Eu sou melhor que você: espiritualidade versus misericórdia silenciosa

“Vivendo e não aprendendo… estes somos nós”. (Calvin)

A celebração da espiritualidade num mundo “pós-moderno” esmaga a imensa possibilidade de significados que o termo alcança e que o senso-comum costuma simplificar em narrativas rasas. Uma experiência mística não é exclusividade de um determinado segmento religioso antes se torna o centro de transcendência de todos eles. Concordando com a afirmação de Leonardo Boff (teólogo e escritor brasileiro) no momento em que a cultura entra em crise, sempre há uma volta à religiosidade e conseqüentemente é na espiritualidade que as grandes utopias e os grandes sonhos são gerados. Vejamos a tragédia em Realengo e os desdobramentos que o evento alcançou…

Os cristãos podem, em tese, ter uma espiritualidade mais elevada que o participante de um terreiro de umbanda. Além das fronteiras das crenças, o perfil que temos hoje no Brasil é o da pessoa “espiritualizada”: na sexta-feira participa de um despacho, no sábado faz meditação e yoga e no domingo de manhã leva seu dízimo e participa de um missa/culto em uma igreja católica ou cristã. Essa busca por maior intimidade ou conexão com o divino apresenta contornos de fuga da realidade e idealizam condições que nada tem a ver com o futuro imediato.

O que nos permite entender a espiritualidade alheia não é a tolerância ao credo estranho e sim o amor, não esse de fachada, não esse que serve às temáticas cinematográficas e do mercado publicitário, mas aquela capacidade de amar, de se relacionar com o próximo. Encarar um contexto social em que tragédias são o centro midiático desmonta a auto-imagem construída e idealizada por uma espiritualidade de “outdoor”. Enquanto a espiritualidade treina o olhar para dentro de si, o Amor liberta esse mesmo olhar para aquele que precisa da minha ajuda imediata. Essa releitura acerca do desenvolvimento potencial que se volta para o outro é um processo contínuo de transformação de caráter que nenhuma religião é capaz de moldar.

Estar perto de alguém não é o mesmo que se tornar próximo. Doar o que não nos faz falta não é ser misericordioso, não é ser espiritualizado. Escolher o agasalho mais velho para oferecer na campanha de ajuda aos miseráveis é um desserviço a generosidade. Ao invés do barulho que alguns fazem em relação a sua superioridade em doar dinheiro ou bens aos desabrigados, porque não silenciosamente compartilhar seu tempo num projeto voluntário? Isso mesmo, seu tempo. É no encontro com as necessidades do outro que há cura para a instabilidade emocional e ambigüidades de nosso caráter.

Infelizmente somos viciados no exibicionismo de nossa espiritualidade: o quanto somos superiores aos outros por conseguirmos desenvolver certas habilidades mediúnicas como falar com entes queridos, já mortos, chorar desesperadamente num culto evangélico ou falar da sua última abdução, experiências espirituais ou visões aos seus pares??? Nada disso constitui a dimensão exata da terminação espiritualidade. A mera tentativa de rastreá-la por meio de artifícios perceptíveis já é um paradoxo.

Tornar-se invisível e exercer a compaixão silenciosa talvez seja uma escolha sábia num mundo sedento por algo menos abstrato que experiências religiosas. Nosso maior exemplo de estilo de vida se concentra na pessoa de Jesus, por isso, questione-se: o que Cristo pregou? Uma religião (que vivemos intensamente nos fim de semana) ou o Amor???

Artigo originalmente publicado em www.jubracferraz.com.br

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