O que eles querem realmente dizer

Segue uma lista de expressões utilizadas pelos críticos e o que elas realmente querem dizer:

“Acessível”: não tem muitas palavras grandes – Mark Kohut, autor e consultor

“Aclamado”: vendeu pouco – Peter Ginna, editor, Bloomsbury Press

“Capta os tempos em que vivemos”: Capta os tempos em que vivíamos dois anos atrás – Mark Athitakis, crítico

“Bom para a sala de aula”: As crianças não vão ler a não ser que sejam obrigadas – Linda White, promotora, Wonder Communications

“Continua na orgulhosa tradição de J.R.R. Tolkien”: Esse livro tem anões – Jason Pinter, autor infanto-juvenil

“Épico”: muito longo – Sheila O’Flanagan, autora (Stand by Me)

“Literatura étnica” – Qualquer coisa escrita por pessoas não-brancas – Rich Villar, diretor executivo da Acentos

“Conto arenoso das ruas” – Autor negro da periferia – @DuchessCadbury, estudante de literatura

“Prosa lapidária” – Eu não sei o que metade dessas palavras significam –  Jennifer Weiner, autora (Then Came You)

“Luminoso” ou “Lírico”: quase nada acontece – Peter Ginna, editor, Bloomsbury Press

“Autobiografia”: Não-ficção até que se prove o contrário – Larry Hughes, editor-chefe do The Free Press na Simon & Schuster

“Realmente emocionante”: O texto é tão ruim que vai te fazer chorar – Drew Goodman, jornalista

“Sensual”: Pornografia leve – Peter Ginna, editor, Bloomsbury Press

“Assombroso”: O personagem principal morre – Mark Athitakis, crítico

“Estreia promissora”: Tem muitas falhas, mas não é imperdoavelmente ruim – Mark Athitakis, crítico

“A voz de uma geração” – Instantaneamente datado – Mark Kohut, autor e consultor

“Um livro para o futuro” – Deixe para ler depois – Mark Kohut, autor e consultor

“Fantasmagórico” – Ficou na cabeceira da minha cama por vários meses enquanto eu lia outras coisas – Sara Eckel, jornalista do New York Times

“Shakespeariano” = Todo mundo morre no final – Mark Kohut, autor e consultor

“Hemingwayniano”: sentenças curtas. “Faulkneriano” = Sentenças longas. “Fitzgeraldesco”: Muito remorso, saudades e gente rica – Arthur Phillips, autor

Fonte: TRIP

Murilo Rubião: do fantástico ao real (parte II)

A primeira parte deste post “enorme” você lê aqui.

O caráter sombrio do conto e também o tom amargo do não desfecho dá ao conto “A armadilha” qualidades de imposição do irreal como se fosse real. A ruptura com o cotidiano, neste caso, sustenta e possibilita a fantasia e o desdobramento de uma lógica que atua como mapa para “organizar” a narrativa. Esta lógica a que me refiro é a noção do maravilhoso, da estética que concilia o natural e o sobrenatural. É a imaginação dando lugar para um mundo ficcional apoiado no real.

Murilo Rubião não me parece um autor preso a uma coerência que justifique uma narrativa modelar. Ao criar um mundo subjetivo e dado a múltiplas interpretações, os motivos da fantasia ficam em segundo plano. O que interessa é ser devorado pelo universo proposto.

Alguns detalhes são colocados pelo autor durante o conto, que explicito aqui, como que para complicar a interpretação: a maleta volumosa que Alexandre traz consigo quando entra no prédio, continha o quê? Porque estão numa sala com portas e janelas de aço? O conto é muito curto (short story) para se limitar à explicação dos objetos ali postos para criar e concentrar na “não -resposta” seu elemento mais precioso. Há ausência de explicações, mesmo que extraliterárias, para os acontecimentos absurdos. E talvez por isso, constitua a noção de que o sobrenatural não pode ser, ou não deve ser, explicado por intervenções ou resoluções rápidas, a fim de um final feliz ou compreensível à maioria dos leitores.

