Uma semana longe de mim

Precisava tirar férias de mim. Dificilmente conto para as pessoas quando tenho algum problema, e tirando um ou dois amigos mais chegados, poucos conseguem identificar em mim traços de insatisfação, tristeza… Não sou alegre o tempo todo, ninguém é, mas mantenho certo distanciamento de gente “pra baixo”, sabe aquelas que bastam duas palavras e a conversa ir para o precipício? Pois bem, essa semana fiz um curso distante do círculo de amizades profissionais, academicas ou religiosas. Ninguém me conhecia e eu não conhecia ninguém e os longos 5 dias passaram exatamente assim: sem novas amizades.

Sempre foi muito difícil para eu entender como é possível, em apenas alguns dias, pessoas se tornam “melhores amigos pra sempre” ou iniciar uma conversa do nada em fila de banco, transporte público…Na verdade, sinto inveja (do bem, como diz um amigo meu) de gente assim, fácil de se lidar. Na faculdade, demorei meses para identificar meus “verdadeiros” amigos e, em contrapartida, colecionei um sem número de desafetos, pessoas que não gostam de mim, assim…de graça. Eu entendo, eles tem todo direito de não gostarem de mim, não almejo ser unanimidade, eu mesmo torço o nariz para alguns deles, assim…gratuitamente. O fato é que, desde segunda-feira não fiz qualquer esforço para fazer novos amigos neste curso, me isolei propositadamente. Mesmo na hora do “coffee-break” voltava toda minha atenção para meu celular. Gostei daquele grupo de pessoas, eles não fizeram qualquer movimento em me tirar do “auto-isolamento”, melhor assim. A indeterminação é o que garante a possibilidade, sempre presente, de se operar a transformação social. Neste caso, posso afirmar estar extremamente determinado.

Depois desta imensa introdução, chegamos ao centro da meu argumento: porque temos que ser o tempo todo simpáticos, felizes, reclamar de coisas comuns para começar uma conversa? Porque temos que fingir que nos importamos com o bem estar alheio, se na verdade somos um bando de egoístas?Porque temos que rir pra quem não conhecemos? Porque no ambiente profissional fingimos ter gostado daquela piada só porque quem a fez era o chefe?! Há uma pressão cultural do “brasileiro alegre”, do bom mocismo à brasileira e a sociedade acolhe estas representações de “comercial de margarina”, além de incentivá-las.

Cansei. Pelo menos por uma semana, me distancei das características que constituem minha personalidade. Se é que isso é possível…Mesmo existindo o que se poderia chamar de regressão no desenvolvimento humano: o amadurecimento não é como uma “subida de escada”, pois o indivíduo está sempre subindo e descendo, muitas e muitas vezes, e nesse sentido, sinto que, em uma semana, subi e desci essa escada muitas vezes. Tive uma sensação de que o mundo pode ser recriado, de que “Eu” poderia ser recriado. Nas palavras de Winnicott (1982): “felizes aquele cujos pés estão bem plantados na terra, mas que, mesmo assim, conservam a capacidade de desfrutar intensas sensações, nem que seja em sonhos que são sonhados e recordados”. Quando ocorre a  instalação do si-mesmo ? É possível interferir nesta construção? Sei que estou indo em contraposição a afirmação de Peixoto em “A possibilidade de construir outras formas de se relacionar com si mesmo e com o Outro” que considera uma das características da modernidade é tentar compensar a perda dos vestígios dos indivíduos na multidão com a produção de registros em cadastros. As casas e pessoas se transformam em números. E as aglomerações passam a ter existência somente estatística. As multidões andam nas ruas lado a lado, mas, não se olham, não se falam.

O que levo dessa experiência que já tem data pra expirar: amanhã, quando iniciam-se os rituais religiosos dos quais participo (uau, essa frase pareceu ocultista, rs). Entretanto, sair da onipotência criativa para a desilusão deste tudo-poder é um exercício que recomendo a todos que lerem este post. Reconheço a dificuldade de se desligar, de afastar-se, é doloroso, cruel, e carece de um quê auto-depreciativo. Não é possível deixar ser quem se é, mas escolher como e com quem se relacionar e, em qual espaço-tempo, faz toda diferença para identificar suas verdadeiras motivações, seus desejos, o “self”, o “id”, sei lá… Ah! Em tempo, ainda não sei quem sou? Sei apenas o que não sou…isso, por si só, basta…por enquanto. Até o próximo surto de múltiplas personalidades. Bom deixa eu ir ali preparar o figurino para atuação de amanhã.

 

Tristeza para você – Parte 2

Eu gostei tanto dessa série “Tristeza para você” (veja a 1ª parte aqui) que disponibilizo um outro vídeo com a mesma temática…

Nota: Neste post há a ausência de palavras, pois se você não entendeu a mensagem não será por meio das palavras que você entenderá.

Fonte: www.thomastristonho.com.br

Tristeza para você

“Eu não penso, eu imagino e faço” Jair Fantin

Nota: Neste post há a ausência de palavras, pois se você não entendeu a mensagem não será por meio das palavras que você entenderá.

Fonte: www.thomastristonho.com.br

Ordem e Caos: a complexidade da vida

Os conceitos de ordem e caos, tanto quanto o conceito de racionalidade, não têm uma significação normativa. Desse modo, é impossível determiná-los e por isso, qualquer tentativa nesse sentido ocasiona anomalias no organismo vida: decisões erradas, feridas emocionais, entre tantos outros aspectos sintomáticos. Klaus Schulten, em seu trabalho: “Ordem do caos, razão por acaso” (Schulten, 1987), analisou a questão de como o cérebro humano usa, para o direcionamento do comportamento racional, o papel construtivo do acaso. Os movimentos sem direção definida nos leva a tomada de uma direção não organizada, só isso. Não que seja, o não tomar decisão, um movimento contrário ou negativo, apenas não é caos. Tem uma certa ordem.

O caos diferencia-se do nada, pois não tem como anticonceito do ser, a existência. Assim, quando penso estar vivendo num caos, há certa lógica ou ordem naquilo. Em outro momento, se afirmo estar vivendo ordenadamente ocorre uma certa limitação: a ordem define lugares e mostra alternativas claras para as mudanças de posição. Sendo assim, há certos cenários pré-definidos, máscaras estilizadas para cada momento e situação. Para começar a entender a complexidade da vida e nossas escolhas penso também no conceito de sincronicidade desenvolvido por Carl Gustav Jung. De acordo com os postulados do psiquiatra suiço, a sincronicidade é a experiência de ocorrerem dois (ou mais) eventos que coincidem de uma maneira que seja significativa para a pessoa (ou pessoas) que vivenciaram essa “coincidência significativa”, onde esse significado sugere um padrão subjacente. Esta não é, por acaso, a descrição do caos?!?!

Outro filósofo, Samuel Rosa, já cantou: “Vou deixar a vida me levar pra onde ela quiser” e talvez, a simplicidade da canção se aplique a não-lógica da vida, ao descontrole de suas múltiplas facetas. Seja na ordem ou no caos, sempre existirá uma coincidência significativa que muitos insistem em denominar destino, outros acreditam em forças divinas manipulando a sequência dos acontecimentos. Bem, devo admitir que não cheguei a nenhuma definição. Ao contrário, apenas há a constatação de que não temos controle sobre nada…E o nada….Isso é motivo para outro post, rs.

 

Direita versus Esquerda

A esquerda acha que o homem é bom, mas vai mal – e tende a piorar. A direita acredita que o homem é mau, mas vai bem – e tende a melhorar. A esquerda acusa a direita de fazer as coisas sem refletir. A direita acusa a esquerda de discutir, discutir, marcar para discutir mais amanhã, ou discutir se vai discutir mais amanhã e não fazer nada. (Piada de direita: camelo é um cavalo criado por um comitê).  Temos trânsito na cidade. O que faz a direita? Chama engenheiros e constrói mais pontes. Resolve agora? Sim, diz a direita. Mas só piora o problema, depois, diz a esquerda. A direita não está preocupada com o depois: depois é de esquerda, agora é de direita.
Temos trânsito na cidade. O que faz a esquerda? Chama urbanistas para repensar a relação do transporte com a cidade. Quer dizer então que a Marginal vai continuar parada ano que vem?, cutuca a direita. Sim, diz a esquerda, mas outra cidade é possível mais pra frente. A direita ri. “Outra” é de esquerda. “Isso” é de direita.

