As pessoas não mudam

1. A tese

Há algum tempo, meu amigo Marcos Orison, vulgo Marquinhos, vem compartilhando com um grupo (seleto) de pessoas uma tese que ele defende – talvez não exatamente nova ou original, mas certamente polêmica (especialmente em círculos religiosos) – de que as pessoas não mudam.

Em princípio, a ideia me pareceu estranha e difícil de ser sustentada, sobretudo em consonância com certo discurso teológico (alguns diriam pregação) que afirma que não há estrago que Deus não possa consertar, ou problema que Ele não seja capaz de dar jeito. E “pau que nasce torto, morre torto”? Sim e não, responderiam os defensores desse discurso. Sim, caso a pessoa se abandone a esta situação, e “não” caso se renda aos consertos da marcenaria celestial. Parece que se a fé não vier temperada com um otimismo – ou “a certeza” – em relação ao ser humano, à vida e o que a circunda, deixa de ser “fé” e passa a ser descrença, ceticismo, pessimismo ou coisa que o valha.

Nesse contexto, a fé necessita da mudança (resultados, coisas acontecendo) para ser fé. Por mais correta que pareça, esta perspectiva tende a diminuir, com o tempo, as perspectivas de amadurecimento do crente, que passa a viver uma fé estagnada (no binômio causa-efeito ou problema-solução), obtusa e “sem graça” (literal e metaforicamente falando). Esse tipo de fé, uma fé que tem os olhos e pés longe do chão, tende a perder sua conexão com e relevância para a vida de pessoas de carne e osso (pleonasmo proposital).

Voltando à tese de Orison. Sua explicação – em palavras que não conseguirei reproduzir a contento (ele deveria ter escrito isso) – é de que cada um de nós carrega cargas ou marcas, sejam elas genéticas, comportamentais e/ou culturalmente geradas, que nos acompanham sempre, como um cantus firmus. Quando alguém “se converte” ao Evangelho, afirma-se que sua vida e sua pessoa mudam – na linguagem paulina, “tudo se faz novo”. Algumas coisas nesse processo, fundamentais suponho, mudarão seu curso. Passamos a apurar o nosso senso de metamorfose. O Espírito revela à nossa consciência que não somos – ou não podemos continuar sendo – o mesmo tipo de gente que costumávamos ser antes desse encontro com Cristo. Os testemunhos surgem, assim, como evidência pessoalmente narrada da mudança: antes eu era “assim”, hoje sou “assado”, sou diferente, me tornei uma pessoa melhor.

Entretanto – e aqui flerto explicitamente com a tese em questão –, se observarmos com atenção, e se formos honestos o bastante, veremos que alguns espinhos de outrora continuaram cravados no mesmíssimo lugar, relutando para não sair da carne. A disposição quanto a como os tratamos pode (e deve) mudar. Mas eles, seja lá representação do que forem, continuam lá, resistentes, mesmo que escondidos ou sublimados. A transformação que a fé em Cristo e sua graça produzem não nos faz ex-pecadores, mas pecadores redimidos da inelutável (humanamente falando) escravidão do pecado.

Percebo que, de um jeito ou de outro, continuamos sendo tortos. Ainda cometemos os mesmos erros tão reprovados, ainda nutrimos a mesma espécie de mal tão detestado e, esporadicamente, ainda somos tentados – nos rendendo à tentação às vezes – pelos mesmos vícios que por tantos anos nos assombraram e que a gente achava que, com o tempo e seus tratamentos, desapareceriam. Fracasso? Desalento? Falta de fé ou de perseverança? Não necessariamente. Injetar doses de realismo na fé não significa torná-la menos fé, mas fazer dela uma fé mais honesta e humana. Então, volto a aquiescer com a tese em questão: as pessoas (realmente) não mudam… Mas, até que ponto?

2. A fé como paradoxo

A fim de prosseguir, quero acrescentar à tese original duas perspectivas que me serão úteis aqui: primeira, da fé como paradoxo e, em seguida, da fé como batalha.

O paradoxo da fé pode assim ser descrito: uma vez que estou em Cristo, pela fé estou e pela graça sou nova criatura, que se reveste dia após dia de uma nova humanidade – isto é, passo a ser gente conforme o tipo de gente que Cristo foi e deseja que eu seja. Nova disposição, vida nova. Ao mesmo tempo, o que é novo vai brotando em meio àquilo que é velho, mas que ainda permanece vivo e ativo em mim por causa do pecado.

Afinal, sou um novo ser ou estou a caminho de me tornar um novo ser? Ambos, talvez. Em outras palavras, sou um novo ser ainda a caminho de me tornar novo conforme a novidade de vida em Cristo revelada. Sou e estou caminhante. Como diz a bela poesia de Antonio Machado: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar…”.

Paradoxo, sim. Anomalia para alguns. Boa anomalia para a fé, visto que uma fé saudável é aquela que não tenta erradicar-se dos paradoxos (ou erradicar os paradoxos de si), mas admite (jubilosamente) viver infiltrada no meio deles. Se a fé é “loucura”, segundo a linguagem paulina, então não há porque se envergonhar de ser anomalia excêntrica, aos olhos humanos, a fim de encontrar graça aos olhos divinos.

Se a graça é esse dom divino destinado a todas as pessoas, mas cujos efeitos afetam mais a gente torta, então não há razão para não se admitir torto e inacabado – embora isso não signifique “conformismo”. Como analisa Frederick Buechner em seu livro The magnificent defeat (1966), quando se vive pela fé “ao invés de tudo se manter tranquilo e certo, nada é tão tranquilo e tudo é incerto”. E não gratuitamente ou sem razão de ser, como diz ele: “Algo novo e perturbador está rompendo com algo velho. Alguma coisa está tentando nascer. E se algo novo irá nascer, a velha coisa precisa dar passagem, e há agonia no processo tanto quanto há alegria” (p. 63).

Isso mesmo. O processo em que me torno um novo ser é recheado de paradoxos, como os descritos por Buechner. A fé convive com a dúvida, enquanto as alegrias estão misturadas com as agonias. A fé cristã combina menos com o universo seguro do “só” (somente isto ou aquilo) que com o mar de incertezas do “nem só”. Assuma, concorde e aceite quem quiser e nesse caminho se reconhecer.

3. A fé como batalha

Como a tese em questão pode coexistir de modo relativamente coerente com certa (não-convencional) visão cristã?

“Os dias às vezes parecem iguais, a guerra é minha rotina”, diz uma parte da canção Continuar (2008) da banda Oficina G3, ideia que me parece bem aplicável à vida cristã, uma vez que a guerra é um de seus indissociáveis elementos. Luta-se não apenas para sobreviver, mas porque se vive em uma nova ordem de vida, como já foi pontuado. Essa luta tem uma dimensão tanto interior como exterior – e aqui continuarei dando maior atenção à primeira.

A Carta aos Romanos (7.19) contém uma das mais sinceras descrições da luta humana nesta primeira dimensão e que se resume bem na frase “não faço o bem que prefiro, mas o mal que eu não quero, esse faço”. Uma frase que pode bem ser combinada com a que afirma não haver “um só justo na terra, ninguém que pratique o bem e nunca peque” (Eclesiastes 7.20). Assim, a vida do justo é marcada por um litígio permanente contra a sua própria e inerente in-justiça. Luta sobre a qual jamais se teria sombra de vitória não fosse a graça divina, que nos basta, como afirma Paulo, mas no meio (e não fora) da batalha.

A paz – e não me refiro ao “estado de paz interior” oferecida como produto fácil nas diversas prateleiras religiosas, mas a verdadeira paz de Cristo, que ultrapassa todo entendimento, que é fruto da justiça – só pode ser conhecida por quem não abandona o front de batalha. Citando outra vez Frederick Buechner, “a paz não se encontra na fuga da batalha, mas em seu intenso calor”.

Dessa forma, como gente e seguidor do Cristo que tento ser, luto todos os dias para viver meu chamado em meio às muitas (provisórias) contradições que em mim habitam, e contra tudo o que detesto ser, mas que ainda permanece encravado como espinho em minha carne. Sim, p-e-r-m-a-n-e-c-e… Às vezes por razões que não compreendo – “não entendo o que faço”, disse Paulo – outras tantas, por razões que tento renegar. Mas, se por um lado me sinto enfraquecido, por outro saio fortalecido; se estou sendo derrotado sob certa perspectiva (triunfalista e pragmática de fé), sob outra, baseada na graça e no poder que se aperfeiçoa na fraqueza, alcanço relances de vitória.

Então, decidi que, paradoxalmente e pela força do Espírito, buscarei ser uma pessoa que jamais desiste de perseguir a mudança a despeito de não ser capaz de mudar certas coisas – acolho e rejeito a tese ao mesmo tempo. Para tanto, tenho me esforçado para aceitar quem eu sou, sem, contudo, me resignar à condição de vítima de mim mesmo; desejo não fugir e nem ignorar minha rotina humana e cristã de luta; recuso as vias do “ópio do povo” ou da cauterização da consciência, que fazem discípulos para a morte todos os dias. Entendo que reconhecer minha miséria não é sinal de desistência da luta, mas um caminho para a liberdade.

Fonte: http://www.novosdialogos.com/

Autor: Jonathan Menezes

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