Do Tropicalismo

Num contexto musical em que o tradicionalismo e fundos nacionalistas de esquerda davam o tom, o tropicalismo surge com características e elementos específicos que tinham por fim universalizar a linguagem da música popular brasileira. A troca da suavidade das cordas de nilon do violão pelas de aço da guitarra elétrica não tinham somente a modernização musical como objetivo, além disso, a própria cultura nacional teria suas cores alteradas radicalmente.

A mudança estética, em que a bossa nova se misturava ao rock e englobava outros ritmos como samba, bolero, rumba, rompeu as estruturas do que é alta cultura, cultura de massa, tradição e vanguarda. O tropicalismo transformou o comportamento político-ideológico, e também estético. Não à toa foi reprimido pelo governo militar. Porém, o que ficou foi a “descoberta” dos trópicos como centro de uma cultura própria e não reprodução estrangeira do estético, do belo, do que é de bom gosto ou não.

A idéia de Oswald de Andrade era a devoração crítica do legado cultural universal, não por meio da submissão e redenção do “selvagem” e sim da perspectiva do “selvagem” mau, sem escrúpulos, esquecendo os arquétipos literários que envolviam de ares claramente místicos, portanto “bons”. Essa não catequisação, essa desconstrução revelava uma nova forma de se ver a realidade ou significá-la.

Esse conceito de teoria e prática do “devorar”, princípio simbólico da antropofagia, de acordo com um dos líderes do movimento tropicalista, Caetano Veloso, foi fundamental para rediscutir a produção cultural e se torna um método adotado por eles próprios (tropicalistas) para o alcance do objetivo de ser mais que apenas um movimento musical:

A idéia do canibalismo cultural servia-nos aos tropicalistas como uma luva. Estávamos “comendo” os Beatles e Jimmy Hendrix. Nossas argumentações contra a atitude defensiva dos nacionalistas encontravam aqui uma formulação sucinta e exaustiva. Claro que passamos a aplicá-la com largueza e intensidade, mas não sem cuidado, e eu procurei, a cada passo, repensar os termos em que a adotamos. Procurei também e procuro agora relê-la nos termos originais tendo em mente as obras em que ela foi concebida para defender, no contexto em que tal poesia e tal poética surgiram. Nunca perdemos de vista, nem eu nem Gil, as diferenças entre as experiências modernistas dos anos 20 e nossos embates televisivos e fotomecânicos dos anos 60. (VELOSO, 1997, p.248)

O tropicalismo, portanto, retomou as considerações oswaldianas para uma reinvenção do cenário cultural brasileiro. Da mesma forma que a antropofagia oswaldiana inicia a discussão cultural de 22, a tropicália repensa e atualiza a questão.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

AGUIAR, Cícero Vicente Schmift de Aguiar. Uma análise da antropofagia tropicalista. Porto Alegre, 2010.

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