Não, não está tudo bem…

Ninguém gosta de ser contrariado – isto é um fato. Muito menos alguém que produz alguma coisa, que coloca seu talento (ou o que passa por talento) num projeto especial, e que espera um bom retorno desse esforço. Eu mesmo, por mais zen que minha profissão tenha me treinado para ser, fico de certa forma incomodado quando a resposta das pessoas a um trabalho meu não é exatamente a que eu esperava. Porém, uma crítica, quando é bem feita, é a melhor coisa que poderia acontecer para um artista – ou qualquer produtor cultural. Vou pedir ajuda a um certo escritor (que já conto quem é) para explicar melhor o que quero dizer:

“Exercer a crítica afigura-se a alguns que é uma fácil tarefa, como a outros parece igualmente fácil a tarefa do legislador; mas, para a representação literária, como para a representação política, é preciso ter alguma coisa mais do que um simples desejo de falar à multidão. Infelizmente, é a opinião contrária que predomina, e a crítica, desamparada pelos esclarecidos, é exercida pelos incompetentes”.

Se você é um dos 786 críticos de TV – ou de qualquer coisa – que povoam aquilo que já foi chamado de “território livre da internet”, não tome as palavras acima como uma crítica pessoal. Afinal, elas foram escritas há mais de um século – mais precisamente em 1865. E por ninguém menos do que Machado de Assis. Encontrei este texto por acaso, num recente lançamento da Penguin com a Companhia das Letras: “O jornal e o livro” – um dos primeiros modestos volumes da coleção “Grandes ideias” (como já existe na Penguin inglesa – aliás, eu lamentaria que as capas da coleção daqui não têm a originalidade das de lá, mas você vai achar que eu estou divagando…). Mas achei curioso como ele veio bem ao encontro de algumas coisas que eu vinha pensando recentemente sobre a crítica nos tempos de hoje.

(Antes de continuar, falo mais uma vez aos 786 críticos de TV da internet: a citação foi uma brincadeira – quase uma homenagem. Minha intenção era parafrasear o grande Paulo Francis, que gostava de brincar que, no seu tempo, a “Folha de S.Paulo” tinha 300 críticos de cinema – não tenho muita certeza se o número que ele dizia era esse, mas vale a lembrança. Fico pensando o que Paulo Francis, com quem tive o prazer de trabalhar diretamente quando fui correspondente da própria “Folha” em Nova York, em 1988, faria desse “mar de críticos” que navegam sem bússola pela internet. Mas eu divago – assumo! Deixa o Francis para outro dia…).

Minhas elaborações sobre a crítica cultural atual partiram de três artigos que li recentemente – um sobre literatura, outro sobre TV, e o último sobre rock. No primeiro deles, Geoff Dyer (um escritor que admiro muitíssimo), nas páginas do “Sunday Book Review” (do jornal “The New York Times”), desbanca um livro que foi laureado no ano passado com o prestigioso Man Booker Prize – e celebrado aqui mesmo neste espaço: “The sense of an eding”, de Julian Barnes. Em um texto curto, Dyer tem a ousadia de criticar não apena o aclamado Barnes, mas todo o cenário da literatura inglesa atual.

“(O livro) não é terrível, é apenas tão… mediano. É medianamente atraente (eu o terminei), demanda uma quantidade mediana de concentração e, se é que isso faz sentido, é medianamente bem escrito: excelência mediana!”, escreve Dyer. E, mesmo relutando em concordar com ele – eu insisto: gostei muito do livro e continuo gostando -, o artigo me fez pensar. Menos sobre o livro em si, mas na coragem de Dyer em se levantar para contrariar um “senso comum”. Entregar-se a ele, a esse senso comum, é a pior coisa que poderia acontecer a um crítico. Mas a maioria deles parece não estar nem ligando… Cito o mesmo texto de Machado mais uma vez:

“Sem a coerência perfeita, as suas sentenças (do crítico) perdem todo o vislumbre da autoridade, e abatendo-se à condição de ventoinha, movida ao sopro de todos os interesses e todos os caprichos, o crítico fica sendo o oráculo de seus aduladores”.