Portanto, a literatura fantástica de Rubião é tão rica que qualquer tentativa de explicar o conto além de sua natureza seria o mesmo que tentar explicar ironia à uma criança de dois anos de idade. Se na maior parte do tempo aceitamos situações verossímeis, qual o problema em não dar respostas, ou ver a solidão de uma personagem ou pensar no definhar de seu corpo durante um, dez ou mil anos? Geralmente, aceitamos explicações parciais a respeito do que nos cerca, porque haveria “A armadilha” ser diferente? Nisto temos mais uma vez a tensão entre o real e ficcional, nos levando à dúvida do que é real, ou para, além disso, problematizar a realidade acima das estruturas fáceis dos contos de fada.

Referências
SCHWARTZ, Jorge (Org.). Murilo Rubião: Literatura Comentada. São Paulo: Abril Educação, 1982, p. 99 a 102

Murilo Rubião: do fantástico ao real

Num prédio abandonado um diálogo entre dois homens inicia-se de modo não convencional e, seu término troca a posição dos dois em relação a quem é a caça e quem é o caçador, um trocadilho não tão necessário assim, por conta do título no conto de Murilo Rubião, “A Armadilha”, contido em no livro “A casa do girassol vermelho”. A escolha do conto “A armadilha” para este post se deve pela curiosidade em investigar Murilo Rubião, até então desconhecido pelo autor deste trabalho. Entretanto, este não é um privilégio meu, visto que a obra do autor permaneceu desconhecida de grande parte dos leitores brasileiros, por aproximadamente três décadas. Por volta de 1974, é que Murilo Rubião torna-se conhecido.

Inicialmente, é preciso reconhecer que Rubião faz parte dos autores brasileiros que tendem para o universo fantástico. Elementos sobrenaturais se sobrepõem ao rotineiro, e mistura o real com o ficcional que implica numa narrativa envolvente e subjetiva, isto porque, o autor não dá respostas fáceis e abre possibilidade para algumas possíveis interpretações, e este é o caso do conto já citado.

A principal característica de “A armadilha” é tentar descobrir o porquê de Alexandre Saldanha Ribeiro, protagonista da ação, estar indo ao encontro de alguém sobre quem Rubião não dá a mínima pista. É um jogo de armadilha com o próprio leitor, que precisa dar conta de descobrir os porquês e se livrar do enigma proposto pelo autor. Não há o desenvolvimento da personagem principal, nem seu antagonista. São apenas os dois em ação, porém a progressão se dá no embate das duas personagens. O autor não está muito interessado em explicar coisa alguma, e é aqui que se apóia o elemento fantástico da obra: as cenas descritas trazem luz e sombra, e acima de tudo questionam o leitor se é verossímil o que se está lendo. O choque inicial causado pela recepção do velho à Alexandre, já incomoda o leitor na busca por respostas: quem é ele? Porque está com uma arma? O que ele faz ali?

Rompendo padrões do realismo tradicional, Rubião nos conduz à um intrigante diálogo, onde só é possível deduzir o que se passa entre as duas personagens. A cada frase, a troca de papéis se impõe: quem é o perseguidor, quem é o perseguido?. A utilização de uma linguagem simples aproxima o leitor e, parece tornar, mesmo que por alguns minutos a experiência próxima da realidade: há um movimento claro, por parte das personagens, de “surpresa-ação-surpresa-reação”.

Este movimento de “surpresa e ação” faz todo o sentido no final do conto, que na troca de papéis oferece a possibilidade de completar o aspecto cíclico. Num dado momento, Rubião destaca o seguinte sobre uma de suas personagens: “Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto”. É como se Alexandre fosse arrancado de suas recordações, porém em nenhum momento temos acesso à elas.

O autor nos dá a conhecer apenas a parte central da história, não é importante para ele nos indicar nem o começo, nem o fim. Mais uma vez, o movimento de surpresa e ação, salta do conto e toma conta do leitor: surpresa diante do desconhecido, do que não é explicado, e a reação de prosseguir na construção de estruturas possíveis para dar conta de fazer algum sentido. Rubião, ao fugir de uma escrita rebuscada, o que aproxima o leitor, não torna sua conclusão fácil, isto é, não há pistas que sugiram algum outro sentido que não o subjetivo.

Na metade do conto, percebemos a existência de uma terceira personagem (Ema), que não faz parte da ação, mas que parece ser objeto de disputa entre os dois. Por outro lado, não é apontada nenhuma relação passional entre eles. Porém, o questionamento persiste quem é Ema? Qual a importância dela na narrativa? Longe de ser apenas um objeto decorativo da ação descrita por Rubião, Ema é a responsável por indicar que a personagem Alexandre sofre com a humilhação do outro, diante do fato de que ela havia abandonado o velho: “Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.” Ainda assim, quem é Ema?

