Do Tropicalismo

Num contexto musical em que o tradicionalismo e fundos nacionalistas de esquerda davam o tom, o tropicalismo surge com características e elementos específicos que tinham por fim universalizar a linguagem da música popular brasileira. A troca da suavidade das cordas de nilon do violão pelas de aço da guitarra elétrica não tinham somente a modernização musical como objetivo, além disso, a própria cultura nacional teria suas cores alteradas radicalmente.

A mudança estética, em que a bossa nova se misturava ao rock e englobava outros ritmos como samba, bolero, rumba, rompeu as estruturas do que é alta cultura, cultura de massa, tradição e vanguarda. O tropicalismo transformou o comportamento político-ideológico, e também estético. Não à toa foi reprimido pelo governo militar. Porém, o que ficou foi a “descoberta” dos trópicos como centro de uma cultura própria e não reprodução estrangeira do estético, do belo, do que é de bom gosto ou não.

A idéia de Oswald de Andrade era a devoração crítica do legado cultural universal, não por meio da submissão e redenção do “selvagem” e sim da perspectiva do “selvagem” mau, sem escrúpulos, esquecendo os arquétipos literários que envolviam de ares claramente místicos, portanto “bons”. Essa não catequisação, essa desconstrução revelava uma nova forma de se ver a realidade ou significá-la.

Esse conceito de teoria e prática do “devorar”, princípio simbólico da antropofagia, de acordo com um dos líderes do movimento tropicalista, Caetano Veloso, foi fundamental para rediscutir a produção cultural e se torna um método adotado por eles próprios (tropicalistas) para o alcance do objetivo de ser mais que apenas um movimento musical:

A idéia do canibalismo cultural servia-nos aos tropicalistas como uma luva. Estávamos “comendo” os Beatles e Jimmy Hendrix. Nossas argumentações contra a atitude defensiva dos nacionalistas encontravam aqui uma formulação sucinta e exaustiva. Claro que passamos a aplicá-la com largueza e intensidade, mas não sem cuidado, e eu procurei, a cada passo, repensar os termos em que a adotamos. Procurei também e procuro agora relê-la nos termos originais tendo em mente as obras em que ela foi concebida para defender, no contexto em que tal poesia e tal poética surgiram. Nunca perdemos de vista, nem eu nem Gil, as diferenças entre as experiências modernistas dos anos 20 e nossos embates televisivos e fotomecânicos dos anos 60. (VELOSO, 1997, p.248)

O tropicalismo, portanto, retomou as considerações oswaldianas para uma reinvenção do cenário cultural brasileiro. Da mesma forma que a antropofagia oswaldiana inicia a discussão cultural de 22, a tropicália repensa e atualiza a questão.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

AGUIAR, Cícero Vicente Schmift de Aguiar. Uma análise da antropofagia tropicalista. Porto Alegre, 2010.

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Situação da filosofia à cultura contemporânea

O que é filosofia?
Filosofia é a tentativa de investigar as causas primeiras, problematizando a realidade e fundamentando expectativas, para que seja provável responder ao meu espírito os porquês, ou avaliar, questionar e interpretar o que me cerca (realidade). Ao ser humano é dada a capacidade de pensar, de pensar o pensar e de agir constantemente sobre a natureza, e a natureza das coisas. Esse movimento, juntamente com a variedade dimensional em que uma questão é gerada, causa inicialmente um desequilíbrio, mas prossegue e, assim, na tentativa de esgotar um sentido arranca da infinidade interpretativa um universo de especulações filosóficas.

Que não se engane os iniciantes, a filosofia não se resume ao dar opinião sobre um tema, antes parte da premissa que tende a ser fundamentada, objetivada e, de algum modo, universalizada. Se por um lado, a opinião é subjetiva e não pode ser demonstrada longe do campo experencial. De outro, um dado tema, sob a ótica filosófica precisa ser conceituada para assumir uma base, e depois de organizada coerentemente constrói-se uma tese, em conseqüência um antítese e, conclusivamente ou não, uma síntese.

Portanto, a filosofia é utilizada tanto pelo lado epistemológico, o conhecer, quanto por seu ferramental sobre as decisões práticas. O pensamento filosófico não tem a pretensão de dar respostas, ao contrário da religião, problematiza uma realidade na intenção de evoluir a compreensão desta. E, finalizando, na origem da filosofia está a busca pela continuidade significativa, a essência e a substância.

