Murilo Rubião: do fantástico ao real

Num prédio abandonado um diálogo entre dois homens inicia-se de modo não convencional e, seu término troca a posição dos dois em relação a quem é a caça e quem é o caçador, um trocadilho não tão necessário assim, por conta do título no conto de Murilo Rubião, “A Armadilha”, contido em no livro “A casa do girassol vermelho”. A escolha do conto “A armadilha” para este post se deve pela curiosidade em investigar Murilo Rubião, até então desconhecido pelo autor deste trabalho. Entretanto, este não é um privilégio meu, visto que a obra do autor permaneceu desconhecida de grande parte dos leitores brasileiros, por aproximadamente três décadas. Por volta de 1974, é que Murilo Rubião torna-se conhecido.

Inicialmente, é preciso reconhecer que Rubião faz parte dos autores brasileiros que tendem para o universo fantástico. Elementos sobrenaturais se sobrepõem ao rotineiro, e mistura o real com o ficcional que implica numa narrativa envolvente e subjetiva, isto porque, o autor não dá respostas fáceis e abre possibilidade para algumas possíveis interpretações, e este é o caso do conto já citado.

A principal característica de “A armadilha” é tentar descobrir o porquê de Alexandre Saldanha Ribeiro, protagonista da ação, estar indo ao encontro de alguém sobre quem Rubião não dá a mínima pista. É um jogo de armadilha com o próprio leitor, que precisa dar conta de descobrir os porquês e se livrar do enigma proposto pelo autor. Não há o desenvolvimento da personagem principal, nem seu antagonista. São apenas os dois em ação, porém a progressão se dá no embate das duas personagens. O autor não está muito interessado em explicar coisa alguma, e é aqui que se apóia o elemento fantástico da obra: as cenas descritas trazem luz e sombra, e acima de tudo questionam o leitor se é verossímil o que se está lendo. O choque inicial causado pela recepção do velho à Alexandre, já incomoda o leitor na busca por respostas: quem é ele? Porque está com uma arma? O que ele faz ali?

Rompendo padrões do realismo tradicional, Rubião nos conduz à um intrigante diálogo, onde só é possível deduzir o que se passa entre as duas personagens. A cada frase, a troca de papéis se impõe: quem é o perseguidor, quem é o perseguido?. A utilização de uma linguagem simples aproxima o leitor e, parece tornar, mesmo que por alguns minutos a experiência próxima da realidade: há um movimento claro, por parte das personagens, de “surpresa-ação-surpresa-reação”.

Este movimento de “surpresa e ação” faz todo o sentido no final do conto, que na troca de papéis oferece a possibilidade de completar o aspecto cíclico. Num dado momento, Rubião destaca o seguinte sobre uma de suas personagens: “Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto”. É como se Alexandre fosse arrancado de suas recordações, porém em nenhum momento temos acesso à elas.

O autor nos dá a conhecer apenas a parte central da história, não é importante para ele nos indicar nem o começo, nem o fim. Mais uma vez, o movimento de surpresa e ação, salta do conto e toma conta do leitor: surpresa diante do desconhecido, do que não é explicado, e a reação de prosseguir na construção de estruturas possíveis para dar conta de fazer algum sentido. Rubião, ao fugir de uma escrita rebuscada, o que aproxima o leitor, não torna sua conclusão fácil, isto é, não há pistas que sugiram algum outro sentido que não o subjetivo.

Na metade do conto, percebemos a existência de uma terceira personagem (Ema), que não faz parte da ação, mas que parece ser objeto de disputa entre os dois. Por outro lado, não é apontada nenhuma relação passional entre eles. Porém, o questionamento persiste quem é Ema? Qual a importância dela na narrativa? Longe de ser apenas um objeto decorativo da ação descrita por Rubião, Ema é a responsável por indicar que a personagem Alexandre sofre com a humilhação do outro, diante do fato de que ela havia abandonado o velho: “Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.” Ainda assim, quem é Ema?

Rubião, num processo de auto-reflexão e constante reiteração, reescrevia continuamente seus contos, talvez numa tentativa de busca desesperada por clarificar sua linguagem ao produto que temos em mãos hoje. Esse lançar-se à perfeição traduz a necessidade do autor em codificar sua obra, mas produz o oposto, é clara demais para ser descrita como algo simples. Partindo para uma interpretação pessoal, por isso subjetiva, devo destacar antes de tudo que, SCHWARTZ (1982) propôs alguma lógica aos contos de Rubião. “A armadilha” está contida numa subdivisão nomeada por ele de “tendência ao infinito”. Este elemento, a infinidade/eternidade, fica evidente na última frase do conto analisado aqui: “Aqui ficaremos, um ano, dez, cem ou mil anos”.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Trackback: Murilo Rubião: do fantástico ao real (parte II) « contraposição
  2. doenças de pele
    nov 04, 2011 @ 17:45:22

    Reconheço que achei seu blog ótimo, pois seus posts são sempre muito bem elaborados. Sem firulas, você foi direto ao X da questão e sanou todas minhas dúvidas sobre esse assunto. Já guardei nos favoritos seu blog e irei segui-lo daqui pra frente.

    Responder

  3. Arnaldo Alves Pereira
    mar 04, 2013 @ 17:18:56

    Descobri esta página somente hoje e, definitivamante, gostei do seu estilo.
    Sou leitor de Murilo Rubião há muito tempo e me impressiona a sua capacidade em escrever e seu estilo fantástico.
    Gostaria de ler uma crítica sobre “O Homem do Boné Cinzento”.

    Responder

    • contraposicao
      mar 04, 2013 @ 17:21:56

      Poxa Arnaldo, que elogio bom de se receber.
      VALEU!

      Ah! O contraposicao agora está no contraposicao.com então se quiser seguir a página/feed, rsrsr, fique a vontade!

      Abraço

      Responder

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