“Eu não agüento mais”: quando a vida dói demais.

Nos últimos dias não deixo de pensar no testemunho daquela mulher. Havia perdido o marido a pouco mais de uma semana e participava de um congresso cristão como palestrante. A fatalidade ocorreu nessas estradas brasileiras que pouco tem a oferecer nos quesitos de segurança. O marido parou seu carro por ordem da polícia rodoviária e no instante seguinte foi levado junto com o seu carro para um precipício por conta de um motorista bêbado que sequer notou a blitz. Resultado: deixou dois filhos (de oito e dez anos) e uma mulher extraordinária. O adjetivo é por minha conta, pois em seu testemunho relatou que no momento em que recebeu a notícia, caiu de joelhos e agradeceu a Deus e perdoou o responsável pela tragédia. Pasmem! AGRADECEU e PERDOOU!

Minha reação inicial àquelas palavras foi de total incredulidade. “Ela está em estado de choque” pensei do alto de minha ignorância. Porém, lembrei de um versículo tão conhecido “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome.”1. De repente é como se a expressão “Tudo o que há em mim” tomasse novos contornos e significados. No senso comum entendemos alma como o conjunto que compreende a mente, vontade e emoções, porém esse TUDO e essa ALMA têm mais a ver diretamente com a complexidade de nosso ser essencial do que com o consciente coletivo.

Em nossa performance espiritual não há espaço para a manifestação de mágoas, desânimo, frustração, cansaço, entre outras dores da almas. É como se tivéssemos que eliminar todas essas agonias e entrar na presença de Deus sem qualquer problema, dor…Dessa forma, acabamos por eliminar as palavras e afirmações do mestre “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”2. Não há nestas palavras quaisquer indicações de que este convite se destina apenas aos não-cristãos, inclusive eu RECEBO esta palavra, num jargão evangeliquês. Eu vou até Ele com minhas dores, fraquezas, encontro n’Ele o descanso pra minha alma.

É no contato com o real que a necessidade de professar a fé é posta em cheque, colocada à prova. É no dia a dia que a verdadeira espiritualidade deve ser exercitada. É no momento da dor que os fundamentos da nossa crença são evidenciados. Afinal, a vida dói e quem vende um evangelho de conquistas baseado apenas no triunfalismo rejeita mais uma vez os desígnios do Líder da Revolução do Amor: “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”.3 A vida abundante4 prometida por Ele não tem a ver somente com o lado espiritual, por isso mesmo é abundante, abrangente, transborda para as outras dimensões de nossas almas.

Muitas vezes essa confusão sobre o que é ser cristão numa realidade cada vez mais incrédula e difícil produz pessoas que se negam a adorar a Deus quando estão tristes, com problemas, feridas pelas circunstâncias da vida. É como se Ele fosse incapaz de agir nestas. A sinceridade diante de Deus diz respeito a vasos “sem cera” (sinceridade). Quando os vasos estão com rachaduras existe a opção de passar uma cera e, aparentemente disfarçar as rachaduras. Ser sincero, verdadeiro5, é não tentar disfarçar essas frestas, é se colocar em Suas Mãos para que Ele faça o vaso novamente, se necessário. Utilizar a cera (máscaras) é acreditar que Ele não é capaz de curar as dores da alma.

Aquela mulher que citei no começo dessas linhas se derramou na presença de Deus no momento da angústia, da dor, na aflição. Sua participação no congresso se destinava à ministração na área da dança e foi assim que ela dançou, com tudo que havia dentro dela, com luto, dor, tristeza, porém na certeza de que Aquele que ressuscitou, certamente, daria alívio para sua alma e dos seus pequenos filhos. Alguns podem afirmar como eu inicialmente, que isso não é normal. O que não é normal é vivermos sem praticar nossa fé. Somos capazes de viver teoricamente tudo que diz respeito ao sagrado, porém na pratica a espiritualidade é colocada no armário para utilização no próximo domingo.

Quantas vezes você já disse “Eu não agüento mais”?!?!

Referências: 1. Salmos 103.1 (Almeida Revista e Corrigida) / 2. Mateus 11.28 (Almeida Revista e Corrigida) / 3. João 16.33b (NVI) / 4. João 10.10b (SBB) / 5. João 4.24 (NVI)

Artigo originalmente publicado aqui

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Corpo, alma e espírito: um começo

Quando estava no seminário ficava confuso, e hoje ainda mais, sobre a dicotomia e tricotomia para explicar as relações corpo e  alma e corpo, alma, e espírito, respectivamente. Sendo difícil explicar cada um deles, associá-las a energia biológica (corpo), energia vital divina (espírito) faz o trabalho ser ainda mais complexo. A discussão que Kivitz propõe: se a nossa convicção a respeito de Deus  e seus sentimentos, pensamentos e vontades (aspectos de uma alma) estiver certa, como explicar o fato d’Ele não tê-la e sim, ser somente Espírito?

A questão antropológica contida nessa discussão é como o homem é visto, se vê e, como realmente é. Dizem que o ser humano tem sentimentos da alma e sentimentos do espírito, pensamentos da alma e pensamentos do espírito, vontades da alma e vontades do espírito, entretanto isso parece mais um ser mitológico com duas cabeças do que é, evidentemente, o homem. Os estudos antropológicos e teológicos não me ajudam. Talvez seja esta a razão por eu não conseguir engavetar cada assunto em determinada biblioteca no meu cérebro.

O conflito maior em função desse tema teve origem quando da busca para entender um dos mandamentos bíblicos que é justamente “amar a Deus de toda alma, de todo o coração, de todo o entendimento, de toda a força”. Isto é, teoricamente, preciso entretanto não é explicável em termos práticos: como amar a Deus de toda a alma? Onde ela está? Seriam os meus sentimentos? Bem, pode-se optar em utilizar a evolução do pensamento filosófico, dos pré-socráticos a Agostinho e Tomás de Aquino o que renderia páginas e mais páginas para sintetizar a profundidade de suas reflexões acerca dos termos.

É com base nesses dilemas, que um homem, para compreender suas dimensões, busca a religião que de alguma forma o liga à uma entidade superior, e portanto, não há necessidade de explicação para algumas questões, basta seguir normas, experiências, dogmas, parâmetros questionáveis, em resumo: praticar a fé. Por outro lado, a explicação filosófica não dá conta de preencher o vazio que sentimos mesmo depois de uma boa leitura de Descartes e sua compreensão do ser humano como unidade indivisível corpo/alma.

O que estou fazendo no mundo? Qual a finalidade da minha criação? Há algo além dessa vida? Enquanto não tenho resposta para essas dúvidas, minha fé em um modelo humano para orientar minhas atitudes é plausível diante das dúvidas que crescem e, dificilmente são explicadas.

“Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando.” Clarice Lispector

 

Leitura: “Vivendo com propósito”, por Ed Rene Kivitz.

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