As respostas que não temos

No clima de relembrar o que vivemos em 2011, muitos programas de TV repassaram a tragédia de Realengo de forma rasa, com flashes das vítimas, em formato vídeo-clipe para lágrimas serem derramadas. Não que elas não devam cair, mas minhas perguntas não são respondidas: por quê?! Um punhado de análises psicológicas e outras tantas, feitas nas coxas, tentam dar conta de explicar tudo o que aconteceu ali…Entretando, eu quero saber como é que a família do executor “passou” por tudo aquilo.

Saindo da realidade brasileira, um filme se propõe a passar a dor da família do assassino em casos como o do carioca. Neste caso, We Need to Talk About Kevin” (Precisamos Falar Sobre o Kevin), acompanha a história de Eva (Tilda Swinton). Morando sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Lucy (Ursula Parker).

Kevin é o autor do massacre numa escola local. E da mesma forma como alguma tragédia, tipo os massacres em Columbine e Realengo, busca encontrar um motivo para que tenha acontecido, Eva (a mãe) repassa sua história diante de nossos olhos procurando responder as mesmas perguntas que as nossas. Mesmo que a vida inteira do menino (ele comete os crimes quando tem 16 anos) já demonstrava que alguma coisa estava errada, sua mãe e “nós” não poderíamos acreditar que algo mais aterrorizante poderia acontecer. Não direi a vocês como termina o filme, mas ele traz algumas tentativas de dar respostas (!) para questões sobre a maldade humana.

Do ponto de vista artístico, Tilda Swinton – a atriz que interpreta a mãe (Eva) – está numa de suas melhores performances. Inevitavelmente sentimos a sua dor e nos sentimos tão culpados quanto ela pelas tragédias que nos cercam.

Caché

Demorei alguns anos para assistir Caché, do austríaco Michael Haneke. Nele, Georges (Daniel Auteil) e sua esposa (Juliette Binoche) começam a receber fitas de vídeo com imagens de sua casa e desenhos sinistros de alguém misterioso que parece conhecê-los muito bem. Uma premissa que faria qualquer desavisado começar o filme pensando ser um filme de terror. Nada mais enganoso. Caché trata de questões mais profundas, e o mais perto que chega de um clima de suspense é durante suas quase 2hs não responder a nenhuma pergunta, inclusive a sua própria.

Se a abertura do filme  é enigmática, suas duas últimas cenas são tão abertas à interpretação que invalida qualquer tentativa de aproximação com o entretenimento. Está mais para uma tela em que os elementos tiram de seus espectadores as mais diferentes reações. Não é um filme fácil, não de se entender, mas de digerir.

Essa abertura à possibilidade interpretativa faz  o prato cheio de muitos críticos de cinema, que do alto de sua sabedoria, tecem inúmeros outros planos de fundo para explicar o filme, esvaziando deste sua beleza. Por isso, mais que ver cinema, você se vê em Caché.

Teeteto: uma introdução ao conhecimento.

Teeteto é um diálogo entre Sócrates e o jovem Teeteto. É a transcrição lida por Euclides à Terpsion baseado na conversa que tiveram quando Teeteto ainda era jovem. Em grande medida o objetivo central da obra é discutir a respeito da natureza do conhecimento e a possibilidade de se atingir tal fim por meio da razão, além de promover a descoberta do pensar, mais especificamente, como pensar o pensar.No diálogo travado por eles, fica evidente que o rumo dado por Sócrates pretende provocar o jovem a ir além das limitadas definições dadas por ele mesmo, pensar além do concreto. Fica mais claro, na definição inicial dada pelo filósofo: “Logo, não compreenderá a arte do sapateiro nem qualquer outra arte, quem não souber o que seja conhecimento“ que a busca pelo saber inicia-se quando superados os pré conceitos definidos ao longo da vida.

Há também por todo o texto, pontualmente, o conceito de relativismo, tão em moda atualmente. Ao definir que aparência e sensação se equivalem com relação ao calor e às coisas do mesmo gênero; tal como cada um as sente, é como elas talvez sejam para essa pessoa. Sócrates inicia a discussão sobre a construção do conhecimento a partir das percepções, apesar de considerar posteriormente que não pode ser a verdade percepção nem opinião verdadeira, nem uma explicação acompanhada de opinião verdadeira o relativismo, isto é, do meu ponto de vista eu compreendo o mundo.Percebe-se também a presença do que os teóricos mais tarde denominariam método da maiêutica, a descoberta, a busca pelo esclarecimento, pelo conhecimento. Segundo ele,  enquanto o indivíduo não se voltasse para si próprio e reconhecesse suas limitações no “Conhece- te a ti mesmo”, era seu lema, o esclarecimento não se materializa. E isso se demonstra em Teeteto no momento em que diz ao jovem: “Ao ouvirmos os sábios, a rigor nunca deveríamos empregar expressões como: Alguma coisa, ou Pertence a alguém ou a mim, nem Isto, nem Aquilo, nem qualquer outra designação que fixe determinada coisa”. Sendo assim, o método maiêutico é utilizado não dando respostas prontas, mas se utilizando das afirmações de Teeteto para que ele mesmo possa enxergar onde errou e perceba o conhecimento de forma abrangente e não limitada.

Traçando um paralelo com a disciplina Educação em Espaços não escolares, o método aplicado por Sócrates, infelizmente, é pouco ou em nenhuma medida aplicado pelos instrutores, professores, ou seja profissionais da área da educação. O fato mais evidente é a correção imediata à maneira como crianças e jovens adultos expressam suas idéias e conceitos. Ao apresentá-las, geralmente, ouvem de seus mestres que não tem sentido o que dizem, ou o mais estarrecedor, que não pensam da maneira adequada. Como se fosse possível uma única maneira de pensar. O entendimento do conhecimento como algo inerente ao ser humano e não concentrado em algo ou alguém traz luz à obscura maneira de pensar de muitos professores, que nessa perspectiva, nem poderiam estar nesta função, visto que não disseminam o conhecimento, pelo contrário, barra-o. Sócrates era considerado um parteiro das idéias, porque os libertava para o pensamento, para a filosofia. Por que não temos esse método, esse conceito, permeando nossas salas de aula, nossa reuniões de planejamento? Porque insistimos em acreditar que nós detemos todo o conhecimento?

Embora, muitos considerem que o método de Sócrates só possa ser aplicado em estudos de matemática, conhecido como “Prova por Absurdo”, é possível estendermos a metodologia para os mais simples trabalhos e tarefas no que diz respeito ao entendimento do que é educação e qual o papel do professor nela. Há ainda uma velha compreensão de que uma parte de conhecimento é suficiente para o juízo do todo. Porém, temos em Teeteto um vislumbre do que não é o conhecimento. Nas palavras de Sócrates quem adquire o conhecimento de algo em parte fecha os olhos e deixa de absorver o todo e, assim sendo, ao lembrar-se alguém de alguma coisa de que já teve conhecimento, não a conhece por não a ter diante dos olhos, o que dissemos ser positivamente monstruoso.

É muito provável que uma simples leitura de Teeteto não fará diferença para quem não estiver disposto a reconsiderar seus absolutos posicionamentos diante do conhecimento, diante da educação, da vida, de um mundo de sentido e significados. Apenas a leitura de um texto como esse não reverberará a verdade, o esclarecimento, como um diálogo realizado entre aluno e educador. Não aquele diálogo pontuado por um maniqueísmo displicente. Muito pelo contrário, se conseguirmos superar a distância que nos afasta do outro, por meio do diálogo, da troca de idéias, do conhecimento, talvez seja possível o que tanto se fala no meio acadêmico a respeito da revolução pedagógica que nosso país tanto necessita.

Ao término da leitura de Teeteto fica a sensação, utilizando um termo recorrente do texto, de que nada sabemos. Porém, os ecos de pressa em correr atrás do conhecimento e da verdade contida, não em coisas, mas no outro, no diálogo, na interação com o outro, proporciona um olhar para um horizonte em que abandonaremos nossa velha forma de pensar o todo e passamos a mergulhar na profunda riqueza da sabedoria contida, como diria Sócrates, dentro de nós mesmos, dos nossos alunos, dos nossos mestres.

Uma missa

O conto Missa do Galo de Machado de Assis, originalmente publicado em Páginas recolhidas (1899), é narrado por Nogueira, um jovem de dezessete anos de idade que veio ao Rio de Janeiro para estudar. Ele mora em Mangaratiba, porém está hospedado na casa do escrivão Menezes, que havia sido casado com uma de suas primas. Menezes é viúvo, e casado pela segunda vez com Conceição, considerada uma “santa”, pois se acostumou com uma relação extraconjugal do marido, que dorme fora de casa uma vez por semana, sob o pretexto de ir ao teatro. Como personagens adjuvantes apresentam-se Dona Inácia, mãe de Conceição, e duas escravas.

A narrativa ocorre na véspera do Natal, numa das noites em que Menezes vai ao teatro. Nogueira combina com um vizinho ir à missa do galo e que o acordará à meia-noite. Enquanto espera esse amigo na sala da frente, lê um romance, Os três mosqueteiros, quando ouve se aproximar Conceição. Eles conversam sobre assuntos variados, e o tempo passa. A conversa rende produzindo risos altos, por isso eles decidem se aproximar e falarem baixo para não acordar D. Inácia. Contraditoriamente, o vizinho grita na rua que é hora da missa do galo e Nogueira tem de ir. Depois deste dia, Conceição conserva seu antigo modo de ser, sem de longe lembrar a intimidade da noite anterior. No Ano Novo, ele volta para Mangaratiba. Em março, volta para o Rio de Janeiro, entretanto o escrivão havia morrido. Jamais encontrou Conceição novamente, soube depois que ela havia se casado com o escrevente do marido.

Ao iniciar a narrativa com a frase “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”, Machado de Assis explora a descoberta de um novo mundo por Nogueira. O encontro enigmático com uma mulher, Conceição, é apenas uma das partes dessa descoberta. A referência religiosa do título é enganosa, pois o interesse de Nogueira pela missa é outro. Não somente pelo título, como pela estrutura narrativa, Machado apresenta pistas que criam o caráter enigmático do conto. Um exemplo desse caráter é o que ocorre com quando, por curiosidade, pede ao escrivão que o leve, quando este diz certa noite que irá ao teatro. O silêncio de Menezes, os risos das escravas e a atitude de D. Inácia fazem com que ele perceba algo de estranho, algo que ele precisa elucidar. Esse novo mundo explorado por Assis evidencia-se na cena principal, o encontro casual, ou não, de Nogueira com Conceição. Ele perceberá que no mundo adulto as atitudes são proporcionais às situações. Ao se transformar de “santa” (outro termo religioso, com duplo sentido, pois não evoca a santidade e sim a complacência, a submissão da mulher ao marido, o tapar dos olhos frente à desilusão) para alguém capaz de rir, sonhar, de falar de suas lembranças, passando a ter vida, quando Nogueira percebe que “Tal foi o calor de minha palavra que a fez sorrir”. Não somente a transformação de Conceição ocorre como também a de Nogueira, que ao passo da conversa, irá transformar-se num homem, com toda sua complexidade de emoções, e virilidade acentuada. A aproximação dos dois se dá fisica e progressivamente, o vulto torna-se uma mulher, sensual. E está claro que o jogo proposto é consensual, “E não saía daquela posição que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras”.

Há indicações de biógrafos que Machado de Assis considerou que suas obras revivessem em vez de ficarem fadadas ao esquecimento dos leitores mais exigentes, concordando com Calvino que pontifica ser um clássico “ aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível” (2004, p. 15)”. O tema do despertar da sexualidade não era novo na literatura brasileira, entretanto a forma com que Machado considera suas nuances e a elegância de sua escrita descrevem, mesmo nos dias atuais, o que se passa com um adolescente ou jovem quando de sua iniciação sexual. Sendo assim, Perissé considera que,

a arte de ser original, e, concretamente, de escrever de maneira original, consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já pensou, já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita (PERISSÉ, 2003:www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm).

A sensualidade do encontro dos dois, ou do ponto de vista do personagem principal, é proposital e contrapõe-se ao que se possa imaginar ao ler o título do conto. De um lado está Conceição, consciente de sua sensualidade, do que é capaz de provocar no outro. Explica-se sua postura anterior dada a limitação das regras de comportamento que deve obedecer. Conceição havia adotado a conduta rígida, escondendo sua sensualidade. O contato com o estudante, o desconhecido, em uma situação casual cria a possibilidade de outro mundo. A racionalidade é colocada em segundo plano, trazendo o desejo ao centro da ação. Explicitasse essa realidade no conto quando Nogueira percebe que  “Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros e menos magros do que se poderiam supor”

Essa troca, esse jogo, essa aproximação só é possível, pois do outro lado temos Nogueira, em toda sua inocência. É seu olhar de interesse que permite a revelação da nova Conceição. Seu despreparo para dominar situações como esta, é solo fértil para brotar toda a variedade de emoções, próprias do desejo. Porém ele é forçadamente tirado dessa experiência, afinal, ele tem de ir à Missa do Galo. Mas é na igreja que a subjetividade religiosa da proposta de Assis fica clara, quando a figura de Conceição, mais de uma vez, se interpõe entre ele e o padre. Sua auto-absolvição fica por conta de seus dezessete anos, entretanto ao “confessar”, ele está assumindo sua condição de homem, por isso não justifica a argumentação da inocência.

Para Pelizzaro, essa dissimulação é a arte de fingir, ou melhor, do propósito de ludibriar a outrem que se encontra no cerne das posições adotadas em momentos distintos pelo escrivão e por sua esposa, respectivamente. Os fragmentos há pouco evocados permitem inferir que Machado amplia as indefinições textuais do conto. O narrador não transmite com segurança ao leitor as informações atinentes à situação que vivenciara na casa de Menezes. Há uma precariedade que influi não apenas no funcionamento da memória de Nogueira, dificultando a recuperação do fato, mas que atua igualmente no seu esforço em compreendê-lo.

O conto Missa do Galo apresenta seu caráter enigmático, ao propor inúmeras leituras e interpretação, sendo esta apenas uma dela. Qual a mensagem, qual significado é maior, quais conflitos devem ser resolvidos, quem foi que provocou, quem foi que cedeu, o que ficou subentendido, são estas as questões que Machado de Assis evoca. A cumplicidade do leitor é necessária para atenuar as regras do jogo, que colocadas de outra forma, pareceriam propositais. Principalmente por causa de o conto ser narrado em primeira pessoa, o leitor pode se colocar no lugar do narrador e se tornar cúmplice do desenvolvimento da narrativa. Ao jogar com as emoções do jovem e da mulher, as defesas das personagens centrais serão realizadas se tomados os mais diversos pontos de vista propostos por Machado de Assis.

Os fatos narrados pelo autor, no leva a pensar sobre a questão da traição. Se a Igreja da época, bem como a sociedade, entendia traição tanto como desejo de trair, como o fato propriamente dito, as insinuações e interpretações possíveis entre as personagens principais, também caracterizam adultério. Machado de Assis tenta incomodar o leitor quando apresenta a complexidade da temática fidelidade e traição. O conto, ainda na visão de Pelizzaro expõe as fragilidades de um jovem que mal sabe lidar com as circunstâncias oriundas da manifestação de um sentimento amoroso, a dificuldade de uma esposa em ter um sono tranqüilo na noite em que o marido não dorme em casa porque vai ao encontro da amante, e a tentativa de uma mulher casada em seduzir o hóspede sem ser flagrada por sua mãe, já que não quer deixar qualquer vestígio de uma possível transgressão às convenções sociais.

O autor não pretende, em momento algum, estabelecer a verdade absoluta, muito pelo contrário, visto que a verdade depende do ponto de vista de quem avalia, flertando com o relativismo moderno. Se Nogueira, o narrador, nunca conseguiu entender a conversa entre ele e Conceição, é evidente que se torna perigosa qualquer leitura ou análise apressada e descuidada. Por isso, é possível apenas especular sobre os possíveis desdobramentos da trama, neste caso, o encontro mais que subjetivo e intencional entre Nogueira e Conceição. E somente esse aspecto eleva Machado de Assis ao lugar comum e quase unânime: o autor não é somente um grande escritor brasileiro, sua obra tem caráter universal.

Referências

ASSIS, Machado de et al. Missa do galo: variações sobre o mesmo tema. São Paulo:

Summus, 1977.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

PERISSÉ, Gabriel. O conceito de plágio criativo. Disponível em:

<www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm>. Acesso em: 20 nov. 2007.

Eu menti pra você

Karina Buhr nasceu na Bahia, tinha oito anos de idade quando começou a beber daquele caldo cultural enfeitiçado que só Recife (PE) tem. Viveu intensamente a música de raiz, as pastoras, o cavalo marinho, o maracatu. “Eu Menti Pra Você” é um álbum com treze capítulos de fábulas e contos e sonhos e desejos tão independentes entre si que se tornam inseparáveis.

As escolhas das parcerias dela me fizerem olhar para o álbum já citado: Tereza Cristina, Arnaldo Antunes, Marina Lima, Lucas Santtana e João Brasil. Quero compartilhar com vocês, a primeira track, “Eu menti pra você” que também da nome ao disco…

Ah! Preste atenção no seguinte verso e responda se puder: “Se você tiver que escolher entre você e o seu amor/Você escolhe quem, você escolhe quem?”

Tem tb esse vídeo clipe…

E esse “mini-documentário”…

Fonte: MAYRA MALDJIAN, em Guia da Folha. Artigo completo aqui + Patrícia Palumbo, no review do myspace da artista.

 

Todo início tem um final

Humberto Eco em “Em que crêem os que não crêem?” afirma que estamos vivendo, mesmo de forma desatenta, os terrores do fim e, assim o fazendo, celebramos o fim das idelogias e da solidariedade. Sendo assim, cada sujeito brinca com o fim dos tempos ao mesmo tempo em que o exorciza projetando-o em cenários irreais. De certa forma, os autores dos contos sobre o fim do mundo contidos em “Dias Contados” exploram essa projeção com terríveis ambientes e as situações cruéis a que são submetidas as personagens. A organização dos contos, por Delfin e Marks, oferece a oportunidade de visitarmos nossos fantasmas e mergulharmos numa reflexão acerca do tempo e como ele está se acabando. Em última análise,  conduz o leitor a responder a simples pergunta: estou preparado para o fim?

Difícil tarefa é produzir uma síntese crítica sobre a antologia “Dias Contados”,  pois a qualidade dos contos somada à temática apocalíptica resulta numa obra em que a simples separação ou escala de bons e melhor es é injusta, afinal está baseada em critérios subjetivos. Portanto, destaco os contos a seguir por qualidades que justifico em seguida, guiando-me pelo sentimento despertado quando da primeira leitura de cada um deles, e isto sim é subjetividade.

“Eu ainda estou aqui”“3h:00”, de César Almeida e Hanna Liis-Baxter respectivamente, possuem estilo e narrativa que  flertam com a agilidade dos roteiros cinematográficos. Com cortes rápidos, tal qual edição de vídeo, e cronologia como ferramenta estrutural, facilmente poderiam ser adaptadas para o cinema. Além dessas qualidades, ambos seriam engraçados se não fosse o tema trágico.

“Cela três” de Rosa Maria Martinelli utiliza os porões da ditadura militar para questionar se já não teria ocorrido o fim do mundo. Por outro lado, “O mistério da cartola”, conto de Gery Almeida, descreve o nascimento do Anticristo. Seja pela introdução de personagens importantes como Lord Byron e Mary Shelley em “Relato aos incrédulos” (por Ronaldo Luiz Souza) ou filosofando sobre o funcionamento do mundo (“Imundo” de René Moraes), a escolha dos contos é acertada, pois foge dos maniqueísmos e senso comum em relação ao fim do mundo.

Rafael Andrietta sugere em “Serpente de aço” o tema catastrófico como argumento para um possível resgate de sentimentos. Passeamos em “A rua Dali”, de B. G. Jimenez, e podemos ver o todo por meio de um ponto focal: a descrita rua.  Já Cintia Lira em “Querido Deus” mostra como um pedido pode ser atendido por uma divindidade e, por isso, traz nas entrelinhas o alerta para “o que” e “como” pedimos favores divinos.

Trabalhando dimensões sobrenaturais, “Salmo 90:4” e “Sétimo dia”, de Alvaro Moreira de Carvalho e Rodolfo Pomini P. de Lima respectivamente, exploram uma reunião de deidades e os elementos sobrenaturais que povoam o imaginário popular. Além destes, como enxergar o fim do mundo pelos olhos de uma aldeia tribal? É justamente o que aborda “Invisibilidade” de Rocha, E.R.

De fácil leitura, “Dias Contados” é ideal para quem quer ir além dos esteriótipos e imagens “clichês” sobre o fim do mundo. Em contrapartida, serve como introdução do tema ficcional até mesmo para crianças e adolescentes. A editora Andross já possui o volume II dessa antologia, sinal de que o interesse pelo gênero não se esgota, visto que trabalha temas que sobreviveram ao tempo e a muitas catastrofes. Apreciar cada momento que vivemos aqui, sabendo que a qualquer minuto isso pode acabar, é o que impulsiona o homem a exercitar seu maior dom: imaginação.

Editora Andross: www.andross.com.br

 

 

Rabbit Hole: um caminho para o auto-conhecimento?

“Situações de fechamento, quando a pessoa esconde de si mesma suas dúvidas e falhas, e ainda, sentimentos que participam desse cenário, na melhor das hipóteses devem apenas se transformar numa adaptação forçada. É melhor ter problemas! Problematizar para não ser problemático – para si mesmo principalmente – e sofrer na solidão e no preconceito. Essa situação solitária internamente, escondido dentro de si mesmo, pode gerar problemas futuros com prejuízos na auto estima e mesmo um quadro depressivo.” Esta definição quanto ao quadro situacional de fechamento dentro de si mesmo está contido no artigo “Medical students and counseling” de Orlando Lúcio Neves DeMarco e serve bem para entender “Rabbit Hole” do diretor John Cameron Mitchell, com a botoxada Nicole Kidman e Aaron Eckhart.

Inspirada na peça homônima de David Lindsay-Abaire o filme acompanha o um casal que tentará superar dificuldades que tiveram origem num acidente envolvendo o filho deles. Mesmo com os músculos faciais rijos, Nicole Kidman está razoavelmente bem no papel da mãe, porém somente Lars Von Trier conseguiu extrair dela uma ótima atuação em Dogville. Além dessas limitações, o texto é bom e o clima construído pelo diretor conduz o espectador a uma viagem que os protagonistas fazem em busca do auto-conhecimento, isto é, a carga com a qual eles tem de viver agora não é mais de convenções, está recheado de enganos, frustrações e silêncio.

“Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela”, de acordo com DeMarco este é o instrumento para entender sua solidão num território mais vasto. Mesmo a busca por ajuda psicológica não supre as necessidade das personagens e, muito mais profunda é a libertação de uma culpa proposta por eles mesmos a eles mesmos. Da mesma forma que “buraco do coelho”, no clássico Alice no País das Maravilhas, representa uma viagem de conhecimento, Rabbit Hole dá a oportunidade de reagir à realidade de forma não representativa, fugindo das possibilidades de alternativas, isto é, eu posso fingir que nada aconteceu ou acreditar que o que aconteceu não se resolverá facilmente e terei que conviver com ela eternamente. O roteiro propõe caminhos, mas se auto-sabota, afinal isso se faz inicialmente problematizando, pensando acerca do que ainda não foi pensado a respeito de si mesmo.

Eu não me conheço. Não sei lidar com perdas, frustrações, tristeza. Além destas coisas, busco apenas exorcizar meus demônios por meio de um exercício prático: assistir a uma hora e meia de filme e, na catarse, resgato a esperança e vivo esperando. Esperando o quê? Bem, isso é uma outra história, um outro filme, um outro livro…

Rabbit Hole (2010)
Direção: John Cameron Mitchell /Roteiro: David Lindsay-Abaire / Elenco: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Miles Teller e Sandra Oh

Entradas Mais Antigas Anteriores

%d blogueiros gostam disto: