A temática indígena: para além de uma visão eurocêntrica

O objetivo deste artigo consiste em explicar o que é o etnocentrismo e seus desdobramentos nos conceitos e conhecimentos produzidos pelas ciências humanas para explicar o impacto nas sociedades indígenas. Além disso, o texto pretende desconstruir alguns dos argumentos que a partir do etnocentrismo transformaram-se em muitos casos “senso comum” e outros até fundamentados em bases científicas. O conceito que consiste em destacar um mundo de reproduções ou representações propondo-o como exemplo e diminuindo à insignificância os demais universos e culturas “diferentes” atende pelo nome de etnocentrismo. De acordo com Everardo Rocha:

Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência.

Desse modo, a temática indígena é construída, desde os primeiros anos escolares, como base nestas representações eurocêntricas/etnocêntricas e nelas ancoram-se a História do Brasil por meio do ponto de vista europeu, o que invalida uma “pré” história antes da chegada dos portugueses. Equivale dizer que somente depois que este civilizado povo adentrou nossas terras é que a história é contada. Tratados pelos colonizadores como coadjuvantes, cabia a eles transmitir um conjunto de valores que teria por objetivo civilizar aquele povo que transmitia a memória de seu povo de geração a geração, fazendo uso da tradição oral em contraponto ao branco europeu com sua escrita.    Monteiro, em “Negros da Terra” evidencia o impacto negativo na forma da organização das sociedades indígenas. Para o autor, os português imporiam diversas formas de organização de trabalho levando as organizações sociais indígenas à uma declínio demográfico inclusive. A conseqüência desse quadro foi o trabalho forçado para que se construísse uma sociedade como eles conheciam. Ou seja, na visão eurocêntrica o que tem valor é o modelo europeu e ele é levantado por cima do que se destrói, seja indígena ou africana, o que se têm é a submissão ou imposição para doutrinação/civilização.

Para desconstruir esse conjunto de representações eurocêntricas é necessário evidenciar outros aspectos dos índios no Brasil, levando em consideração as estruturas políticas, culturais e sociais. Cunha em “Introdução a uma História Indígena” indica que o que é hoje o Brasil indígena representa fragmentos de um tecido social cuja trama, é muito mais complexa e abrangente e para ilustrar a questão mostra, por exemplo, que motivos mesquinhos e não uma campanha de extermínio foi o que reduziu a população na casa dos milhões em 1500 aos pouquíssimos 200 mil atualmente. Isso quer dizer que, além das epidemias trazidas pelos portugueses e da escravidão há muito outros fatores, como as guerras entre tribos, que contribuíram para o cenário que temos atualmente.

Outra observação sobre a temática indígena vem de Fausto, em “Os Índios antes do Brasil”. O autor introduz o conceito de cacicado: estruturação política da sociedade indígena em estratos com distinção entre nobreza, comuns e escravos (cativos de guerra). Porém, até mesmo essa terminologia sofreu alterações e foi generalizado pelos conquistadores, e atualmente, temos o termo utilizado para designar formações sociopolíticas que possuem um centro de poder supralocal, mas não um estado. Fausto adverte sobre o emprego de algumas evidências para necessariamente aplicar em todo contexto, inclusive destaca o cenário amazônico, isto porque a complexidade e ampliação da imaginação sociológica são necessárias para estudar a temática indígena de forma a não ser corrompida pelos modelos de organização social europeu. A dificuldade em analisar a sociedade indígena utilizando, por exemplo, as crônicas dos expedicionários, está no fato de que as fontes podem em dado momento torna-se fantasiosas interpretando a situação não por ela mesma. Equivale dizer que os olhos de quem vê estão contaminados e impregnados de preconceitos internalizados que corrompem qualquer iniciativa isenta de julgamento. De acordo com Fausto, o que se tem, resumidamente, dessas fontes é que, no caso do Amazonas, há: recursos abundantes, grandes populações reunidas em povoados de dimensões consideráveis, estruturas públicas com função político-cerimonial, capacidade de mobilização de numerosos guerreiros e existência de articulação social entre diferentes povoados.

Há claramente até aqui elementos suficientes para afirmar que os aspectos gerais de uma cultura abrangem uma gama de valores, crenças, linguagem, leis, organização social, produção artística, alimentação, entre outros. Sendo assim, não há cultura inferior ou superior, visto que os aspectos citados podem corresponder a qualquer organização social em qualquer tempo/espaço. Entretanto, não há consideração sobre estas questões em pleno “descobrimento” e uma das alternativas para explicar as diferentes culturas, seus comportamentos, baseava-se no conceito de determinismo biológico. Dessa forma, Laraia em “Cultura: um conceito antropológico” nos abastece de informação para desmontar esse conceito científico (determinismo) de onde partiram outros, como eugenia, monogeísmo, poligeísmo. Diferenças genéticas não são determinantes para classificar qualquer cultura. Os dados científicos, no caso do determinismo biológico, são distorcidos para explicar ou justificar o racismo nazista, para ficar em apenas um exemplo. O que tem um papel importante na evolução do homem é sua capacidade de aprender e sua plasticidade, nunca um conjunto de genes. O autor resume a questão: o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo (endoculturação). O caso de Kaspar Hauser serve para corroborar essa afirmação: Kaspar Hauser (provável 30 de Abril de 1812 – 17 de Dezembro de 1833 em Ansbach, Mittelfranken) foi uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada na Praça Unschlittplatz em Nuremberg, Alemanha do século XIX, com alegadas ligações com a família real de Baden. Hauser não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. O mesmo conceito que serviu como argumento para as invasões bárbaras ocorridas nas Américas, o de que existem seres inferiores, com déficit, está ali para justificar a modelagem do comportamento de Hauser. O antropólogo Montaigne sintetizou a questão: “na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”.

Como refazer o caminho para além desta visão contaminada pelo eurocêntrismo? Como considerar o que é diferente do que estabeleci como “normal” diante da questão indígena? Na busca por estas respostas, observa-se que os conceitos, imagens e representações sobre o continente africano, construído ao longo da história por uma visão eurocêntrica não se sustentam após análise profunda da organização social, política, econômica e cultural da civilização indígena. Numa sociedade multicultural, a visão de mundo eurocêntrica deve ser superada para assegurar o acesso às riquezas culturais em níveis elevados da cultura indígena que atualmente são sucumbidas por olhares parciais. Por meio da observação da organização política, social, religiosa e econômica indígena é possível trazer para o debate os argumentos eurocêntricos e descontraí-los por meio dos inúmeros aspectos relevantes, tais como organização social e política, a produção artística e cultural, entre outros. Portanto, para se compreender a questão indígena é necessário excluir explicações mecânicas, simplistas e genéricas produzidas pelo eurocentrismo, tema central combatido neste artigo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: