O que tem de errado com este texto???

Deus te tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?[..] Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.

(Elienai Cabral Jr.)
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Pequena discussão sobre língua e fala

Sabemos que nas línguas orais a língua (órgão) é o principal articulador na produção do som. E que nas línguas de sinais o seu principal articulador na produção dos sinais são as mãos. Então você saberia explicar qual é a diferença entre língua e fala? Por que muitos resistem em aceitar a produção de sinais feitos pelas mãos de um Surdo como Língua?

Embora os conceitos entre língua e fala tenham sido definidos por Saussure em 1916, na comunidade surda os termos ganham outros significados. Por exemplo, a fala na área da surdez pode ser considerada o som produzido pelo sistema fonador, independente ser houver verbalização, isto é, o som serve para indicar e apoiar um gesto, não necessariamente representa uma palavra.  No que se refere a língua, temos a LIBRAS como um sistema diferente da língua portuguesa, apesar de falar uso do alfabeto e do idioma. Para ficar em apenas um exemplo, temos o batismo do sinal pessoal. O batismo só pode ser realizado por um surdo. O nome, dentro da comunidade surda, diz respeito à característica mais marcante das pessoas. Isto é, a comunidade observa o comportamento do indivíduo e atribui a ele um nome para ser utilizado dentro do grupo associando assim ao nome da pessoa.

Sendo assim, compreender os aspectos de língua e fala no âmbito da linguagem brasileira de sinais é de extrema importância para não incorrer no ato falho de acreditar que apenas pela aprendizagem de LIBRAS uma criança surda, por exemplo, seria suficiente para que ela interagisse nos mais diversos contextos sociais. Pelo contrário, a discussão precisa avançar para outras questões como o acompanhamento de terapia fonoaudiológica que ofereça estímulos para sistematização da língua oral.  A aceitação ou não da produção de sinais feitos pelas mãos de um Surdo como língua remonta um passado não muito distante que considerava o portador de deficiência auditiva  como doente mental, além do que a filosofia oralista contribui consideravelmente para a produção de uma imagem para os surdos como estrangeiros (no conceito lingüístico) em sua própria terra natal.

Parece haver uma necessidade de que o surdo SE CURE de uma doença, quando na verdade a participação ativa deste na sociedade depende de aceitarmos a produção de sinais feitos por eles como algo normal, além de ser importante que o profissional da área da educação domine tal estrutura lingüista e interaja com este surdo na integração deste como o nosso mundo. Não esquecendo que ao longo da vida, este construiu um mundo de significados que não pode ser esmagado por nossos preconceitos.

Portanto, muitos que ainda resistem em aceitar LIBRAS com língua demonstram como a ignorância empobrece o sujeito. O contesto no qual todos estamos inseridos é um só, o que na verdade existe são múltiplas formas de interagir com este mundo e um portador de deficiência auditiva tem tanto direito quanto os auto intitulados “normais ” de se comunicar e de se expressar fazendo uso da língua que aprendeu, neste caso, com sinais feitos pelas mãos. Enquanto insistirmos em não abranger nossa compreensão de mundo, estamos limitando a atuação dos surdos e alimentado os preconceitos, velhos paradigmas e o mais alarmante: silenciando-os.

 

Bibliografia

GOLDFELD, Márcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio- interacionista / Márcia Goldfeld – São Paulo: Plexus, 1997

BOING, Maria Salete. A natureza dos signos da libras : legitimação e linguística da libras enquanto língua.    Lages: Ed. do Autor, 2004.

A significação: uma abordagem pedagógica

Por ser social, o homem é capaz de pensar conceitualmente e de forma alegórica, de maneira a transcender o conhecimento empírico das coisas e do mundo, assim como tornar-se apto a estabelecer as relações mais lógicas entre elas. De acordo com essa afirmação de Lévi-Straus é possível compreender que para validar a afirmação acima basta pensarmos, logo existimos e, existindo passamos a identificar e relacionar o mundo ao nosso redor. Além disso, na teoria do desenvolvimento e aprendizagem de Vygosty, o ser humano distingue-se dos animais porque possui a autoridade consciente de sua conduta, isto é, o homem é capaz de pensar em elementos ausentes, de imaginar circunstâncias vividas, de planejar ações, entre outros. Esta afirmação “o homem não pensa sozinho, mas o faz socialmente” é de Cardoso de Oliveira (1998),em “O trabalho do antropólogo”. E, neste contexto de Educação em ambientes não escolares, vem bem a calhar, pois na medida em que educador e educando estabelecem relação inicia-se uma “teia de significados” que despertam a faculdade de intercambiar experiências e assim o fazendo, deixam de pensar sozinho e pensam um com o outro. Isto é, numa explicação “moderna” e não filosófica da afirmação.

A significação das coisas do mundo é o início da atuação do Homo sapiens sapiens. Isto porque, ao representarmos as coisas que nos cercam exercitamos a representação e, baseado na premissa de que o homem não pensa sozinho é na inter-relação com o outro que estabelecemos o diálogo filosófico na busca por entender aquilo que nos cerca. E de acordo com Bakhtin, refletir a respeito do modo como construímos a nossa realidade, o nosso universo de significações, e de como a linguagem tem papel fundamental em nossa reelaboração do mundo, da vida e de nossa subjetividade, enfim, refletir sobre o caráter cultural do nosso psiquismo. O desafio de ultrapassar as marcas socialmente e culturalmente estabelecidas pelo sistema escolar representa o privilégio de se utilizar do espaço não escolar para a educação. Equivale dizer que, por conta de reunidas no mesmo local as mais diversas representações sócio-culturais o diálogo será sempre enriquecedor para quem se lança nesta viagem por compreender as nuances da educação para além dos muros da escola.

A educação não se reduz à relação educando-educador no interior de um processo pedagógico intra-escolar. Ela se insere no processo social, como parte de um todo mais amplo. A partir dessa afirmação e baseado no pressuposto acima, temos os ambientes supracitados como exemplos de ambientes que potencialmente, pelo menos teoricamente, estão abertos a intervenções sólidas e com objetivos de “repensar” ou transformar a visão de mundo de seus participantes, sejam eles educadores ou educandos.

Quando não se exige uma atuação apenas para promoção do aluno a outras séries, a educação informal:

… passa a ser objeto explícito da atenção, desenvolvendo-se uma ação educativa intencional, então tem-se a educação sistematizada. O que determina a passagem da primeira para a segunda forma é o fato da educação aparecer ao homem como problemática; ou seja: quando educar se apresenta ao homem como algo que ele precisa fazer e não sabe como faze-lo. É isto o que faz com que a educação ocupe o primeiro plano na sua consciência, que ele se ocupe com ela e reflita sobre ela. Quanto a nós, se pretendemos ser educadores (especialistas em educação) é porque não nos contentamos com a educação assistemática. Nós queremos educar de modo intencional e por isso nos preocupamos com a educação.(SAVIANI,2002,p.48).

Portanto, ao unir o conteúdo da sala de aula com a realidade de nossos educandos estabelecemos um novo horizonte: a possibilidade de existir opções que não aquelas permeadas de violência, pobreza e abandono.

Promover a capacidade para usar a leitura como forma de aprendizagem deveria constar nos primeiros tópicos das discussões pedagógicas ou ainda da formação do profissional da educação. Porém, o que encontramos são sujeitos, muitas vezes, incapazes de articular um pensamento de forma coerente e capaz de suscitar discussão. Encontramos, infelizmente, muitos profissionais da área da educação desprovidos da habilidade de pensar, isto é, reproduzem um discurso pré-estabelecido, confortáveis em suas zonas dispensam qualquer discussão, pois não se querem dar a experimentar, questionar, duvidar. Porém, mais do que a leitura (afinal, existem muitos que lêem e lêem muito) é necessário compreender o que se lê.

Em meu artigo “O problema é que você lê pouco” que você lê aqui,  discuto justamente essas questões.

Referências

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.

CARDOSO. de Oliveira, Roberto 1998. O trabalho do antropólogo. São Paulo: Unesp

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Autores associados: Campinas, SP, 14ª ed., 2002.

Escravizados pelo desejo

Tem muita gente que vive escravizada pelas ofertas de possibilidades, sou uma delas.  Desde pequenos, somos ensinados a saciar nossas vontades com um simples berro. um grito alto, sensação de urgência. Bombardeados pelo desejo de consumir lançamo-nos na busca da satisfação de nossos desejos. Entrar na aventura do ter, do possuir é cair no dilema: enquanto não tenho aquilo que quero, sou vazio, incompleto e quando consigo aquilo que quero, algo novo será meu  desejo de consumo. Queremos ser ricos, famosos, influentes, cheios de amor, cercados por amigos, felizes, bem sucedidos, nossos desejos não encontram limites… O que não contam pra nós é que NÃO TEREMOS tudo o que desejamos. Vamos experimentar o tédio e o fracasso na maior parte de nossos empreendimentos e  relacionamentos.

Aquele que já cai na armadilha do desejo, defende-se argumentando que precisa ter isso ou aquilo para ser isso ou aquilo. Porém, até mesmo o desejo é construído por um sem número de estratégias sociais e mercadológicas (discursos ideológicos) que seguem outra agenda que não a sua. Sendo assim, pensando em níveis de tentação , temos a necessidade saciar desejos fisiológicos, a necessidade do corpo. Em seguida, a dimensão da vontade de ser o centro do universo, de ter orbitando em torno de seu ego, um sem número de pessoas, necessidade da alma (?!). E finalmente, o legítimo desejo por eternidade, colocada ali pelo dono do universo (espírito). Não escolhemos desejar a eternidade. Somos assim, não desejamos morrer, não conseguimos gerenciar perdas, frustrações.

 

Atitudes violentas e irresponsabilidade

“Eu sou do jeito que eu sol”, “Vou fazer o que eu quero”, “Você não pode me dizer o que fazer”. Embora essas frases sejam vistas com mais freqüência em adolescentes, muitos adultos assumem essa filosofia como se fossem verdades absolutas e conseqüentemente tornam-se escravos delas. Geralmente, essas pessoas não estão abertas ao diálogo, pois tem dentro de si verdadeiros “egos absolutos”: tudo e todos giram em torno de suas necessidades e desejos. Se alguém não se encaixa no papel de vassalo, é facilmente substituído por outro amigo, companheiro, pet. Ah! E como existem pessoas que se dão ao trabalho de servi-las… Atitudes violentas e irresponsabilidade traduzem o que existe de mais egocêntrico dentro de suas, pois emergem de um coração entorpecido pelo orgulho.

Penso ser mais fácil crescer com o outro. É na interação com o outro que eu me descubro. Eu não sei quem sou, quem me diz isso é o outro. O “conhece-te a ti mesmo” é tarefa mais difícil e que não percebo como algo a ser completado quando se atinge a maturidade, antes penso ser uma aventura para a vida, ou para isso que chamamos de vida. A irresponsabilidade do viver sem conseqüências de alguns tem origem no “carpe diem” que, em nossos dias nada tem a ver com o conceito original. Uma pena.

Carpe Diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzido para colha o dia ou aproveite o momento.

Porque odeio discussões rasas

Incrível como algumas pessoas pensam ser “melhores” que outras por não assistirem a reality-show, enfatizando o asco pelo global Big Brother. Será que elas sabem responder quem foi que instaurou essa ilusória distinção entre o que é bom e o que ruim, na música, nos livros, na televisão, nas artes de forma geral?

Às futuras críticas, antecipo minha rejeição ao discurso raso de que existe “coisa melhor” na televisão, ou que deveriam desligá-la para ler um, novamente, “bom livro”, “bom filme”, “uma boa peça de teatro”. Hierarquias de gosto e de consumo cultural são criadas por interesses também discutíveis: o que é confeccionado para efeito de massa, tem necessariamente que ser ruim? Por exemplo, um trailer de ação com Angelina Jolie, Brad Pitt deve, por princípio, ser menos interessante que um filme francês, sueco, tcheco? Ou ainda, um best-seller é ruim por ser lido por muitos?

Podemos discutir o que é “bom gosto” mesmo? TUDO pode ser alvo de crítica dependendo da perspectiva do crítico. Inclusive, sempre quando se inicia uma nova temporada desses shows grande parte dos universitários, pseudo-intelectuais intitucionais, se prontifica em assumir uma postura do “não vejo, não gosto” e com isso, outra parcela, não assume seu consumo cultural com medo de um “bullyng” intelectual. Quer saber, dá um tempo!

Meu posicionamento é claro: gosto se discute, mas não se despreza. Para justificar esse “post”: da mesma forma que minha time-line nas redes-sociais pode ser invadida por movimentos contrários aos tais reality’s posso declarar meu gosto simplório por reality-shows. Ignorar e desprezar o consumo alheio é, isso sim, de um mau gosto terrível e consequentemente gera hipocrisia e um sem número de idiotas!

Por fim, indico o aprofundamento de uma das teorias de Gramsci sobre os “intelectuais orgânicos”. Se sua opção é apenas criticar sem ampliar as possibilidades de compreensão, sinto muito ter desperdiçado seu tempo!

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