Direita e esquerda são uma maneira de encarar a vida e, portanto, a morte. Diante do envelhecimento, os dois lados se dividem exatamente como no urbanismo. Faça plásticas (pontes), diz a direita. Faça análise, (discuta o problema de fundo) diz a esquerda. (“filosofar é aprender a morrer”, Cícero). Você tem que se sentir bem com o corpo que tem, diz a esquerda. Sim, é exatamente por isso que eu faço plásticas, rebate a direita. Neurótica! – grita a esquerda. Ressentida! – grita a direita. A direita vai à academia, porque é pragmática e quer a bunda dura. A esquerda vai à yoga, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado. (Processo é de esquerda, resultado, de direita).  Um estudo de direita talvez prove que as pessoas de direita, preocupadas com a bunda, fazem mais exercícios físicos do que as de esquerda e, por isso, acabam sendo mais saudáveis, o que é quase como uma aplicação esportiva do muito citado mote de Mendeville, de que os vícios privados geram benefícios públicos — se encararmos vício privado como o enrijecimento da bunda (bunda é de direita) e benefício público como a melhora de todo o sistema cardio-vascular. (Sistema cardio-vascular é de esquerda).

Um estudo de esquerda talvez prove que o povo de esquerda, mais preocupado com o processo do que com os resultados, acaba com a bunda mais dura, pois o processo holístico da yoga (processo, holístico e yoga são de extrema esquerda) acaba beneficiando os glúteos mais do que a musculação. Dieta da proteína: direita. Dieta por pontos: esquerda. Operação de estômago: fascismo. Macrobiótica: stalinismo. Vegetarianismo: loucura. (Foucault escreveria alguma coisa bem interessante sobre os Vigilantes do Peso).  Evidente que, dependendo da época, as coisas mudam de lugar. Maio de 68: professores universitários eram de direita e mídia de esquerda. (“O mundo só será um lugar justo quando o último sociólogo for enforcado com as tripas do último padre”, escreveram num muro de Paris). Hoje a universidade é de esquerda e a mídia, de direita. As coisas também mudam, dependendo da perspectiva: ao lado de um suco de laranja, Guaraná é de direita. Ao lado de uma Coca-Cola, Guaraná é de esquerda. Da mesma forma, ao lado de um suco de graviola, pitanga ou umbu (extrema-esquerda), o de laranja vira um generalzinho. (Anauê juice fruit: 100% integralista).

Leão, urso, lobo: direita. Pinguim, grilo, avestruz: esquerda. Formiga: fascismo. Abelha: stalinismo. Cachorro: social democrata. Gato: anarquista. Rosa: direita. Maria sem-vergonha: esquerda. Grama: nacional socialismo. Piscina: direita. Cachoeira: esquerda. (Quanto ao mar, tenho minhas dúvidas, embora seja claro que o Atlântico e o Pacífico estejam, politicamente, dos lados opostos aos que se encontram no mapa). Lápis: esquerda. Caneta: direita. Axilas, cotovelo, calcanhar: esquerda. Bíceps, abdomem, panturrilha: direita. Nariz: esquerda. Olhos: direita. (Olfato é sensação, animal, memória. Visão é objetividade, praticidade, razão). Liquidificador é de direita. (Maquiavel: dividir para dominar). Batedeira é de esquerda. (Gilberto Freyre: o apogeu da mistura, do contato, quase que a massagem dos ingredientes). Mixer é um caudilho de direita. Espremedor de alho é um caudilho de esquerda. Colher de pau, esquerda. Teflon, direita. Mostarda é de esquerda, catchupe é de direita – e pela maionese nenhum dos lados quer se responsabilizar. Mal passado é de esquerda, bem passado é de direita. Contra-filé é de esquerda, filé mignon é de direita. Peito é de direita, coxa é de esquerda. Arroz é de direita, feijão é de esquerda. Tupperware, extrema direita. Cumbuca, extrema esquerda. Congelar é de direita, salgar é de esquerda. No churrasco, sal grosso é de esquerda, sal moura é de direita e jogar cerveja na picanha é crime inafiançável.

