, Roma

 

O impacto das séries norte-americanas no cenário brasileiro

A televisão, na última década sofreu queda em a sua audiência por conta do acesso cada vez maior a outros tipos de mídias, como a Internet e seus desdobramentos. Sendo assim, a cada ano uma nova proposta, uma nova novela ou série pretendem ser divisores ou marcos para uma sempre nova revolução (. No cenário norte-americano as possibilidades de criação na TV são inigualáveis às temáticas cinematográficas, porém no caso brasileiro, especialistas sempre apontam a fórmula novelística e os programas dominicais com auditório como causa para não se produzir séries, isto é, esses modelos são rentáveis e em time que está ganhando…

O que realmente há de novo na televisão brasileira, fazendo o recorte que não inclui a TV por assinatura, em que raríssimos canais exibem realmente programação criativa e diferenciada? A entrada de séries norte-americanas nos horários dito nobres é o que realmente se observa de novo. Numa cultura em que a identidade cultural não é mais estável, a aceitação de séries como C.S.I traz referências que são ignoradas pelo telespectador brasileiro. Para ficar num só exemplo, não contamos com uma super-ultra-especializada polícia criminalística, como a de Grissom e sua equipe, nem temos a cultura em que as provas são justificativas para prisão, aqui o acusado empreende uma epopéia para provar sua inocência. Além disso, esses produtos importados penetram de tal forma que colaboram para uma espécie de transferência de realidade criando uma sensação, pelo menos de uma hora, de que tudo está sob controle. Basta puxar pela memória os lostmaníacos brasileiros e sua devoção a série Lost capaz de aparecer no trabalho, na sexta-feira, pois ficou em vigília, termo utilizado para aqueles que esperam a disponibilização da série via download.

Não se trata aqui de criticar estas séries, até porque o autor deste post é um consumidor voraz das atuais House, The Big Bang Theory, Dexter, Fringe, das já mortas Lost, X-Files, Friends e uma série de outras séries (desculpem o forçado trocadilho). Pelo contrário, não entendo porque nossas séries não recebem o mesmo tratamento de qualidade (produção, roteiro, elenco, temática) que os da América de cima. Sim, é mais barato comer um prato pronto num restaurante do que empreender tempo na compra e no cozimento do mesmo em casa. É claro que saí mais vantajoso para as grandes emissoras comprarem um produto pronto do que investir num projeto de risco, mesmo assim, não compreendo.

O resultado é a presença ainda maior da cultura norte-americana do que cinema, só perdendo para música, ainda mais com a possibilidade de baixar as séries (todas elas) e assistir quando, onde e como quiser. O “way of life” está ali, sempre a nos lembrar as disparidades culturais, sociais e a extensão dos tentáculos de uma ideologia. Isso pra quem é capaz de consumir entretenimento e pensar em todas estas questões. Não, não é o meu caso.


Vício ou comportamento?

Para dar conta de agrupar sob um mesmo rótulo o comportamento de alguns indivíduos, por exemplo, em relação às incontáveis horas que passam conectadas a Internet, psicólogos e psiquiatras instauraram a utilização da palavra “vício”. A mídia (nacional e internacional) colabora para espalhar algumas manifestações de comportamento como patologias, visto que geram compulsão, dependência e isolamentos. Os métodos para se chegar a essas definições não são fáceis de ler e entender, por isso, é cômodo confiar na metodologia clínica. Atualmente, há viciados em sexo, comida, exercícios, trabalho, twitter, blog, ou pasmem, coca-cola.

É necessário, entretanto, desvincular o uso patológico da palavra vício distanciando-a da conotação negativa sincronizadas a inúmeros excessos, como o meu em função de uma bebida de cor preta, que vem em latas, garrafas pet e é mundialmente conhecida como coca-cola. Ok! Estou fazendo apologia ao refrigerante e não estou sendo pago pra isso. Porém, o que enfatizo é a transformação de palavras comuns por conta das mudanças sociais inconscientes e invisíveis.

As mudanças semânticas implicam observar os fenômenos sociais em curso, tais como revolução digital e/ou sociedade de consumo. Outras expressões tiveram seu significado corrompido. Urgência e emergência: existe mesmo um e-mail que justifique a utilização desse termo? Por acaso existe realmente uma situação crítica ou algo perigoso prestes a acontecer? Alguns gerentes diriam que sim.

Absorver o novo não implica a erradicação imediata do velho, sendo assim os mais recentes significados dessas palavras revelam claramente o tamanho das transformações da língua e, mais que isso, decorrem da visão de mundo de seu praticante e o conjunto de valores contemporâneos que giram ao redor do cenário social no qual está inserido.

Obs. Eu sempre quis ter uma máquina de coca-cola em casa. Confissão de um viciado ou comportamento manipulado pela indústria do consumo?rs

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