Como é a situação da filosofia à cultura contemporânea?
Existe espaço para a filosofia numa cultura contemporânea em que grande parte da vida gira em torno de mecanismos tecnológicos. Isto porque, há dentro do homem a busca por resposta em relação a sua existência, ao seu significado e, portanto da vida. Porém, para além de uma filosofia existencialista está a filosofia neste ambiente contemporâneo realçando a necessidade de se pensar a finitude do real e seu significado. Há aqui um entendimento de quanto mais o homem se aproxima da automação, uma necessidade em cuidar do mundo do espírito se contrapõe ao esforço por dominar a tecnologia.

A filosofia neste cenário contemporâneo opera na crítica da confiança cega no processo científico, enquanto simultaneamente age sobre a consciência do homem e sua necessidade em construir um caminho para significar seu ser. Numa cultura que não vê possibilidades de o passado responder às necessidades e o novo ainda não se concretizou, a filosofia permite ao homem construir uma compreensão da representatividade das coisas.

Travar um embate entre o sistema da tecnociência e o sistema teórico da mordenidade, pelo viés filosófico, abre espaço para questões sobre causalidade, organização, experiência, descoberta, transcendência, entre outros temas caros ao homem moderno ou contemporâneo diante dos avanços tecnológicos.

Terry Eagleton (filósofo, crítico literário) opõe ao modelo dominante de conhecimento em nossa cultura – modelo baseado no conhecimento de “coisas” – um conhecimento de pessoas. Quais as implicações destas duas formas de conhecimento? Faça um comentário pessoal sobre o assunto.
A tensão proposta por Eagleton (o conhecimento de coisas e de pessoas) leva em conta as imagens contraditórias destas duas dimensões e, um rápido olhar sobre elas nos faz ver que os conhecimentos acumulados, por meio da tecnologia, não nos fizeram uma sociedade liberta, no sentido de livre-ser. Antes, o rigor científico trazido por este conhecimento coisificado flerta com as nuances perigosas de uma pesquisa nuclear, para reduzir num exemplo o campo de observações dos fenômenos tecnológicos que beira à catástrofe.

Diante disto, Eagleton indica o caminho do pensar a existência de Deus (e aqui não há qualquer tendência para religiosidade e sim, Deus como conceito filosófico) para se aproximar de uma crítica à ciência cega, e, portanto, religiosa. Explico: a fé em elementos hipotéticos leva o cientista, no caso Dawkins, a exercitá-la pelo viés racionalista, portanto, fé na razão.

A complexidade dos dois extremos enriquece ou empobrece nosso cotidiano, isto é, contribuem positiva ou negativamente dependendo do ângulo. Essa perplexidade individual diante do imponderável é o que pode nos mover em busca de respostas. Mas e quais são as perguntas?

Se toda a teorização se baseia, ainda que de forma remota, nas nossas formas pragmáticas da vida, como postula Eagleton, então a ação-reflexão-ação se torna um possível caminho para oferecer uma crítica efetiva do estilo de vida. A crítica, portanto, nos dá sustância para, distanciados da situação-problema, seja ela qual for, superar questões ou paradigmas e revalorizar o conhecimento a cerca de algo.

Tendemos a apoiar nossas considerações ou num extremo ou noutro. As profundas alterações epistemológicas e culturais numa sociedade, chamada de pós-moderna pelos acadêmicos, resultam num pensar e agir sobre as dimensões e desdobramentos destes palcos, resgatando o direito de personalidade (conhecimento de pessoas) sobre a coisificação do humano.

Referencias
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 308-345: Cultura brasileira e culturas brasileiras.
EAGLETON, Terry. O debate sobre Deus.p. 103-128:Fé e razão.
ROSSI, Roberto, Introdução à filosofia: história e sistemas, Tradução: Aldo Vannuchi, São Paulo, Loyola, 1996.

Quanto tempo falta?

A faculdade de intercambiar experiências

Para Mircea Eliade, “conhecer os mitos é aprender os segredos das coisas”. Um mito, bem diferente do conceito predominante, tem como função explicar a origem das coisas, nesse sentido Eliade amplia a ideia para além “das coisas”: explora o aprendizado do segredo. Dada uma sociedade, certamente haverá um mito para explicar como se deu a vida e o funcionamento do que os cerca. Seja numa aldeia indígena, uma tribo africana ou uma tradição cristã, todas carregam o mito de evidenciar “os princípios”. Estes entes sobrenaturais trazem para os iniciados um conjunto de elementos de forma a orientar condutas, explicar eventos naturais ou até mesmo restringir o uso deste ou daquele objeto num ritual. Quanto questionados do porquê, respondemos: Porque é assim! E, observadas as variantes, o que se tem em comum é o aprendizado, por meio desse “entes”, dos segredos das coisas, da vida.

Em uma determinada tribo indígena, há separações complexas entre o que é mito, contos e fábulas. E, por meio dessas divisões determina-se quem pode acessar esses conhecimentos, ou seja, os iniciados tem primazia em relação à mulheres e crianças. Por exemplo, é por meio de um ritual (“ditado” por estes “entes”) que se dá poder para este iniciado. O poder de entender e reproduzir e até mesmo interferir nesta ou naquela realidade. Portanto, independete de qual orientação religiosa, cultural ou social tal sujeito é, o mito é o caminho pelo qual se alcança a iluminação: o sentido ou segredo das coisas.

Walter Benjamim por sua vez afirma que “no momento em que a experiência coletiva se perde e a tradição comum já não oferece nenhuma base segura, outras formas narrativas tornam-se predominantes.” A partir do momento em que a narrativa é “atropelada” por outras formas de comunicação, como a imprnsa, por exemplo, o sujeito já não tem bases para alicerçar suas experiências. Isso equivale dizer que a sociedade moderna perdeu a faculdade de intercambiar experiências, numa afirmação também de Benjamim. Com o advento do romance, e da informação, já não há referências e muito menos o  exercício da criatividade ao recontar um história do seu jeito. Nos último séculos e mais fortemente nos últimos cinquenta anos, a sociedade passou a consumir notícia como se nada fosse: aquele evento que antes ocorria em outra parte do mundo e chegava até nós carregada de um força simbólica perde sua intensidade, pois nao há espaço para preenchermos as lacunas, tudo já vem pronto, cheio de detalhes, vídeos, imagens.

O que se perde neste trânsito de informações é a arte de representar a realidade se utilizando de formas narrativas ricas de simbologia, valores, etc. Para ilustrar esta questão, da ausência da experiência coletiva, temos a morte e seu impacto. Em outros tempos se experimentava a morte da mesma forma que a vida. Na mesma cama em que se dava a luz, morria-se. Hoje, as crianças são trancafiadas em casa e sob a orientação de um adulto, são impedidas de “experimentar” o rito fúnebre. Os rituais, os processos, as tradições dão lugar a um sem número de ações práticas que coibem e não oferecem bases para o sujeito e muito menos a sociedade de aprender a experiência comum.

A temática indígena: para além de uma visão eurocêntrica

O objetivo deste artigo consiste em explicar o que é o etnocentrismo e seus desdobramentos nos conceitos e conhecimentos produzidos pelas ciências humanas para explicar o impacto nas sociedades indígenas. Além disso, o texto pretende desconstruir alguns dos argumentos que a partir do etnocentrismo transformaram-se em muitos casos “senso comum” e outros até fundamentados em bases científicas. O conceito que consiste em destacar um mundo de reproduções ou representações propondo-o como exemplo e diminuindo à insignificância os demais universos e culturas “diferentes” atende pelo nome de etnocentrismo. De acordo com Everardo Rocha:

Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência.

Desse modo, a temática indígena é construída, desde os primeiros anos escolares, como base nestas representações eurocêntricas/etnocêntricas e nelas ancoram-se a História do Brasil por meio do ponto de vista europeu, o que invalida uma “pré” história antes da chegada dos portugueses. Equivale dizer que somente depois que este civilizado povo adentrou nossas terras é que a história é contada. Tratados pelos colonizadores como coadjuvantes, cabia a eles transmitir um conjunto de valores que teria por objetivo civilizar aquele povo que transmitia a memória de seu povo de geração a geração, fazendo uso da tradição oral em contraponto ao branco europeu com sua escrita.    Monteiro, em “Negros da Terra” evidencia o impacto negativo na forma da organização das sociedades indígenas. Para o autor, os português imporiam diversas formas de organização de trabalho levando as organizações sociais indígenas à uma declínio demográfico inclusive. A conseqüência desse quadro foi o trabalho forçado para que se construísse uma sociedade como eles conheciam. Ou seja, na visão eurocêntrica o que tem valor é o modelo europeu e ele é levantado por cima do que se destrói, seja indígena ou africana, o que se têm é a submissão ou imposição para doutrinação/civilização.

Para desconstruir esse conjunto de representações eurocêntricas é necessário evidenciar outros aspectos dos índios no Brasil, levando em consideração as estruturas políticas, culturais e sociais. Cunha em “Introdução a uma História Indígena” indica que o que é hoje o Brasil indígena representa fragmentos de um tecido social cuja trama, é muito mais complexa e abrangente e para ilustrar a questão mostra, por exemplo, que motivos mesquinhos e não uma campanha de extermínio foi o que reduziu a população na casa dos milhões em 1500 aos pouquíssimos 200 mil atualmente. Isso quer dizer que, além das epidemias trazidas pelos portugueses e da escravidão há muito outros fatores, como as guerras entre tribos, que contribuíram para o cenário que temos atualmente.

Outra observação sobre a temática indígena vem de Fausto, em “Os Índios antes do Brasil”. O autor introduz o conceito de cacicado: estruturação política da sociedade indígena em estratos com distinção entre nobreza, comuns e escravos (cativos de guerra). Porém, até mesmo essa terminologia sofreu alterações e foi generalizado pelos conquistadores, e atualmente, temos o termo utilizado para designar formações sociopolíticas que possuem um centro de poder supralocal, mas não um estado. Fausto adverte sobre o emprego de algumas evidências para necessariamente aplicar em todo contexto, inclusive destaca o cenário amazônico, isto porque a complexidade e ampliação da imaginação sociológica são necessárias para estudar a temática indígena de forma a não ser corrompida pelos modelos de organização social europeu. A dificuldade em analisar a sociedade indígena utilizando, por exemplo, as crônicas dos expedicionários, está no fato de que as fontes podem em dado momento torna-se fantasiosas interpretando a situação não por ela mesma. Equivale dizer que os olhos de quem vê estão contaminados e impregnados de preconceitos internalizados que corrompem qualquer iniciativa isenta de julgamento. De acordo com Fausto, o que se tem, resumidamente, dessas fontes é que, no caso do Amazonas, há: recursos abundantes, grandes populações reunidas em povoados de dimensões consideráveis, estruturas públicas com função político-cerimonial, capacidade de mobilização de numerosos guerreiros e existência de articulação social entre diferentes povoados.

Há claramente até aqui elementos suficientes para afirmar que os aspectos gerais de uma cultura abrangem uma gama de valores, crenças, linguagem, leis, organização social, produção artística, alimentação, entre outros. Sendo assim, não há cultura inferior ou superior, visto que os aspectos citados podem corresponder a qualquer organização social em qualquer tempo/espaço. Entretanto, não há consideração sobre estas questões em pleno “descobrimento” e uma das alternativas para explicar as diferentes culturas, seus comportamentos, baseava-se no conceito de determinismo biológico. Dessa forma, Laraia em “Cultura: um conceito antropológico” nos abastece de informação para desmontar esse conceito científico (determinismo) de onde partiram outros, como eugenia, monogeísmo, poligeísmo. Diferenças genéticas não são determinantes para classificar qualquer cultura. Os dados científicos, no caso do determinismo biológico, são distorcidos para explicar ou justificar o racismo nazista, para ficar em apenas um exemplo. O que tem um papel importante na evolução do homem é sua capacidade de aprender e sua plasticidade, nunca um conjunto de genes. O autor resume a questão: o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo (endoculturação). O caso de Kaspar Hauser serve para corroborar essa afirmação: Kaspar Hauser (provável 30 de Abril de 1812 – 17 de Dezembro de 1833 em Ansbach, Mittelfranken) foi uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada na Praça Unschlittplatz em Nuremberg, Alemanha do século XIX, com alegadas ligações com a família real de Baden. Hauser não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. O mesmo conceito que serviu como argumento para as invasões bárbaras ocorridas nas Américas, o de que existem seres inferiores, com déficit, está ali para justificar a modelagem do comportamento de Hauser. O antropólogo Montaigne sintetizou a questão: “na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”.

Como refazer o caminho para além desta visão contaminada pelo eurocêntrismo? Como considerar o que é diferente do que estabeleci como “normal” diante da questão indígena? Na busca por estas respostas, observa-se que os conceitos, imagens e representações sobre o continente africano, construído ao longo da história por uma visão eurocêntrica não se sustentam após análise profunda da organização social, política, econômica e cultural da civilização indígena. Numa sociedade multicultural, a visão de mundo eurocêntrica deve ser superada para assegurar o acesso às riquezas culturais em níveis elevados da cultura indígena que atualmente são sucumbidas por olhares parciais. Por meio da observação da organização política, social, religiosa e econômica indígena é possível trazer para o debate os argumentos eurocêntricos e descontraí-los por meio dos inúmeros aspectos relevantes, tais como organização social e política, a produção artística e cultural, entre outros. Portanto, para se compreender a questão indígena é necessário excluir explicações mecânicas, simplistas e genéricas produzidas pelo eurocentrismo, tema central combatido neste artigo.

A significação: uma abordagem pedagógica

Por ser social, o homem é capaz de pensar conceitualmente e de forma alegórica, de maneira a transcender o conhecimento empírico das coisas e do mundo, assim como tornar-se apto a estabelecer as relações mais lógicas entre elas. De acordo com essa afirmação de Lévi-Straus é possível compreender que para validar a afirmação acima basta pensarmos, logo existimos e, existindo passamos a identificar e relacionar o mundo ao nosso redor. Além disso, na teoria do desenvolvimento e aprendizagem de Vygosty, o ser humano distingue-se dos animais porque possui a autoridade consciente de sua conduta, isto é, o homem é capaz de pensar em elementos ausentes, de imaginar circunstâncias vividas, de planejar ações, entre outros. Esta afirmação “o homem não pensa sozinho, mas o faz socialmente” é de Cardoso de Oliveira (1998),em “O trabalho do antropólogo”. E, neste contexto de Educação em ambientes não escolares, vem bem a calhar, pois na medida em que educador e educando estabelecem relação inicia-se uma “teia de significados” que despertam a faculdade de intercambiar experiências e assim o fazendo, deixam de pensar sozinho e pensam um com o outro. Isto é, numa explicação “moderna” e não filosófica da afirmação.

A significação das coisas do mundo é o início da atuação do Homo sapiens sapiens. Isto porque, ao representarmos as coisas que nos cercam exercitamos a representação e, baseado na premissa de que o homem não pensa sozinho é na inter-relação com o outro que estabelecemos o diálogo filosófico na busca por entender aquilo que nos cerca. E de acordo com Bakhtin, refletir a respeito do modo como construímos a nossa realidade, o nosso universo de significações, e de como a linguagem tem papel fundamental em nossa reelaboração do mundo, da vida e de nossa subjetividade, enfim, refletir sobre o caráter cultural do nosso psiquismo. O desafio de ultrapassar as marcas socialmente e culturalmente estabelecidas pelo sistema escolar representa o privilégio de se utilizar do espaço não escolar para a educação. Equivale dizer que, por conta de reunidas no mesmo local as mais diversas representações sócio-culturais o diálogo será sempre enriquecedor para quem se lança nesta viagem por compreender as nuances da educação para além dos muros da escola.

A educação não se reduz à relação educando-educador no interior de um processo pedagógico intra-escolar. Ela se insere no processo social, como parte de um todo mais amplo. A partir dessa afirmação e baseado no pressuposto acima, temos os ambientes supracitados como exemplos de ambientes que potencialmente, pelo menos teoricamente, estão abertos a intervenções sólidas e com objetivos de “repensar” ou transformar a visão de mundo de seus participantes, sejam eles educadores ou educandos.

Quando não se exige uma atuação apenas para promoção do aluno a outras séries, a educação informal:

… passa a ser objeto explícito da atenção, desenvolvendo-se uma ação educativa intencional, então tem-se a educação sistematizada. O que determina a passagem da primeira para a segunda forma é o fato da educação aparecer ao homem como problemática; ou seja: quando educar se apresenta ao homem como algo que ele precisa fazer e não sabe como faze-lo. É isto o que faz com que a educação ocupe o primeiro plano na sua consciência, que ele se ocupe com ela e reflita sobre ela. Quanto a nós, se pretendemos ser educadores (especialistas em educação) é porque não nos contentamos com a educação assistemática. Nós queremos educar de modo intencional e por isso nos preocupamos com a educação.(SAVIANI,2002,p.48).

Portanto, ao unir o conteúdo da sala de aula com a realidade de nossos educandos estabelecemos um novo horizonte: a possibilidade de existir opções que não aquelas permeadas de violência, pobreza e abandono.

Promover a capacidade para usar a leitura como forma de aprendizagem deveria constar nos primeiros tópicos das discussões pedagógicas ou ainda da formação do profissional da educação. Porém, o que encontramos são sujeitos, muitas vezes, incapazes de articular um pensamento de forma coerente e capaz de suscitar discussão. Encontramos, infelizmente, muitos profissionais da área da educação desprovidos da habilidade de pensar, isto é, reproduzem um discurso pré-estabelecido, confortáveis em suas zonas dispensam qualquer discussão, pois não se querem dar a experimentar, questionar, duvidar. Porém, mais do que a leitura (afinal, existem muitos que lêem e lêem muito) é necessário compreender o que se lê.

Em meu artigo “O problema é que você lê pouco” que você lê aqui,  discuto justamente essas questões.

Referências

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.

CARDOSO. de Oliveira, Roberto 1998. O trabalho do antropólogo. São Paulo: Unesp

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Autores associados: Campinas, SP, 14ª ed., 2002.

Explica pra mim o que é Cultura

De acordo com Confúcio o que diferencia os homens são os hábitos que eles mantêm, sua natureza por outro lado, é a mesma. A diversidade cultural das organizações sociais humanas oferece ao observador mais atento a oportunidade de se surpreender com as diferenças ou provocar um tipo de hierarquização de cultura que é tão ofensivo quanto menosprezar seu par por meio de diferenças corporais ou debilidades congênitas. Entretanto, só é possível distinguir diferenças a partir de uma comparação e esta por sua vez se dá do ponto de vista etnocêntrico, ou seja, considerar os costumes além de sua terra como bárbaro, passível de um processo civilizatório. Diferente é o que não é igual a mim, em última análise.

No ambiente acadêmico ocorre um processo higiênico de doutrinação quanto ao que é ou não alta cultura. Não há diálogo sobre os comportamentos ou hábitos que levam determinado sujeito a preferir um gênero em função de outro, o que existe é: isto é bom ou não. Desse modo, sutilmente, ou em alguns casos alarmantemente gritantes, professores demonizam escritores, menosprezam a cultura dita popular e, tal como receituário, determinam o que é de bom tom admitir consumir. Nesse processo de tornar o sujeito culto, perde-se  uma referência importante: o cenário em que este ou aquele ser humano desenvolveu-se, as relações sociais dinâmicas que o constituiram como ator do processo, e não um mero passivo-observador.

Nesse sentido, Paulo Coelho, Dan Brown entre outros são colocados no cantinho da prateleira próximo ao rodapé, enquanto Machado, Clarice e Saramago ficam ali, posicionados no alto, objetos de um culto. Não há aqui qualquer avaliação quanto ao estilo desenvolvido por estes autores, afinal são distintos e, são apenas ilustrações para argumentação deste post. Muito menos, tem a pretensa distinção sobre o alcance global de uma ou outra obra, afinal qualquer comparação entre Paulo Coelho e Machado de Assis é injusta de qualquer ponto de vista. Fato é que o que beira o popular sofre o sério risco de ser tomado como sinônimo de lixo, contrapondo os ocultos (aqueles que não são tão acessíveis) textos dos mais ilustres escritores.

Explica pra mim o que é cultura? Explica pra mim como é que alguns acadêmicos julgam o que deve ou não ser considerado como um alta cultura e por quais critérios consideram obras “menores” em função de outras? “Você tem que ler isto ou aquilo” : esta frase não é somente uma sugestão, antes está carregada de significados enxarcados de “ideologismos marxistas”, sendo esta expressão mais um paradoxo buscando resolução.

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