Graal é de direita, Fazendinha é de esquerda. Cheetos é de direita, Baconzeetos é de esquerda e Doritos é tucano. Ploc e Ping-Pong são de esquerda, Bubaloo é de direita. No sexo: broxada é de esquerda. Ejaculação precoce é de direita. Cunilingus: esquerda. Fellatio: direita. A mulher de quatro: direita. Mulher por cima: esquerda. Homem é de direita, mulher é de esquerda. (mas talvez essa seja a visão de uma mulher – de esquerda). Vogais são de esquerda, consoantes, de direita. Se A, E e O estiverem tomando uma cerveja e X, K e Y chegarem no bar, pode até sair briga. Apóstrofe ésse anda sempre com Friedman, Fukuyama e Freakonomics embaixo do braço. (O trema e a crase acham todo esse debate uma pobreza e são a favor do restabelecimento da monarquia).

“Eu gostava mais no começo” é de esquerda. “Não vejo a hora de sair o próximo” é de direita.

Dia é de direita, noite é de esquerda. Sol é de direita, lua é de esquerda. Planície é de direita, montanha é de esquerda. Terra é de direita, água é de esquerda. Círculo é de esquerda, quadrado é de direita. “É genético” é de direita. “É comportamental” é de esquerda. Aproveita é de esquerda. Joga fora e compra outro, de direita. Onda é de direita, partícula é de esquerda. Molécula é de esquerda, átomo é de direita. Elétron é de esquerda, próton é de direita e a assessoria do neutron informou que ele prefere ausentar-se da discussão.

To be continued (para os de direita)
Under construction (para os de esquerda)

Autor: Antonio Prata é escritor. Nasceu em São Paulo em 1977. Publicou alguns livros de contos e crônicas, entre eles “Meio Intelectual, Meio de Esquerda” (Ed. 34), e escreve no caderno Cotidiano da Folha às quartas-feiras
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Paciência que se finge

Despertado por um relógio impaciente, o sujeito tem que produzir, viver. Cada minuto perdido indica quantos outros além do horário terão de ser acrescidos. Uma fila interminável na hora do almoço sinaliza a subtração de tempo para a mastigação do lanche comprado no fast-food, este raras vezes “fast”. O mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós: um pouco mais de paciência.

Lenine, em sua poesia “Paciência”, aponta o controle exercido pelo tempo e a paciência que se finge ter em relação a ele.  Nada mais contraditório do que a tentativa de domesticar efetivamente os impulsos animais diante da pressão que o relógio exerce sobre nós. O tempo é curto para ao menos experimentar a extensão das promessas frustradas. Nesse sentido a racionalidade esgota-se traduzindo a incapacidade de se fingir o tempo todo ter paciência com o chefe estúpido, as intermináveis conversas com o colega que não percebe as bobagens que diz, o tempo gasto com o transporte público, além da poluição sonora que aflige os habitantes de uma grande metrópole como São Paulo.

Muitos amigos, em suas férias, reclamam que sentem falta da agitação, do caos, dizem estar acostumados com tudo aquilo. Desconfio que eles estejam devidamente perdidos, pois têm o tempo em suas mãos e não sabem o que fazer com ele. O dilema da saturação pode ser observado na essência dos desabafos: “Amanhã é segunda-feira”, “Eu não tenho tempo pra nada”. Às vezes, penso que o trabalho, as atividades extras, são como uma substância de enchimento do vazio provado pela contemporaneidade, o que alguns chamam de pós-modernidade.