Rubião, num processo de auto-reflexão e constante reiteração, reescrevia continuamente seus contos, talvez numa tentativa de busca desesperada por clarificar sua linguagem ao produto que temos em mãos hoje. Esse lançar-se à perfeição traduz a necessidade do autor em codificar sua obra, mas produz o oposto, é clara demais para ser descrita como algo simples. Partindo para uma interpretação pessoal, por isso subjetiva, devo destacar antes de tudo que, SCHWARTZ (1982) propôs alguma lógica aos contos de Rubião. “A armadilha” está contida numa subdivisão nomeada por ele de “tendência ao infinito”. Este elemento, a infinidade/eternidade, fica evidente na última frase do conto analisado aqui: “Aqui ficaremos, um ano, dez, cem ou mil anos”.

Teeteto: uma introdução ao conhecimento.

Teeteto é um diálogo entre Sócrates e o jovem Teeteto. É a transcrição lida por Euclides à Terpsion baseado na conversa que tiveram quando Teeteto ainda era jovem. Em grande medida o objetivo central da obra é discutir a respeito da natureza do conhecimento e a possibilidade de se atingir tal fim por meio da razão, além de promover a descoberta do pensar, mais especificamente, como pensar o pensar.No diálogo travado por eles, fica evidente que o rumo dado por Sócrates pretende provocar o jovem a ir além das limitadas definições dadas por ele mesmo, pensar além do concreto. Fica mais claro, na definição inicial dada pelo filósofo: “Logo, não compreenderá a arte do sapateiro nem qualquer outra arte, quem não souber o que seja conhecimento“ que a busca pelo saber inicia-se quando superados os pré conceitos definidos ao longo da vida.

Há também por todo o texto, pontualmente, o conceito de relativismo, tão em moda atualmente. Ao definir que aparência e sensação se equivalem com relação ao calor e às coisas do mesmo gênero; tal como cada um as sente, é como elas talvez sejam para essa pessoa. Sócrates inicia a discussão sobre a construção do conhecimento a partir das percepções, apesar de considerar posteriormente que não pode ser a verdade percepção nem opinião verdadeira, nem uma explicação acompanhada de opinião verdadeira o relativismo, isto é, do meu ponto de vista eu compreendo o mundo.Percebe-se também a presença do que os teóricos mais tarde denominariam método da maiêutica, a descoberta, a busca pelo esclarecimento, pelo conhecimento. Segundo ele,  enquanto o indivíduo não se voltasse para si próprio e reconhecesse suas limitações no “Conhece- te a ti mesmo”, era seu lema, o esclarecimento não se materializa. E isso se demonstra em Teeteto no momento em que diz ao jovem: “Ao ouvirmos os sábios, a rigor nunca deveríamos empregar expressões como: Alguma coisa, ou Pertence a alguém ou a mim, nem Isto, nem Aquilo, nem qualquer outra designação que fixe determinada coisa”. Sendo assim, o método maiêutico é utilizado não dando respostas prontas, mas se utilizando das afirmações de Teeteto para que ele mesmo possa enxergar onde errou e perceba o conhecimento de forma abrangente e não limitada.

Traçando um paralelo com a disciplina Educação em Espaços não escolares, o método aplicado por Sócrates, infelizmente, é pouco ou em nenhuma medida aplicado pelos instrutores, professores, ou seja profissionais da área da educação. O fato mais evidente é a correção imediata à maneira como crianças e jovens adultos expressam suas idéias e conceitos. Ao apresentá-las, geralmente, ouvem de seus mestres que não tem sentido o que dizem, ou o mais estarrecedor, que não pensam da maneira adequada. Como se fosse possível uma única maneira de pensar. O entendimento do conhecimento como algo inerente ao ser humano e não concentrado em algo ou alguém traz luz à obscura maneira de pensar de muitos professores, que nessa perspectiva, nem poderiam estar nesta função, visto que não disseminam o conhecimento, pelo contrário, barra-o. Sócrates era considerado um parteiro das idéias, porque os libertava para o pensamento, para a filosofia. Por que não temos esse método, esse conceito, permeando nossas salas de aula, nossa reuniões de planejamento? Porque insistimos em acreditar que nós detemos todo o conhecimento?

Embora, muitos considerem que o método de Sócrates só possa ser aplicado em estudos de matemática, conhecido como “Prova por Absurdo”, é possível estendermos a metodologia para os mais simples trabalhos e tarefas no que diz respeito ao entendimento do que é educação e qual o papel do professor nela. Há ainda uma velha compreensão de que uma parte de conhecimento é suficiente para o juízo do todo. Porém, temos em Teeteto um vislumbre do que não é o conhecimento. Nas palavras de Sócrates quem adquire o conhecimento de algo em parte fecha os olhos e deixa de absorver o todo e, assim sendo, ao lembrar-se alguém de alguma coisa de que já teve conhecimento, não a conhece por não a ter diante dos olhos, o que dissemos ser positivamente monstruoso.

É muito provável que uma simples leitura de Teeteto não fará diferença para quem não estiver disposto a reconsiderar seus absolutos posicionamentos diante do conhecimento, diante da educação, da vida, de um mundo de sentido e significados. Apenas a leitura de um texto como esse não reverberará a verdade, o esclarecimento, como um diálogo realizado entre aluno e educador. Não aquele diálogo pontuado por um maniqueísmo displicente. Muito pelo contrário, se conseguirmos superar a distância que nos afasta do outro, por meio do diálogo, da troca de idéias, do conhecimento, talvez seja possível o que tanto se fala no meio acadêmico a respeito da revolução pedagógica que nosso país tanto necessita.

Ao término da leitura de Teeteto fica a sensação, utilizando um termo recorrente do texto, de que nada sabemos. Porém, os ecos de pressa em correr atrás do conhecimento e da verdade contida, não em coisas, mas no outro, no diálogo, na interação com o outro, proporciona um olhar para um horizonte em que abandonaremos nossa velha forma de pensar o todo e passamos a mergulhar na profunda riqueza da sabedoria contida, como diria Sócrates, dentro de nós mesmos, dos nossos alunos, dos nossos mestres.

Uma missa

O conto Missa do Galo de Machado de Assis, originalmente publicado em Páginas recolhidas (1899), é narrado por Nogueira, um jovem de dezessete anos de idade que veio ao Rio de Janeiro para estudar. Ele mora em Mangaratiba, porém está hospedado na casa do escrivão Menezes, que havia sido casado com uma de suas primas. Menezes é viúvo, e casado pela segunda vez com Conceição, considerada uma “santa”, pois se acostumou com uma relação extraconjugal do marido, que dorme fora de casa uma vez por semana, sob o pretexto de ir ao teatro. Como personagens adjuvantes apresentam-se Dona Inácia, mãe de Conceição, e duas escravas.

A narrativa ocorre na véspera do Natal, numa das noites em que Menezes vai ao teatro. Nogueira combina com um vizinho ir à missa do galo e que o acordará à meia-noite. Enquanto espera esse amigo na sala da frente, lê um romance, Os três mosqueteiros, quando ouve se aproximar Conceição. Eles conversam sobre assuntos variados, e o tempo passa. A conversa rende produzindo risos altos, por isso eles decidem se aproximar e falarem baixo para não acordar D. Inácia. Contraditoriamente, o vizinho grita na rua que é hora da missa do galo e Nogueira tem de ir. Depois deste dia, Conceição conserva seu antigo modo de ser, sem de longe lembrar a intimidade da noite anterior. No Ano Novo, ele volta para Mangaratiba. Em março, volta para o Rio de Janeiro, entretanto o escrivão havia morrido. Jamais encontrou Conceição novamente, soube depois que ela havia se casado com o escrevente do marido.

Ao iniciar a narrativa com a frase “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”, Machado de Assis explora a descoberta de um novo mundo por Nogueira. O encontro enigmático com uma mulher, Conceição, é apenas uma das partes dessa descoberta. A referência religiosa do título é enganosa, pois o interesse de Nogueira pela missa é outro. Não somente pelo título, como pela estrutura narrativa, Machado apresenta pistas que criam o caráter enigmático do conto. Um exemplo desse caráter é o que ocorre com quando, por curiosidade, pede ao escrivão que o leve, quando este diz certa noite que irá ao teatro. O silêncio de Menezes, os risos das escravas e a atitude de D. Inácia fazem com que ele perceba algo de estranho, algo que ele precisa elucidar. Esse novo mundo explorado por Assis evidencia-se na cena principal, o encontro casual, ou não, de Nogueira com Conceição. Ele perceberá que no mundo adulto as atitudes são proporcionais às situações. Ao se transformar de “santa” (outro termo religioso, com duplo sentido, pois não evoca a santidade e sim a complacência, a submissão da mulher ao marido, o tapar dos olhos frente à desilusão) para alguém capaz de rir, sonhar, de falar de suas lembranças, passando a ter vida, quando Nogueira percebe que “Tal foi o calor de minha palavra que a fez sorrir”. Não somente a transformação de Conceição ocorre como também a de Nogueira, que ao passo da conversa, irá transformar-se num homem, com toda sua complexidade de emoções, e virilidade acentuada. A aproximação dos dois se dá fisica e progressivamente, o vulto torna-se uma mulher, sensual. E está claro que o jogo proposto é consensual, “E não saía daquela posição que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras”.

Há indicações de biógrafos que Machado de Assis considerou que suas obras revivessem em vez de ficarem fadadas ao esquecimento dos leitores mais exigentes, concordando com Calvino que pontifica ser um clássico “ aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível” (2004, p. 15)”. O tema do despertar da sexualidade não era novo na literatura brasileira, entretanto a forma com que Machado considera suas nuances e a elegância de sua escrita descrevem, mesmo nos dias atuais, o que se passa com um adolescente ou jovem quando de sua iniciação sexual. Sendo assim, Perissé considera que,

a arte de ser original, e, concretamente, de escrever de maneira original, consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já pensou, já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita (PERISSÉ, 2003:www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm).

A sensualidade do encontro dos dois, ou do ponto de vista do personagem principal, é proposital e contrapõe-se ao que se possa imaginar ao ler o título do conto. De um lado está Conceição, consciente de sua sensualidade, do que é capaz de provocar no outro. Explica-se sua postura anterior dada a limitação das regras de comportamento que deve obedecer. Conceição havia adotado a conduta rígida, escondendo sua sensualidade. O contato com o estudante, o desconhecido, em uma situação casual cria a possibilidade de outro mundo. A racionalidade é colocada em segundo plano, trazendo o desejo ao centro da ação. Explicitasse essa realidade no conto quando Nogueira percebe que  “Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros e menos magros do que se poderiam supor”

Essa troca, esse jogo, essa aproximação só é possível, pois do outro lado temos Nogueira, em toda sua inocência. É seu olhar de interesse que permite a revelação da nova Conceição. Seu despreparo para dominar situações como esta, é solo fértil para brotar toda a variedade de emoções, próprias do desejo. Porém ele é forçadamente tirado dessa experiência, afinal, ele tem de ir à Missa do Galo. Mas é na igreja que a subjetividade religiosa da proposta de Assis fica clara, quando a figura de Conceição, mais de uma vez, se interpõe entre ele e o padre. Sua auto-absolvição fica por conta de seus dezessete anos, entretanto ao “confessar”, ele está assumindo sua condição de homem, por isso não justifica a argumentação da inocência.

Para Pelizzaro, essa dissimulação é a arte de fingir, ou melhor, do propósito de ludibriar a outrem que se encontra no cerne das posições adotadas em momentos distintos pelo escrivão e por sua esposa, respectivamente. Os fragmentos há pouco evocados permitem inferir que Machado amplia as indefinições textuais do conto. O narrador não transmite com segurança ao leitor as informações atinentes à situação que vivenciara na casa de Menezes. Há uma precariedade que influi não apenas no funcionamento da memória de Nogueira, dificultando a recuperação do fato, mas que atua igualmente no seu esforço em compreendê-lo.

O conto Missa do Galo apresenta seu caráter enigmático, ao propor inúmeras leituras e interpretação, sendo esta apenas uma dela. Qual a mensagem, qual significado é maior, quais conflitos devem ser resolvidos, quem foi que provocou, quem foi que cedeu, o que ficou subentendido, são estas as questões que Machado de Assis evoca. A cumplicidade do leitor é necessária para atenuar as regras do jogo, que colocadas de outra forma, pareceriam propositais. Principalmente por causa de o conto ser narrado em primeira pessoa, o leitor pode se colocar no lugar do narrador e se tornar cúmplice do desenvolvimento da narrativa. Ao jogar com as emoções do jovem e da mulher, as defesas das personagens centrais serão realizadas se tomados os mais diversos pontos de vista propostos por Machado de Assis.