E mais uma vez me espanto em ver como Machado continua atual. Numa inversão perversa que só a internet seria capaz de trazer, criar um assunto polêmico hoje – para quem é blogueiro (como eu sim, quem disse que eu estou imune a isso?) ou colunista – é quase que um objetivo maior do que a qualidade do próprio texto que ele escreve, uma vez que o que conta é o número de cliques (ou de comentários) e não o que está sendo realmente dito. Como sabemos, muita gente responde apenas ao título de uma coluna, vai direto aos comentários, e ali começa uma discussão inócua, desprendida do próprio texto original – mas que faz a alegria do blogueiro (ou do colunista), porque afinal, isso cria tráfego… Os conselhos de Machado, para que uma crítica seja “sincera, sob a pena de ser nula”, soam como um apelo distante, mas, novamente, não poderiam ser mais atuais.

Mas há esperanças. Um outro texto que li na revista do jornal “The New York Times” teve a “coragem” de criticar de frente os seriados de TV supostamente inteligentes. Para Heather Harvrilesky, a autora do artigo, “Lost”, mais que um marco, foi uma praga para os escritores do formato na TV americana, porque condicionou um geração inteira a assistir uma temporada completa de um seriado sem que uma solução plausível para toda a trama fosse oferecida no final. De fato, “Lost” – que acompanhei religiosamente – foi uma decepção crescente, culminando com um desfecho que era bem aquém do que até o fã mais dedicado poderia esperar… E a moda pegou!

Havrilesky cita três outros seriados que foram bastante elogiados e bem recebidos pelo público na atual temporada de televisão nos Estados Unidos – “The killing”, “Homeland” e “American horror story” (que se não me engano podem ser vistos na TV a cabo por aqui) – como exemplos de tudo que está errado hoje em dia com esses roteiros. Para ela, a “era de ouro” desses seriados já está ficando bem para trás – “A sete palmos”, “Os Sopranos”, “Breaking bad” – enquanto que a audiência atual se contenta com migalhas, como ratos que ao fim de um labirinto entra alegremente em outro sem saber se vai ter saída (a citação é da autora).

Quem é que tem coragem, hoje em dia (especialmente aqui no Brasil), de fazer uma análise séria e contundente do que acontece na TV? A maioria dos ditos críticos já se dão por contentes de papagaiar o próprio universo “trash” que a maioria das atrações que atraem algum público oferece. Quer um exemplo recente? Virtualmente ninguém resistiu comentar sobre a estreia recente de “Mulheres ricas”… Um programa com uma “relevância”… E nesta semana mesmo vamos poder verificar o fenômeno acontecendo de novo – e com uma cruel distorção. “BBB 12″ e “Dercy de verdade” estreiam nesta terça-feira. Qual dos dois programas você acha que vai ser mais “analisado” pelos “críticos de plantão”?

Atenção espertinhos! Não estou “dando uma alfinetada” no “BBB”, como você já deve ter twittado… Como alguém que já inclusive apresentou um “reality show”, tenho a maior consideração pelo gênero, e em especial pelo “BBB”, que simplesmente domina o imaginário pop do brasileiro – basta ver a reação de ojeriza que o “pobre” advogado que pediu para sair antes do programa começar sofreu com sua decisão… A questão que estou querendo levantar é sobre os verdadeiros motivos que movem esses “críticos”, se eles estão mesmo preocupados em “olhar para a televisão” ou simplesmente atrair leitores – ou melhor, cliques, já que, como sugeri anteriormente, poucos são os que passam os olhos de fato pelo texto… Diga lá, ó Machado:

“O crítico deve ser independente – independente em tudo e de tudo -, independente da vaidade dos autores, e da vaidade própria”…

Ah, a vaidade dos críticos… Quem vai querer deixar de ser adulado pelos próprios artistas, autores, criadores, que se escreve? Se isso já vale para a televisão, imagine para um universo onde a simbiose entre crítica e a artista é ainda mais libidinosa: o da música pop. Um texto comoesse outro que encontrei também no “The New York Times” – no caderno “Arts and Leisure” – é uma raridade. Afinal, seu autor, Jon Caramanica, teve a coragem de falar que a criação recente do rock americano está simplesmente estagnada. Isso mesmo – olha que ousadia! As bandas de maior sucesso de 2011? Sublime With Rome? Foster the People? E até mesmo os atuais queridinhos dos alternativos, os Black Keys? Tudo uma bobagem. Ou nem isso! Tudo muito normal!

Como no caso do argumento de Havrilesky, Caramanica pega como referência um passado recente: há menos de uma década, estávamos nos deliciando com bandas realmente revolucionárias como The White Stripes e The Strokes (e pode colocar até um certo Franz Ferdinand nesse pacote!). Mas hoje? Só essa “meia bomba” de artistas que não estão muito preocupados em mudar nada… Aqui no caso também é fácil fazer um paralelo com o cenário brasileiro. Você vê alguém escrevendo algo realmente sério sobre, por exemplo, o novo disco de Maria Gadú? Quando muito o que temos é um arremedo triste daquela crítica que apela mais para a ironia (e “flamboyance” do seu autor), que começou a surgir no final dos anos 8o e cresceu como uma Hydra nos anos 90 – nos terrenos férteis dos cadernos culturais dos principais jornais brasileiros deste período. Agora todo mundo faz gracinha em suas crítica – lógico! É o melhor jeito de chamar atenção: tirar uma frase engraçada para virar um título chamativo na cacofonia de uma primeira página de portal na internet. Agora um texto mesmo, falando dos (visíveis) problemas da maioria dos recentes lançamentos musicais no Brasil – desculpe, mas não vi. Nem mesmo sobre a sensacional obra-prima de Gal Costa, “Recanto” (sobre a qual quero escrever aqui em breve).

Está tudo meio mais ou menos – tanto do lado de quem faz, como do lado de quem analisa (ou critica). E por isso mesmo eu quis aqui fazer o mesmo manifesto. Sobre o qual, como sempre, você está convidado (convidada) a discordar – ou mesmo concordar! Mas sem cair nas mesmas tentações que mencionei acima, vamos combinar? Para encerrar também com Machado, faço eco ao seu desejo de outrora:

“Quanto à crítica dominante, como não se poderia sustentar por si – ou procuraria entrar na estrada dos deveres difíceis, mas nobres – ou ficaria a conquistar, de si própria, os aplausos que lhe negassem as inteligências esclarecidas”.

O refrão nosso de cada dia
“Seconds”, Little Dragons – de uma das bandas que fez um dos melhores discos que você NÃO ouviu em 2011, uma música que é um refrão musical em “loop” do começo ao fim. Não tenho ideia quem montou essas imagens de Brigitte Bardot sobre essa faixa, mas o casamento foi perfeito. Confira!

Originalmente publicado aqui

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Intolerância religiosa

Você é religioso?!

Cápsulas de inteligência

“O hábito de discordar vem se tornando fora de moda e o resultado é um ambiente raso e hipócrita”, escreve Luli Radfahrer, professor na USP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 09-01-2012.

Segundo ele, “eventos hoje têm agenda publicitária e pragmática. Apresentados como um lugar mágico em que não há dúvidas e todos se sentem mais inteligentes no final, a maioria tem um forte componente de autoajuda, principalmente quando levado em conta o currículo e conteúdo apresentado. No TED, a mais popular (e copiada) entre as conferências “new age”, apresentações curtas, rasas e emotivas são intercaladas com números musicais ou cômicos”.

Eis o artigo.

Não se fazem mais debates como antigamente. E a culpa não é da internet, pelo menos em parte. É certo que a facilidade de acesso a bases de dados de todos os tipos tirou dos congressos a novidade das descobertas, mas isso não é motivo para o esvaziamento das pautas, muito pelo contrário.

Justo hoje que as tecnologias de captação, distribuição e compartilhamento são cada vez mais baratas e fáceis de usar, o ambiente de simpósios deveria efervescer em ideias, confrontos, colaborações e esclarecimentos, cujo calor das discussões tornaria comuns episódios como a baixaria entre Karl Popper e Ludwig Wittgenstein, em 1946.

Wittgenstein argumentava que as questões filosóficas não passavam de problemas linguísticos. Popper discordava. Para estimular o debate, a Universidade de Cambridge convidou Popper para expor suas ideias, com Wittgenstein e outros figurões no auditório.

A expectativa era grande, mas não para o que ocorreu. Mal começado o evento, Wittgenstein pegou o espeto da lareira e, armado com ele, saiu gritando que Popper estava errado. A situação só não terminou em tragédia porque alguém da plateia gritou para que ele sossegasse. A lenda diz que a bronca veio de Bertrand Russell, pouco importa.

Hoje isso não aconteceria. Dominados pelo politicamente correto, eventos e palestras não estão abertos à discórdia. Como no Facebook, pode-se curti-los ou evitá-los, mas não há como reprová-los, pois até os comentários podem ser censurados. Gênios polêmicos como PopperWittgenstein Russell, não propensos a críticas, dificilmente seriam convidados para a mesma mesa-redonda. E todos perderíamos.

Eventos hoje têm agenda publicitária e pragmática. Apresentados como um lugar mágico em que não há dúvidas e todos se sentem mais inteligentes no final, a maioria tem um forte componente de autoajuda, principalmente quando levado em conta o currículo e conteúdo apresentado. No TED, a mais popular (e copiada) entre as conferências “new age”, apresentações curtas, rasas e emotivas são intercaladas com números musicais ou cômicos.

Respeitável público, está armado o picadeiro. Na forma de uma playlist, apresentada por um mestre de cerimônias, powerpoints e vídeos se acumulam até o clímax cujos efeitos especiais só perdem para a distribuição de brindes e a festa. Mais panis et circensis, impossível.

O resultado é um ambiente raso e hipócrita, em que críticas são desencorajadas. As apresentações, quase religiosas, pregam que só há um lado “certo” a seguir: aquele apresentado pela celebridade que ocupa o palco e apresenta, para uma plateia ignorante, sua visão particular de Paraíso.

Todos estão livres para expressar suas opiniões, desde que concordem. O milenar hábito de discordar e debater vem se tornando, aos poucos, fora de moda. A maior crítica permitida é uma ironia covarde, camuflada sob perfis anônimos ou mascarados.

A oposição saudável entre duas inteligências de igual calibre, que permite a cada participante que decida por conta própria qual lado e em que grau deve apoiar, é cada vez mais rara. Se essa tendência continuar, talvez acabe restrita às arenas de MMA.

Post originalmente publicado em http://www.ihu.unisinos.br/

Breve análise sobre questões filosóficas, tecnociência e cultura

Cultura pode ser definida como um conjunto de valores e objetos construídos por um determinado grupo humano. Os critérios podem e devem mudar dependendo da localização geográfica e, mais que isso, na medida em que há frações no interior do grupo desenvolvem-se múltiplos valores e compreensão simbólica do mundo. Equivale dizer que o sistema de cultura de um povo é o modo como ele assimila ou dá sentido ao que o cerca, dessa forma podemos pensar, como Bosi propõe, uma cultura erudita e em uma cultura popular. Na primeira, temos a centralização no sistema educacional, mais especificamente as universidades (o ambiente acadêmico) e em contraponto, a dita popular é basicamente iletrada, correspondendo ao nível do simbólico.

Partindo deste princípio, o que existe é uma singularidade da noção de cultura. Sendo assim, não podemos afirmar que existe uma cultura brasileira homogênea e sim, culturas brasileiras. Essa compreensão é ideal para darmos conta do que é cultura e que é por meio dela que damos significado à realidade que nos cerca.

Porque a nossa cultura atual é chamada de cultura de tecnociência?
Só é possível responder a esta questão se pensarmos que durante muito tempo a cultura científica parecia intocável do ponto de vista cartesiano, por exemplo, que constituía paradigmas às custas do senso de que, só a racionalidade científica dava conta de explicar os fenômenos da natureza. Esse quadro é alterado significativamente no último século, num esforço de múltiplas disciplinas que encontraram brechas para abalar as estruturas consolidadas a cerca de vários universos (política, economia) e, mais incisivamente a própria ciência.

A tecnologia tornou irreversível o processo de diminuição da velocidade máxima em que as relações humanas e suas construções simbólicas e culturais passam a ser racionalizadas por uma lei (aparentemente natural) só que é científica. Um exemplo para ilustrar essa dinâmica é o modo como a diminuição do esforço humano nos processos industriais permitiu que o homem criasse outras formas de se mostrar “útil” à automação. Como nos primórdios da história humana, o homem moderno se reconstrói para não ser devorado por máquinas. Basta pensar que é impossível “existir” fora da realidade da tecnociência.

Esta revolução tecnológica de nossos dias alterou e reorganizou as estruturas antigas (e só estamos contemplando as mudanças nas últimas quatro décadas) para redefinir o papel desse homo sapiens. O processo é desgastante e, afastada a tendência de um grande laboratório de experimentações, quando se trata dessa relação do homem com a tecnologia, podemos enxergar a irreversibilidade da dinâmica tecnociência e seu apetite voraz. Em grande medida, é por isso que a cultura atual é chamada de cultura da tecnociência. A cultura dos nossos dias é mediada pela tecnologia, e em exerce uma força persuasiva que problematiza as tensões socioculturais.

Quais são as características mais representativas da nossa cultura atual?
A complexidade, ambigüidades e contradições contidas em nossa cultura atual é tão representativa, em seu aspecto multidimensional, que implica considerar gerir a diversidade cultural, o que inicialmente é tarefa hérculea.

Em primeiro lugar, a globalização ampliou as fronteiras dos negócios e de mundo, além de diminuir as barreiras que atenuavam as diferenças entre países. Dessa forma, a competitividade se utiliza de um ferramental tecnológico para operar num ambiente incerto, complexo e com alta carga de multidisciplinaridade para entendê-la.Em seguida, é preciso entender como a globalização alterou os aspectos conceituais a respeito das culturas globais. Isto é, além de existir uma cultura territorial, há um universo de valores criados a partir da interação, virtual, para ficar em apenas um exemplo. Portanto, nem é preciso mais estar num país específico para absorver uma cultura local, embora, isso por si só, não dê conta de substituir a experiência de uma viagem.

Sendo assim, parece haver uma organização global capaz de adaptar e relacionar diferentes grupos culturais, por meio de aculturação. Isso não quer dizer que não haja atritos, tensões e lutas de poder. Isso apenas permitiu que tivéssemos uma cultura pluralista, heterogênea e, por este motivo, as características predominantes são: uma cultura de consumo, no qual “eu compro, logo existo” passa a ser a base filosófica para muitos, o que apaga o passado (enquanto valores e legado sociocultural) em troca do que é descartável.

Situação da filosofia à cultura contemporânea

O que é filosofia?
Filosofia é a tentativa de investigar as causas primeiras, problematizando a realidade e fundamentando expectativas, para que seja provável responder ao meu espírito os porquês, ou avaliar, questionar e interpretar o que me cerca (realidade). Ao ser humano é dada a capacidade de pensar, de pensar o pensar e de agir constantemente sobre a natureza, e a natureza das coisas. Esse movimento, juntamente com a variedade dimensional em que uma questão é gerada, causa inicialmente um desequilíbrio, mas prossegue e, assim, na tentativa de esgotar um sentido arranca da infinidade interpretativa um universo de especulações filosóficas.

Que não se engane os iniciantes, a filosofia não se resume ao dar opinião sobre um tema, antes parte da premissa que tende a ser fundamentada, objetivada e, de algum modo, universalizada. Se por um lado, a opinião é subjetiva e não pode ser demonstrada longe do campo experencial. De outro, um dado tema, sob a ótica filosófica precisa ser conceituada para assumir uma base, e depois de organizada coerentemente constrói-se uma tese, em conseqüência um antítese e, conclusivamente ou não, uma síntese.

Portanto, a filosofia é utilizada tanto pelo lado epistemológico, o conhecer, quanto por seu ferramental sobre as decisões práticas. O pensamento filosófico não tem a pretensão de dar respostas, ao contrário da religião, problematiza uma realidade na intenção de evoluir a compreensão desta. E, finalizando, na origem da filosofia está a busca pela continuidade significativa, a essência e a substância.

Como é a situação da filosofia à cultura contemporânea?
Existe espaço para a filosofia numa cultura contemporânea em que grande parte da vida gira em torno de mecanismos tecnológicos. Isto porque, há dentro do homem a busca por resposta em relação a sua existência, ao seu significado e, portanto da vida. Porém, para além de uma filosofia existencialista está a filosofia neste ambiente contemporâneo realçando a necessidade de se pensar a finitude do real e seu significado. Há aqui um entendimento de quanto mais o homem se aproxima da automação, uma necessidade em cuidar do mundo do espírito se contrapõe ao esforço por dominar a tecnologia.

A filosofia neste cenário contemporâneo opera na crítica da confiança cega no processo científico, enquanto simultaneamente age sobre a consciência do homem e sua necessidade em construir um caminho para significar seu ser. Numa cultura que não vê possibilidades de o passado responder às necessidades e o novo ainda não se concretizou, a filosofia permite ao homem construir uma compreensão da representatividade das coisas.

Travar um embate entre o sistema da tecnociência e o sistema teórico da mordenidade, pelo viés filosófico, abre espaço para questões sobre causalidade, organização, experiência, descoberta, transcendência, entre outros temas caros ao homem moderno ou contemporâneo diante dos avanços tecnológicos.

Terry Eagleton (filósofo, crítico literário) opõe ao modelo dominante de conhecimento em nossa cultura – modelo baseado no conhecimento de “coisas” – um conhecimento de pessoas. Quais as implicações destas duas formas de conhecimento? Faça um comentário pessoal sobre o assunto.
A tensão proposta por Eagleton (o conhecimento de coisas e de pessoas) leva em conta as imagens contraditórias destas duas dimensões e, um rápido olhar sobre elas nos faz ver que os conhecimentos acumulados, por meio da tecnologia, não nos fizeram uma sociedade liberta, no sentido de livre-ser. Antes, o rigor científico trazido por este conhecimento coisificado flerta com as nuances perigosas de uma pesquisa nuclear, para reduzir num exemplo o campo de observações dos fenômenos tecnológicos que beira à catástrofe.

Diante disto, Eagleton indica o caminho do pensar a existência de Deus (e aqui não há qualquer tendência para religiosidade e sim, Deus como conceito filosófico) para se aproximar de uma crítica à ciência cega, e, portanto, religiosa. Explico: a fé em elementos hipotéticos leva o cientista, no caso Dawkins, a exercitá-la pelo viés racionalista, portanto, fé na razão.

A complexidade dos dois extremos enriquece ou empobrece nosso cotidiano, isto é, contribuem positiva ou negativamente dependendo do ângulo. Essa perplexidade individual diante do imponderável é o que pode nos mover em busca de respostas. Mas e quais são as perguntas?

Se toda a teorização se baseia, ainda que de forma remota, nas nossas formas pragmáticas da vida, como postula Eagleton, então a ação-reflexão-ação se torna um possível caminho para oferecer uma crítica efetiva do estilo de vida. A crítica, portanto, nos dá sustância para, distanciados da situação-problema, seja ela qual for, superar questões ou paradigmas e revalorizar o conhecimento a cerca de algo.

Tendemos a apoiar nossas considerações ou num extremo ou noutro. As profundas alterações epistemológicas e culturais numa sociedade, chamada de pós-moderna pelos acadêmicos, resultam num pensar e agir sobre as dimensões e desdobramentos destes palcos, resgatando o direito de personalidade (conhecimento de pessoas) sobre a coisificação do humano.

Referencias
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 308-345: Cultura brasileira e culturas brasileiras.
EAGLETON, Terry. O debate sobre Deus.p. 103-128:Fé e razão.
ROSSI, Roberto, Introdução à filosofia: história e sistemas, Tradução: Aldo Vannuchi, São Paulo, Loyola, 1996.

As Mulheres e a Filosofia

 

http://vimeo.com/29340282

Você pensa que me conhece

Do grupo de amigos, colegas de trabalho, familiares, membros da comunidade, posso afirmar que poucos me conhecem como minha parceira, mulher, esposa, sei lá como definir o papel de alguém tão importante. Mas, além dela nem eu mesmo posso afirmar que me conheço, e, desconfio de todos que afirmam conhecer a si mesmo. Digo isso, pois inúmeras vezes julgo minhas atitudes, falas e pensamentos como se não pertencessem a mim mesmo. É como se eu pensasse ser uma pessoa totalmente diferente da que realmente sou. E quem eu realmente sou?
Essas questões são o mote de um sem número de peças teatrais, romances, filmes, inquietações filosóficas e, também, pesquisas psicológicas. Segundo Gonzales e Furtando, em “Por uma epistemologia da subjetividade”, o sujeito (portanto, eu) somos a síntese do particular e do universal, mais que isso, a subjetividade de um ser passa pela relação objetiva de suas ações, desenvolvidas pelo psiquismo humano constituído em consciência, atividade e afetividade.
Tendo isso em mente, posso afirmar que se eu me conhecesse de fato ,talvez não conseguisse viver. Essa projeção da ideia de que eu sei quem sou é tão frágil que diante de uma tragédia familiar não posso afirmar quais seriam minhas atitudes e, isso por si só, revela a fragilidade do “eu”.
É no outro que eu me vejo. Isso não quer dizer o puro e simples pensar o outro como reflexo de mim, mais que isso, diante da postura do outro eu preciso me posicionar, e portanto, sofrer. A favor, contra, “não quero pensar sobre isso”, qualquer uma dessas opções expôe minhas sombras, desejos, aspirações, expectativas. Mas é óbvio que tudo isso se passa dentro de mim, por que na interação com o outro, é impossível “ser você mesmo”. A própria imagem de mim mesmo é reproduzida ou por espelhos, imagens ou os olhos do outro. E, assim sendo, ainda estou no primeiro estágio que Santo Agostinho propôs: “Conhece-te, aceita-te, supera-te.”

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