Será que é tempo que nos falta pra perceber? Será que temos esse tempo todo pra perder? Certos modelos de compreensão da realidade não dão conta de explicar a aparência delirante da constante novidade que o mundo subtraiu de nós. A cada dia um novo single é lançado, um famoso casal se separa, um novo filme é lançado, livros à espera de leitores, um conflito generalizado em países orientais, as contas que multiplicam-se como se tivessem vida própria, e todo esse movimento nos envolve e nos leva como discípulos seguindo a Novidade. Como diria Gil em uma de suas canções: “A novidade era o máximo/Do paradoxo estendido na areia/Alguns a desejar seus beijos de deusa/Outros a desejar seu rabo pra ceia”.

Forma e conteúdo se projetam na alógica sucessão de movimentos eternos que misturam forma, conteúdo e tempo numa cisão que exigem de nós “um pouco mais de paciência”.

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
Leitura: “O tempo e a máquina do tempo: estudos de filosofia e pós-modernidade”, por Ricardo Timm de Souza.
Filme: “I’m here”, um short-film de Spike Jonze

 

 

O fenômeno criativo

Inúmeros significados podem surgir diante de algo considerado como criativo. É necessário distinguir a distinção entre “criatividade”, “fenômeno criativo” e outras dezenas de designações que aparecem na descrição de livros, filmes, música, arte em geral. Cada ser humano possui, o que estudiosos do tema classificam como  capacidade criativa, já que é uma expressão humana. Segundo Kazue Sakamoto criatividade é a expressão de um potencial humano de realização, que se manifesta através das atividades humanas e gera produtos na ocorrência de seu processo.

Mas, parece-me simples demais atribuir como processo natural a construção ou criação de arte, em todas as suas dimensões. Por isso, como Stein propõe a criatividade é o processo que resulta em um produto novo, que é aceito como útil ou satisfatório por um número significativo de pessoas em algum ponto no tempo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: “Veja! Isto nunca aconteceu no mundo”? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos. Este conceito, de não existência do novo, é construído por um sábio escritor hebreu por volta de 971 A.C. Entretanto, assim como um sem número de fenômenos que não sabemos explicar, mas que adoramos tentar, a criatividade só é possível grandiosa quando entra em contato com o outro.

No ambiente artístico-cultural, o artista tem uma expressão criativa resultado direto de sua libertação de convenções, dogmas e outros parâmetros limitadores. Já no contexto corporativo, alguns livros e palestras pretendem “ativar” esse potencial em qualquer colaborador mais inibido. São capazes inclusive de cunhar expressões cujo sentido é indecifrável: criatividade em equipe. Estranho, não?!

De acordo com Marchusi, a criatividade não teria apenas um fator biológico (inato) como também maturação da experiência. O que em síntese seria o processo criativo, o tempo empregado para a criação de algo, o suor, a transpiração em oposição a criatividade vista como um dom divino, um “estado místico de receptividade a algum tipo de mensagem proveniente de entidades divinas”: insights.

A história de um homem que perguntou o que era prosa e surpreendeu-se ao descobri que falara em prosa a vida inteira, escrita pelo dramaturgo francês Molière, nos ajuda a iniciar a compreensão acerca da criatividade. Enquanto, a liderança consegue persuadir as pessoas a modificarem idéias e comportamentos, um criador bem-sucedido é aquele que oferece às pessoas uma maneira diferente de contemplar o mundo.

Por fim, criatividade pra mim é isso aqui:

Leitura: “O espírito criativo”, organizado por Daniel Goleman.

Paulo não tinha um blog

Se existisse internet por volta de 64 D.C, dificilmente ele não seria um blogueiro. Seu perfil no Twitter certamente teria milhões de seguidores e, outros tantos o adicionariam no Facebook.  Porém, não é esse o contexto do homem responsável por difundir o Cristianismo além dos limites judaicos. A estratégia ou ferramenta para alcançar seus objetivos foi a utilização de cartas, muitas delas escritas enquanto esteve preso por conta da defesa de sua fé.

O impacto que seus escritos causavam nas igrejas, ainda em formação, era tão grande que suas posições são até hoje são combustível para discussão tanto no meio cristão, quanto em filosofia. Foi Niestzsche quem acusou Paulo de ter transformado a mensagem libertária de transformação individual numa religião de culpa e de rígidos padrões, por isso que o Cristianismo teria se tornado uma espécie de negação as idéias de Jesus.

A finalidade da trajetória de Paulo, para retomar o argumento inicial, não era o número de seguidores que teria e sim a eficácia de sua mensagem. Ele tinha o que dizer. Atualmente muitos usuários das redes sociais ou blogueiros sonham em ter milhões de seguidores e não se preocupam muito com o que estão dizendo. Por causa da facilidade em digitar meia dúzia de palavras sem sentido no computador em contraponto ao exercício mental de construir um argumento sólido para justificar um conceito, os números a seguir são assombrosos.

Algumas estimativas dão conta de apontar cerca de 126 milhões de blogs existentes até 2010 (fonte Blog Pulse). O número de “tweets” por dia é de 27,3 milhões. Esses dados nos mostram o poderoso cenário da importância das mídias sociais. Dessa forma, a criação do Contraposição tem a ver com a espera despendida pela inspiração. Mas, inspiração é para amadores me disse alguém. Os demais, os meros mortais simplesmente se põem ao trabalho. Todas as grandes sacadas surgem a partir do processo, e era o que Paulo sabia de cor e salteado.

A imagem que ilustra este post é de Caravaggio, “A conversão de São Paulo, a caminho de Damasco”, (1600-1601), Santa Maria del Popolo, Roma

 

Que louco esse tal de Nietzsche…

Ganhei no final do ano passado um presente: “A genealogia da Moral” do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Lancei-me a leitura dos tratados contidos no livro sufocando qualquer expectativa que eu viesse a ter, porém nas primeiras páginas me encontrei diante de uma escolha difícil, por causa da aridez textual: assistir um filme ou explorar o material que tinha em mãos. Minha opção é evidente, não? O objetivo geral do autor é responder a seguinte questão: o bom e o mau como ações existem em uma consciência má ou seriam simplesmente figuras inventadas pelos espíritos que se consideram superiores para poder escravizar os espíritos inferiores? Para tanto, estabelece três tratados para tecer uma dura crítica à moral.

Dada minha limitação precisei reler trechos incompreensíveis e dissonantes e depois de algumas horas dei conta de que estava questionando meus valores em relação ao bem e o mal, e conseqüentemente minha fé. A repercussão e influência dos controversos escritos de Nietzsche podem ser entendidas pela ausência de “bom senso” do autor em temas relacionados ao judaísmo, cristianismo e islamismo. Se num instante ele indica serem estas religiões as responsáveis pela deturpação da moral, logo em seguida afirma que a moral independe delas.

O bem e o mal, escravizando o homem, inferiorizando-o à rótulos como perverso, pecador, imoral são instrumentos de tortura que geraram os distúrbios que hoje afetam a sociedade. O homem briga consigo sendo que o mal não existe; que dirá o bem: são eles, o bem e o mal meros regulamentos, limitadores ou parâmetros opressores.

Nietzsche distingue a decadência da humanidade desde o período neolítico, ou seja, esse “animal de rebanho” chamado ser humano está fadado ao resultado do trágico duelo entre as forças além da moral, capazes de criar e destruir, dar vida e levar a morte.

Senti falta, durante a sessão de sadismo auto-infligida, de um dicionário dos principais conceitos. Talvez conseguisse absorver a agressividade de suas idéias se eu pudesse fugir por alguns minutos para uma síntese do seu trabalho cruel: fritar meus neurônios. Em alguns momentos fica clara qual a linha argumentativa de Nietzsche, porém no meio do caminho parece que ele volta apagando todas as pegadas deixadas.

Apreendo mais claramente o porquê de algumas pessoas repercutirem algumas de suas principais frases sem ao menos terem lido algo dele: é mais fácil usar o Ctrl+C e fingir compreender o que ele quis dizer com aquela síntese frasal retirada de uma pesquisa de segundos no google. Para Nietzsche podemos passar muito bem sem as curiosidades e complexidades do espírito moderno onde tanto achamos motivo para ir e chorar.  A vontade da verdade, uma vez que seja consciente de si mesma, será a morte do mal.

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