Os fatos narrados pelo autor, no leva a pensar sobre a questão da traição. Se a Igreja da época, bem como a sociedade, entendia traição tanto como desejo de trair, como o fato propriamente dito, as insinuações e interpretações possíveis entre as personagens principais, também caracterizam adultério. Machado de Assis tenta incomodar o leitor quando apresenta a complexidade da temática fidelidade e traição. O conto, ainda na visão de Pelizzaro expõe as fragilidades de um jovem que mal sabe lidar com as circunstâncias oriundas da manifestação de um sentimento amoroso, a dificuldade de uma esposa em ter um sono tranqüilo na noite em que o marido não dorme em casa porque vai ao encontro da amante, e a tentativa de uma mulher casada em seduzir o hóspede sem ser flagrada por sua mãe, já que não quer deixar qualquer vestígio de uma possível transgressão às convenções sociais.

O autor não pretende, em momento algum, estabelecer a verdade absoluta, muito pelo contrário, visto que a verdade depende do ponto de vista de quem avalia, flertando com o relativismo moderno. Se Nogueira, o narrador, nunca conseguiu entender a conversa entre ele e Conceição, é evidente que se torna perigosa qualquer leitura ou análise apressada e descuidada. Por isso, é possível apenas especular sobre os possíveis desdobramentos da trama, neste caso, o encontro mais que subjetivo e intencional entre Nogueira e Conceição. E somente esse aspecto eleva Machado de Assis ao lugar comum e quase unânime: o autor não é somente um grande escritor brasileiro, sua obra tem caráter universal.

Referências

ASSIS, Machado de et al. Missa do galo: variações sobre o mesmo tema. São Paulo:

Summus, 1977.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

PERISSÉ, Gabriel. O conceito de plágio criativo. Disponível em:

<www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm>. Acesso em: 20 nov. 2007.

A faculdade de intercambiar experiências

Para Mircea Eliade, “conhecer os mitos é aprender os segredos das coisas”. Um mito, bem diferente do conceito predominante, tem como função explicar a origem das coisas, nesse sentido Eliade amplia a ideia para além “das coisas”: explora o aprendizado do segredo. Dada uma sociedade, certamente haverá um mito para explicar como se deu a vida e o funcionamento do que os cerca. Seja numa aldeia indígena, uma tribo africana ou uma tradição cristã, todas carregam o mito de evidenciar “os princípios”. Estes entes sobrenaturais trazem para os iniciados um conjunto de elementos de forma a orientar condutas, explicar eventos naturais ou até mesmo restringir o uso deste ou daquele objeto num ritual. Quanto questionados do porquê, respondemos: Porque é assim! E, observadas as variantes, o que se tem em comum é o aprendizado, por meio desse “entes”, dos segredos das coisas, da vida.

Em uma determinada tribo indígena, há separações complexas entre o que é mito, contos e fábulas. E, por meio dessas divisões determina-se quem pode acessar esses conhecimentos, ou seja, os iniciados tem primazia em relação à mulheres e crianças. Por exemplo, é por meio de um ritual (“ditado” por estes “entes”) que se dá poder para este iniciado. O poder de entender e reproduzir e até mesmo interferir nesta ou naquela realidade. Portanto, independete de qual orientação religiosa, cultural ou social tal sujeito é, o mito é o caminho pelo qual se alcança a iluminação: o sentido ou segredo das coisas.

Walter Benjamim por sua vez afirma que “no momento em que a experiência coletiva se perde e a tradição comum já não oferece nenhuma base segura, outras formas narrativas tornam-se predominantes.” A partir do momento em que a narrativa é “atropelada” por outras formas de comunicação, como a imprnsa, por exemplo, o sujeito já não tem bases para alicerçar suas experiências. Isso equivale dizer que a sociedade moderna perdeu a faculdade de intercambiar experiências, numa afirmação também de Benjamim. Com o advento do romance, e da informação, já não há referências e muito menos o  exercício da criatividade ao recontar um história do seu jeito. Nos último séculos e mais fortemente nos últimos cinquenta anos, a sociedade passou a consumir notícia como se nada fosse: aquele evento que antes ocorria em outra parte do mundo e chegava até nós carregada de um força simbólica perde sua intensidade, pois nao há espaço para preenchermos as lacunas, tudo já vem pronto, cheio de detalhes, vídeos, imagens.

