Uma missa

O conto Missa do Galo de Machado de Assis, originalmente publicado em Páginas recolhidas (1899), é narrado por Nogueira, um jovem de dezessete anos de idade que veio ao Rio de Janeiro para estudar. Ele mora em Mangaratiba, porém está hospedado na casa do escrivão Menezes, que havia sido casado com uma de suas primas. Menezes é viúvo, e casado pela segunda vez com Conceição, considerada uma “santa”, pois se acostumou com uma relação extraconjugal do marido, que dorme fora de casa uma vez por semana, sob o pretexto de ir ao teatro. Como personagens adjuvantes apresentam-se Dona Inácia, mãe de Conceição, e duas escravas.

A narrativa ocorre na véspera do Natal, numa das noites em que Menezes vai ao teatro. Nogueira combina com um vizinho ir à missa do galo e que o acordará à meia-noite. Enquanto espera esse amigo na sala da frente, lê um romance, Os três mosqueteiros, quando ouve se aproximar Conceição. Eles conversam sobre assuntos variados, e o tempo passa. A conversa rende produzindo risos altos, por isso eles decidem se aproximar e falarem baixo para não acordar D. Inácia. Contraditoriamente, o vizinho grita na rua que é hora da missa do galo e Nogueira tem de ir. Depois deste dia, Conceição conserva seu antigo modo de ser, sem de longe lembrar a intimidade da noite anterior. No Ano Novo, ele volta para Mangaratiba. Em março, volta para o Rio de Janeiro, entretanto o escrivão havia morrido. Jamais encontrou Conceição novamente, soube depois que ela havia se casado com o escrevente do marido.

Ao iniciar a narrativa com a frase “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”, Machado de Assis explora a descoberta de um novo mundo por Nogueira. O encontro enigmático com uma mulher, Conceição, é apenas uma das partes dessa descoberta. A referência religiosa do título é enganosa, pois o interesse de Nogueira pela missa é outro. Não somente pelo título, como pela estrutura narrativa, Machado apresenta pistas que criam o caráter enigmático do conto. Um exemplo desse caráter é o que ocorre com quando, por curiosidade, pede ao escrivão que o leve, quando este diz certa noite que irá ao teatro. O silêncio de Menezes, os risos das escravas e a atitude de D. Inácia fazem com que ele perceba algo de estranho, algo que ele precisa elucidar. Esse novo mundo explorado por Assis evidencia-se na cena principal, o encontro casual, ou não, de Nogueira com Conceição. Ele perceberá que no mundo adulto as atitudes são proporcionais às situações. Ao se transformar de “santa” (outro termo religioso, com duplo sentido, pois não evoca a santidade e sim a complacência, a submissão da mulher ao marido, o tapar dos olhos frente à desilusão) para alguém capaz de rir, sonhar, de falar de suas lembranças, passando a ter vida, quando Nogueira percebe que “Tal foi o calor de minha palavra que a fez sorrir”. Não somente a transformação de Conceição ocorre como também a de Nogueira, que ao passo da conversa, irá transformar-se num homem, com toda sua complexidade de emoções, e virilidade acentuada. A aproximação dos dois se dá fisica e progressivamente, o vulto torna-se uma mulher, sensual. E está claro que o jogo proposto é consensual, “E não saía daquela posição que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras”.

Há indicações de biógrafos que Machado de Assis considerou que suas obras revivessem em vez de ficarem fadadas ao esquecimento dos leitores mais exigentes, concordando com Calvino que pontifica ser um clássico “ aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível” (2004, p. 15)”. O tema do despertar da sexualidade não era novo na literatura brasileira, entretanto a forma com que Machado considera suas nuances e a elegância de sua escrita descrevem, mesmo nos dias atuais, o que se passa com um adolescente ou jovem quando de sua iniciação sexual. Sendo assim, Perissé considera que,

a arte de ser original, e, concretamente, de escrever de maneira original, consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já pensou, já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita (PERISSÉ, 2003:www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm).

A sensualidade do encontro dos dois, ou do ponto de vista do personagem principal, é proposital e contrapõe-se ao que se possa imaginar ao ler o título do conto. De um lado está Conceição, consciente de sua sensualidade, do que é capaz de provocar no outro. Explica-se sua postura anterior dada a limitação das regras de comportamento que deve obedecer. Conceição havia adotado a conduta rígida, escondendo sua sensualidade. O contato com o estudante, o desconhecido, em uma situação casual cria a possibilidade de outro mundo. A racionalidade é colocada em segundo plano, trazendo o desejo ao centro da ação. Explicitasse essa realidade no conto quando Nogueira percebe que  “Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros e menos magros do que se poderiam supor”

Essa troca, esse jogo, essa aproximação só é possível, pois do outro lado temos Nogueira, em toda sua inocência. É seu olhar de interesse que permite a revelação da nova Conceição. Seu despreparo para dominar situações como esta, é solo fértil para brotar toda a variedade de emoções, próprias do desejo. Porém ele é forçadamente tirado dessa experiência, afinal, ele tem de ir à Missa do Galo. Mas é na igreja que a subjetividade religiosa da proposta de Assis fica clara, quando a figura de Conceição, mais de uma vez, se interpõe entre ele e o padre. Sua auto-absolvição fica por conta de seus dezessete anos, entretanto ao “confessar”, ele está assumindo sua condição de homem, por isso não justifica a argumentação da inocência.

Para Pelizzaro, essa dissimulação é a arte de fingir, ou melhor, do propósito de ludibriar a outrem que se encontra no cerne das posições adotadas em momentos distintos pelo escrivão e por sua esposa, respectivamente. Os fragmentos há pouco evocados permitem inferir que Machado amplia as indefinições textuais do conto. O narrador não transmite com segurança ao leitor as informações atinentes à situação que vivenciara na casa de Menezes. Há uma precariedade que influi não apenas no funcionamento da memória de Nogueira, dificultando a recuperação do fato, mas que atua igualmente no seu esforço em compreendê-lo.

O conto Missa do Galo apresenta seu caráter enigmático, ao propor inúmeras leituras e interpretação, sendo esta apenas uma dela. Qual a mensagem, qual significado é maior, quais conflitos devem ser resolvidos, quem foi que provocou, quem foi que cedeu, o que ficou subentendido, são estas as questões que Machado de Assis evoca. A cumplicidade do leitor é necessária para atenuar as regras do jogo, que colocadas de outra forma, pareceriam propositais. Principalmente por causa de o conto ser narrado em primeira pessoa, o leitor pode se colocar no lugar do narrador e se tornar cúmplice do desenvolvimento da narrativa. Ao jogar com as emoções do jovem e da mulher, as defesas das personagens centrais serão realizadas se tomados os mais diversos pontos de vista propostos por Machado de Assis.

Os fatos narrados pelo autor, no leva a pensar sobre a questão da traição. Se a Igreja da época, bem como a sociedade, entendia traição tanto como desejo de trair, como o fato propriamente dito, as insinuações e interpretações possíveis entre as personagens principais, também caracterizam adultério. Machado de Assis tenta incomodar o leitor quando apresenta a complexidade da temática fidelidade e traição. O conto, ainda na visão de Pelizzaro expõe as fragilidades de um jovem que mal sabe lidar com as circunstâncias oriundas da manifestação de um sentimento amoroso, a dificuldade de uma esposa em ter um sono tranqüilo na noite em que o marido não dorme em casa porque vai ao encontro da amante, e a tentativa de uma mulher casada em seduzir o hóspede sem ser flagrada por sua mãe, já que não quer deixar qualquer vestígio de uma possível transgressão às convenções sociais.

O autor não pretende, em momento algum, estabelecer a verdade absoluta, muito pelo contrário, visto que a verdade depende do ponto de vista de quem avalia, flertando com o relativismo moderno. Se Nogueira, o narrador, nunca conseguiu entender a conversa entre ele e Conceição, é evidente que se torna perigosa qualquer leitura ou análise apressada e descuidada. Por isso, é possível apenas especular sobre os possíveis desdobramentos da trama, neste caso, o encontro mais que subjetivo e intencional entre Nogueira e Conceição. E somente esse aspecto eleva Machado de Assis ao lugar comum e quase unânime: o autor não é somente um grande escritor brasileiro, sua obra tem caráter universal.

Referências

ASSIS, Machado de et al. Missa do galo: variações sobre o mesmo tema. São Paulo:

Summus, 1977.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

PERISSÉ, Gabriel. O conceito de plágio criativo. Disponível em:

<www.hottopos.com/videtur18/gabriel.htm>. Acesso em: 20 nov. 2007.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: