Os 5 álbuns que mais ouvi em 2011

É óbvio que qualquer tentativa de elencar álbuns e/ou artistas não agradará mais que 2 ou 3 pessoas, mas listas são assim, injustas.

1. “21” – Adele

É incrível como muitas pessoas a trataram como se fosse uma novidade, entretanto quem se liga em música, sabe desde de “19” (2008) que Adele não é apenas um produto. Legal mesmo é ouvir “Someone Like You” ser tocada nas rádios “pop/rock” com aquela introdução feita somente no piano. Por isso, apesar de clichê, “21” de Adele tinha que estar na lista.

2. “Tudo que é bonito de viver” – Jorge Camargo

Um álbum muito bem produzido, com letras altamente carregada de conteúdo bíblico sem necessariamente ser literal, talvez resida aí a beleza da obra deste artista brasileiro que não deve nada aos grandes nomes da MPB. Em agosto deste ano já falava dele aqui no blog. Entre no site do artista e saiba mais sobre sua obra.

3. “Mylo Xyloto” – Coldplay

Mesmo tendo sido lançado em outubro, algumas músicas, que haviam “caído” (taí um termo horrível, mas na falta de uma palavra melhor, humpf!) na internet, puderam ser ouvidas antes. Não acreditava que eles conseguiriam superar o “Viva la vida”, mas eis que Mylo Xyloto é tão cheio de músicas que grudam no ouvido que não tem como deixá-los de fora. Alguém explica como é que eles só conseguem fazer tantos “hits”?!? E o que foi a apresentação dos caras no Rock in Rio!?!

4. “A beleza do Rei” Stênio Marcius

Perdi a conta de quantas vezes ouvi a canção “Canta assim mesmo” indo trabalhar num devocional que envolvia caminhada, oração e canto. Já havia publicado sobre ele aqui. Enquanto muitos artistas cristãs tentam fazer parte de um “mainstream” dual, Stênio mantém sua obra intacta, sem ceder à tentação de fazer “música pra tocar na igreja” (muito embora isso só seja um conceito, afinal suas músicas são sim catadas em igrejas, muito poucas, mas são).

5. “Mais um dia” – Livres

O termo que utilizei anteriormente (“música pra cantar na igreja) poderia muito bem ser aplicado à este muito bem produzido álbum. O problema (sarcasmo ON) é que as letras são reflexivas e com teor bíblico acentuado, por isso, infelizmente não são músicas que entrarão fácil no repertório de uma equipe de louvor. Juliano e seu ministério “Livres” podem ser considerados referência para quem gosta de boa música atrelada à Mensagem.

Menções honrosas

Não poderia deixar de mencionar o ótimo álbum do United “Aftermath”, muito menos o especialíssimo “Ghosts Upon the Earth” do Gungor, além do ótimo John Mark McMillan em “Economy” e Bryan and Katie Torwalt com o excelente “Here On Earth”. Isso sem falar no “Chão” de Lenine (impresionante a não utilização de baterias), “Elo” de Maria Rita e tantos outros que por não virem à minha mente agora e (só por isso) não estarão nesta lista.

ATENÇÃO ao título deste post antes de #mimimi

Sobre fins e começos (1/5)

Em geral, minhas opiniões e ideias são colocadas de forma organizada na estrutura de um artigo/ensaio. Porém concedo-me a liberdade de escrever um pouco sobre minhas sensações do que foi este ano, não que interesse a muitos (e tão pouco à poucos, num forçado trocadilho). Apesar de não sermos fatiados, como uma pizza, as dimensões do que somos podem ser analisadas separadamente (mesmo que não existam por elas mesmas) e, a seguir, faço isso apenas como exercício mental para que eu mesmo leia isso tempos depois (sim, quase uma carta numa garrafa jogada no mar no fim do ano).

>>> ACADÊMICOS

Quatro anos antes (2007) tomei algumas decisões que mudariam drásticamente minha vida. Decidi, entre outras coisas, que começaria o curso de Letras (Português-Inglês). Como já havia feito 2 anos de ADM antes, suspeitei que minha escolha estava fadada ao fracasso. Mas desde um 1º semestre na Brás Cubas até o 6º na Unicastelo, o que percebi foi que não poderia ter escolhido melhor.

A quantidade de livros, teses, ensaios, poesias, crônicas e romances (entre muitos outros gêneros) que li nestes anos é absurda. Porém, a quantidade reflete a qualidade com que li tudo isso, afinal já lia muito, mas não de forma organizada, crítica, inconformada, analítica como fui orientado a fazer. Entrando num universo (que minha imaginação apenas supunha) de letras infinitas, descobri, talvez, uma vocação o “ser ensaísta” que sou. Direcionado por incríveis professores dos quais destaco Tenório (e suas viagens semióticas que me faziam e ainda fazem viajar), Gonçalves (o mais rock and roll deles), PC (Paulo César, uma biblioteca ambulante e um pensador/filósofo excepcional), Telma (a que deixava transparecer o prazer de ser tocado pela literatura), Abigail (o amor por uma causa – o de formar pra vida – verificavasse em todas as suas palavras) e Cyro (de quem agradeço o fato de que nunca sairá de minha cabeça “Felix is a blue and yellow bird from Brazil”, rsrs). E, uma menção honrosa à Monalisa (professora de linguística INCRÍVEL que não esquecerei jamais) com quem tive poucos semestres de aprendizagem. Rosália, Lilla, Willians não poderiam deixar de ser lembrados.

Lembro ainda do início na Brás Cubas. Gabriela, com quem tinha altos papos sobre cinema, música e artes, mantemos contato (mesmo que virtualmente) apesar da distância. Jonas, Shirley, Priscila e Viviane, Marcos Ritton, enfim, uma pena ter sido por tão pouco tempo…

Entretanto, o que “pegou” mesmo foi na Unicastelo, onde construi grandes laços de amizade. Escolhi aqueles com quem gostaria de compartilhar trabalhos, conversas e muitas risadas. Aqui vale a explicação: geralmente quero conhecer o terreno em que piso, por isso, nos primeiros meses só conversava o essencial com o pessoal da sala, enquanto turmas e guetos eram formados. Tudo isso termina no dia em que um trabalho deveria ser realizado em grupo, olhei para um lado, outro, fiz avaliações mentais, direcionei meu alvo e me aproximei de um grupo e gentilmente perguntei: “posso fazer com vcs?!”…e esse foi o começo de tudo, faziam parte deste grupo algumas pessoas que destaco abaixo:

Viviane, alguém muito parecido com minha forma de encarar os estudos, super concentrada, comprometida, e um doce de pessoa, maleável, dá pra contar nos dedos quantas vezes a vi zangada. Davi, um cara de grande coração, adorável, super inteligente, um poeta, de quem melodiei uma linda poesia: “A flor”. Sayuri e Marleide, que vieram depois, mas com um carinho enorme por mim (a não ser que sejam grandes atrizes, rsrsr) que, evidentemente, não mereço. Rodrigo, apesar de ser de um semestre diferente, foi um grande parceiro, me apresentado o projeto telecentro da prefeitura, e além disso, um incentivador e carinhoso como sempre. Ah! Tem o Jesner, também de outro semestre, com quem tive pouco contato dentro da sala de aula, entretanto, trocamos mais ideias sobre música, visões teológicas, e escrita fora dela do que outra coisas e por ele dei o ponta-pé inicial nesse blog (mais detalhes vem a seguir quando abordar este tema) e também “conheci” o pessoal do “achando graça”. O fato dele escrever super bem e ser um bom músico é apenas um detalhe.

Não posso ser indelicado de não citar pessoas que admirei de longe, por conta de espaço, tempo, sei lá, não pude ter mais contato, mas sinto enorme gratidão por ter estado com eles, ver sua trajetória acadêmica: Angélica Marron, Márcia, Nildo, Dani, Aline, Jones, Edileusa, Diego, Raiane, Neiva, Fabíola, Anderson, Maísa, Elisandra, Vinícius, Sônia, Mayara, Carol, Josilia (nesse momento tenho certeza estar esquecendo de alguém) e “in memorian” o queridão Willian.

Certamente, injustiças foram realizadas nos parágrafos acima.

Ah! E lembro (e minha barriga também) do Furlan, Ana e Karen do “Nickinho Lanches”: o grande palco da tiração de sarro, dos testemunhos, dos cafés, do lanche de salpicão e do chocolate homoafetivo que tomávamos durante os intervalos que eram sempre arrastados para dar conta de tanto “bapho”.

Obs. Os desafetos não serão lembrados nesta “divisão” muito menos em outras, heheheh.

EM TEMPO… não havia mencionado a querida Bruna Caroline, que publicou em duas coletâneas seus contos SUPER fantásticos: “Tinta vermelho sangue” [Insanas, elas matam] e  “A menina” [Moedas para o barqueiro II: Contos sobre a Morte]. Além de escrever possuída de um talento sobrenatural (rsrs, não consigo imprimir sua originalidade em poucas palavras0) é uma pequena gênia…

Comparações e as razões do ódio cristão

Qual a importância da avaliação de desempenho entre as gerações? É válido ou possível comparar um jovem entre 17 e 24 anos e um senhor de 40 anos ou mais? Por conta da variedade de experiências, crenças, valores e opiniões, a comparação entre gerações, e mais especificamente entre sujeitos, não considera particularidades e acaba se tornando injusta. O não entendimento passa por outras dimensões e deve-se não só aos fatores mencionados. Porém, a intenção aqui não é investigar os “porquês”, ao contrário, reconheço a necessidade de uma troca Intergeracional. Considero também o diálogo interativo como a abertura para a compreensão e aceitação do outro. Tomando o caminho do humor, da renovação dos lugares para convivência podemos envolver todas as idades e isto não ser um empecilho, por exemplo, para exercitar o culto à Deus.

Esa noção do reconhecimento dos limites e possibilidades de cada um (criança, jovem, velho) pode ser uma oportunidade para articular as tais vivências Intergeracionais, isto porque, torna-se extremamente necessário ter uma herança simbólica construída, porém com vínculos afetivos e não em tons de cobrança, frustações (“Se fosse no meu tempo…”), entre outras amarguras… A sensação de pertencimento diz respeito tanto ao idoso quanto ao adolescente “rebelde”. Portanto, a comparação, seja ela em qual nível for, é ineficaz, pois neutraliza e tende a afastar ainda mais a troca Inter geracional.
[…]
As razões do ódio cristão, é claro, não tem relação e sequer são as mesmas dos imperadores romanos jogando cristãos nas arenas como alimento para os leões. Não se trata de vingança histórica. Estas linhas são apenas reflexão sobre o que ninguém admitirá ter, pois isso colocaria em extremos o amor ensinado pelo Mestre e o ódio, um sentimento tão demonizado. Então (tratando na 3ª pessoa) como é possível identificarmos o ódio em cristãos??? Para muitos, “justificação”, “redenção” e “salvação”, por incrível que pareça, são apenas termos gastos e datados. Há uma urgente busca, da geração dos inconformados, em dar brilho e vigor a estes temas, acima do circulo do ódio. A escandalosa graça de Deus retira o obstáculo entre nós e Deus, mas que insistimos em manter, seja por meio de dogmas, liturgias cansativas ou um saudosismo desmedido. Somos imaturos, inclusive, para entender a remissão de pecados.
Deve-se à razão do ódio cristão a nossa percepção de que o “irmão”, não sendo merecedor, é perdoado pelo mesmo Jesus que também é o nosso “Salvador”. Queremos impor justiça ao que Jesus propõe esquecimento das faltas e sua insistência para que sejamos “livres”. A liberdade dos cristãos pode ser motivo para o ódio: só quem tem dúvidas sobre o perdão divino é capaz de infringir ao outro penitência e um sem número de exigências para o convívio em comunidade. A quem interessa que as gerações não dialoguem? A quem interessa que haja ódio nos mesmos corações? A quem interessa matar os novos líderes?
Exterminar as novas lideranças, na raiz, garante a manutenção de um sistema que foi sim relevante (!?), para um determinado espaço de tempo, lugar e contexto sociocultural, mas que se for mantido engessará movimentos num futuro próximo.

Tudo é relativo, ou não?

Uma das manifestações do irracional se dá, de forma refinada, pelo RELATIVISMO. No recorte cultural, o relativismo condiciona todas as verdades e todas as normas pela cultura. Já  os desdobramentos históricos dão conta de situar no tempo todas elas. Apesar de um tanto complicado, equivale dizer, que normas e valores, no que podemos chamar de relativismo, são vistas de acordo com o contexto cultural. Um exemplo dentro da dimensão religiosa: até poucos anos atrás uma mulher que usasse calças e maquiagem não estava dentro dos padrões considerados “bíblicos”. Então, foi a bíblia que mudou ou a interpretação? É óbvio que o relativismo não é algo tão simples como a ilustração acima, porém se pensarmos nas inúmeras modificações de nosso jeito de ser e fazer igreja nos últimos anos perceberemos a quebra de paradigmas. O relativismo em curso, do qual faço questão de destacar seu papel no pós-modernismo, diz respeito a produção de verdades contextuais. Percebemos casos, em que cristãos já não tem a Bíblia como conjunto de valores morais e éticos, tudo é relativizado pela experiência ou revelação.

Isso (direcionamentos, ordenanças) era lá nos tempos antigos, hoje não faz mais sentido” . Declarações como estas são mecanismos do inconsciente que regulamentam nossas pulsões éticas. E é nesse momento, que a interpretação irracional dá vazão ao fundamentalismo cristão ou a consideração de verdades pessoais, por isso, relativas. É o deixar-se guiar pela intuição (alguns insistem em santificar, dizendo ser revelação do Espírito) e traçar comparações interculturais.  Segundo Augustus Nicodemos, em “Ateísmo cristão e outras ameaças a igreja”, é como se a cada geração, Deus revelasse a bíblia e as grandes verdades do cristianismo de uma maneira totalmente diferente. Diante disto, que respostas damos como cristãos?

Muitos consideram a verdade absoluta como Deus, mas a percebem de maneira relativa. É como se a Verdade estivesse sujeita ao meu conhecimento dela (o tal do conhecereis a verdade…) transformando a percepção teológica individual acerca das coisas. E as possibilidades do certo e do errado? E o que é verdadeiro e falso?

Despidos de pressupostos e preconceitos, será que somos capazes de, em função de nossa miserabilidade, perceber a Verdade do mesmo modo que outras pessoas a perceberam em outros tempos e lugares?

Somos relativistas?

Do Tropicalismo

Num contexto musical em que o tradicionalismo e fundos nacionalistas de esquerda davam o tom, o tropicalismo surge com características e elementos específicos que tinham por fim universalizar a linguagem da música popular brasileira. A troca da suavidade das cordas de nilon do violão pelas de aço da guitarra elétrica não tinham somente a modernização musical como objetivo, além disso, a própria cultura nacional teria suas cores alteradas radicalmente.

A mudança estética, em que a bossa nova se misturava ao rock e englobava outros ritmos como samba, bolero, rumba, rompeu as estruturas do que é alta cultura, cultura de massa, tradição e vanguarda. O tropicalismo transformou o comportamento político-ideológico, e também estético. Não à toa foi reprimido pelo governo militar. Porém, o que ficou foi a “descoberta” dos trópicos como centro de uma cultura própria e não reprodução estrangeira do estético, do belo, do que é de bom gosto ou não.

A idéia de Oswald de Andrade era a devoração crítica do legado cultural universal, não por meio da submissão e redenção do “selvagem” e sim da perspectiva do “selvagem” mau, sem escrúpulos, esquecendo os arquétipos literários que envolviam de ares claramente místicos, portanto “bons”. Essa não catequisação, essa desconstrução revelava uma nova forma de se ver a realidade ou significá-la.

Esse conceito de teoria e prática do “devorar”, princípio simbólico da antropofagia, de acordo com um dos líderes do movimento tropicalista, Caetano Veloso, foi fundamental para rediscutir a produção cultural e se torna um método adotado por eles próprios (tropicalistas) para o alcance do objetivo de ser mais que apenas um movimento musical:

A idéia do canibalismo cultural servia-nos aos tropicalistas como uma luva. Estávamos “comendo” os Beatles e Jimmy Hendrix. Nossas argumentações contra a atitude defensiva dos nacionalistas encontravam aqui uma formulação sucinta e exaustiva. Claro que passamos a aplicá-la com largueza e intensidade, mas não sem cuidado, e eu procurei, a cada passo, repensar os termos em que a adotamos. Procurei também e procuro agora relê-la nos termos originais tendo em mente as obras em que ela foi concebida para defender, no contexto em que tal poesia e tal poética surgiram. Nunca perdemos de vista, nem eu nem Gil, as diferenças entre as experiências modernistas dos anos 20 e nossos embates televisivos e fotomecânicos dos anos 60. (VELOSO, 1997, p.248)

O tropicalismo, portanto, retomou as considerações oswaldianas para uma reinvenção do cenário cultural brasileiro. Da mesma forma que a antropofagia oswaldiana inicia a discussão cultural de 22, a tropicália repensa e atualiza a questão.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

AGUIAR, Cícero Vicente Schmift de Aguiar. Uma análise da antropofagia tropicalista. Porto Alegre, 2010.

Murilo Rubião: do fantástico ao real (parte II)

A primeira parte deste post “enorme” você lê aqui.

O caráter sombrio do conto e também o tom amargo do não desfecho dá ao conto “A armadilha” qualidades de imposição do irreal como se fosse real. A ruptura com o cotidiano, neste caso, sustenta e possibilita a fantasia e o desdobramento de uma lógica que atua como mapa para “organizar” a narrativa. Esta lógica a que me refiro é a noção do maravilhoso, da estética que concilia o natural e o sobrenatural. É a imaginação dando lugar para um mundo ficcional apoiado no real.

Murilo Rubião não me parece um autor preso a uma coerência que justifique uma narrativa modelar. Ao criar um mundo subjetivo e dado a múltiplas interpretações, os motivos da fantasia ficam em segundo plano. O que interessa é ser devorado pelo universo proposto.

Alguns detalhes são colocados pelo autor durante o conto, que explicito aqui, como que para complicar a interpretação: a maleta volumosa que Alexandre traz consigo quando entra no prédio, continha o quê? Porque estão numa sala com portas e janelas de aço? O conto é muito curto (short story) para se limitar à explicação dos objetos ali postos para criar e concentrar na “não -resposta” seu elemento mais precioso. Há ausência de explicações, mesmo que extraliterárias, para os acontecimentos absurdos. E talvez por isso, constitua a noção de que o sobrenatural não pode ser, ou não deve ser, explicado por intervenções ou resoluções rápidas, a fim de um final feliz ou compreensível à maioria dos leitores.

Portanto, a literatura fantástica de Rubião é tão rica que qualquer tentativa de explicar o conto além de sua natureza seria o mesmo que tentar explicar ironia à uma criança de dois anos de idade. Se na maior parte do tempo aceitamos situações verossímeis, qual o problema em não dar respostas, ou ver a solidão de uma personagem ou pensar no definhar de seu corpo durante um, dez ou mil anos? Geralmente, aceitamos explicações parciais a respeito do que nos cerca, porque haveria “A armadilha” ser diferente? Nisto temos mais uma vez a tensão entre o real e ficcional, nos levando à dúvida do que é real, ou para, além disso, problematizar a realidade acima das estruturas fáceis dos contos de fada.

Referências
SCHWARTZ, Jorge (Org.). Murilo Rubião: Literatura Comentada. São Paulo: Abril Educação, 1982, p. 99 a 102

Breve análise sobre questões filosóficas, tecnociência e cultura

Cultura pode ser definida como um conjunto de valores e objetos construídos por um determinado grupo humano. Os critérios podem e devem mudar dependendo da localização geográfica e, mais que isso, na medida em que há frações no interior do grupo desenvolvem-se múltiplos valores e compreensão simbólica do mundo. Equivale dizer que o sistema de cultura de um povo é o modo como ele assimila ou dá sentido ao que o cerca, dessa forma podemos pensar, como Bosi propõe, uma cultura erudita e em uma cultura popular. Na primeira, temos a centralização no sistema educacional, mais especificamente as universidades (o ambiente acadêmico) e em contraponto, a dita popular é basicamente iletrada, correspondendo ao nível do simbólico.

Partindo deste princípio, o que existe é uma singularidade da noção de cultura. Sendo assim, não podemos afirmar que existe uma cultura brasileira homogênea e sim, culturas brasileiras. Essa compreensão é ideal para darmos conta do que é cultura e que é por meio dela que damos significado à realidade que nos cerca.

Porque a nossa cultura atual é chamada de cultura de tecnociência?
Só é possível responder a esta questão se pensarmos que durante muito tempo a cultura científica parecia intocável do ponto de vista cartesiano, por exemplo, que constituía paradigmas às custas do senso de que, só a racionalidade científica dava conta de explicar os fenômenos da natureza. Esse quadro é alterado significativamente no último século, num esforço de múltiplas disciplinas que encontraram brechas para abalar as estruturas consolidadas a cerca de vários universos (política, economia) e, mais incisivamente a própria ciência.

A tecnologia tornou irreversível o processo de diminuição da velocidade máxima em que as relações humanas e suas construções simbólicas e culturais passam a ser racionalizadas por uma lei (aparentemente natural) só que é científica. Um exemplo para ilustrar essa dinâmica é o modo como a diminuição do esforço humano nos processos industriais permitiu que o homem criasse outras formas de se mostrar “útil” à automação. Como nos primórdios da história humana, o homem moderno se reconstrói para não ser devorado por máquinas. Basta pensar que é impossível “existir” fora da realidade da tecnociência.

Esta revolução tecnológica de nossos dias alterou e reorganizou as estruturas antigas (e só estamos contemplando as mudanças nas últimas quatro décadas) para redefinir o papel desse homo sapiens. O processo é desgastante e, afastada a tendência de um grande laboratório de experimentações, quando se trata dessa relação do homem com a tecnologia, podemos enxergar a irreversibilidade da dinâmica tecnociência e seu apetite voraz. Em grande medida, é por isso que a cultura atual é chamada de cultura da tecnociência. A cultura dos nossos dias é mediada pela tecnologia, e em exerce uma força persuasiva que problematiza as tensões socioculturais.

Quais são as características mais representativas da nossa cultura atual?
A complexidade, ambigüidades e contradições contidas em nossa cultura atual é tão representativa, em seu aspecto multidimensional, que implica considerar gerir a diversidade cultural, o que inicialmente é tarefa hérculea.

Em primeiro lugar, a globalização ampliou as fronteiras dos negócios e de mundo, além de diminuir as barreiras que atenuavam as diferenças entre países. Dessa forma, a competitividade se utiliza de um ferramental tecnológico para operar num ambiente incerto, complexo e com alta carga de multidisciplinaridade para entendê-la.Em seguida, é preciso entender como a globalização alterou os aspectos conceituais a respeito das culturas globais. Isto é, além de existir uma cultura territorial, há um universo de valores criados a partir da interação, virtual, para ficar em apenas um exemplo. Portanto, nem é preciso mais estar num país específico para absorver uma cultura local, embora, isso por si só, não dê conta de substituir a experiência de uma viagem.

Sendo assim, parece haver uma organização global capaz de adaptar e relacionar diferentes grupos culturais, por meio de aculturação. Isso não quer dizer que não haja atritos, tensões e lutas de poder. Isso apenas permitiu que tivéssemos uma cultura pluralista, heterogênea e, por este motivo, as características predominantes são: uma cultura de consumo, no qual “eu compro, logo existo” passa a ser a base filosófica para muitos, o que apaga o passado (enquanto valores e legado sociocultural) em troca do que é descartável.

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