O que se perde neste trânsito de informações é a arte de representar a realidade se utilizando de formas narrativas ricas de simbologia, valores, etc. Para ilustrar esta questão, da ausência da experiência coletiva, temos a morte e seu impacto. Em outros tempos se experimentava a morte da mesma forma que a vida. Na mesma cama em que se dava a luz, morria-se. Hoje, as crianças são trancafiadas em casa e sob a orientação de um adulto, são impedidas de “experimentar” o rito fúnebre. Os rituais, os processos, as tradições dão lugar a um sem número de ações práticas que coibem e não oferecem bases para o sujeito e muito menos a sociedade de aprender a experiência comum.

Receita…

Texto originalmente escrito por Charles Kiefer, em seu blog.

1. Ninguém nasce escritor, torna-se escritor. E o que leva alguém a se transformar em escritor é a genética e a cultura. A primeira é destino, a segunda – é conquista. Para a primeira, ainda não temos solução. Para a segunda, basta a vontade, o desejo de ser. Como dizia Jean Paul Sartre, um ser humano será, acima de tudo, aquilo que tiver projetado ser.

2. Vontade sem ação é devaneio. Para de sonhar e age. Escrever é como nadar, como andar de bicicleta – é preciso movimentar os braços, movimentar as pernas. No caso da escrita, é preciso movimentar o cérebro.

3. O melhor exercício para o cérebro é a leitura. Além de nos transformar em escritores, a leitura é importante para a saúde, evita o Mal de Alzheimer.

4. Um escritor não precisa ser um lobo solitário, como pregava Hermann Hesse. Pode – e deve – freqüentar cursos acadêmicos, oficinas literárias. Aliás, hoje em dia, é aconselhável que pretendentes à escritura evitem o romantismo e as idéias feitas.

5. Desde o tempo de Platão e Aristóteles, só há dois tipos de escritores, os idealistas e os materialistas, e não há conciliação entre os dois. Há extraordinários escritores idealistas e péssimos escritores materialistas, e há extraordinários escritores materialistas e péssimos escritores idealistas.

6. Ser um escritor idealista ou materialista é só uma questão de ideologia, de visão de mundo. Evite, apenas, o panfletarismo, que é o uso servil das idéias. Não existe literatura isenta, politicamente. Na estrutura profunda de um texto, a ideologia sempre se manifesta. Na estrutura aparente, ou de superfície, o que importa é a técnica.

7. Só existem bons e maus escritores, no sentido técnico. O que são bons escritores – ainda não sabemos. O que são maus escritores nós o sabemos sobejamente.

8. São maus escritores aqueles que constroem histórias desconexas, de temas inexpressivos e estereotipados, em estilo adiposo, desajeitado, flácido, sem harmonia e sem sutileza, com cenas e situações inverossímeis, compostas com descrições desnecessárias e sem articulação com a narração, e arrematadas com diálogos artificiais e inúteis.

9. Todo escritor é um vir a ser. Acreditar-se pronto e acabado é o princípio da morte autoral. A obra prima pode ser a primeira, a décima segunda ou a última obra de um determinado autor. Quem assina a obra completa é a morte. Enquanto vivo, o escritor é um ser em construção. Por isso, o orgulho e a vaidade são extremamente perigosos. Quem sacraliza o próprio texto pode inventar uma nova religião, mas não uma grande literatura.

10. Um escritor somente é escritor quando menos é escritor, no instante mesmo em que tenta ser escritor e escreve. Na absoluta solidão de seu ofício, enquanto a mente elabora as frases e a mão corre para acompanhar-lhe o raciocínio, é escritor. Nesse espaço, entre o pensamento e a expressão, vibra no ar um ser sutil, fátuo e que, terminada a frase, concluído o texto, se evapora. Nesse átimo, o escritor é escritor. Aí e somente aí. Depois, já é o primeiro leitor, o primeiro crítico de si mesmo e não mais escritor.

Fonte: Livros só mudam pessoas

Entradas Mais Antigas Anteriores

%d blogueiros gostam disto: