A faculdade de intercambiar experiências

Para Mircea Eliade, “conhecer os mitos é aprender os segredos das coisas”. Um mito, bem diferente do conceito predominante, tem como função explicar a origem das coisas, nesse sentido Eliade amplia a ideia para além “das coisas”: explora o aprendizado do segredo. Dada uma sociedade, certamente haverá um mito para explicar como se deu a vida e o funcionamento do que os cerca. Seja numa aldeia indígena, uma tribo africana ou uma tradição cristã, todas carregam o mito de evidenciar “os princípios”. Estes entes sobrenaturais trazem para os iniciados um conjunto de elementos de forma a orientar condutas, explicar eventos naturais ou até mesmo restringir o uso deste ou daquele objeto num ritual. Quanto questionados do porquê, respondemos: Porque é assim! E, observadas as variantes, o que se tem em comum é o aprendizado, por meio desse “entes”, dos segredos das coisas, da vida.

Em uma determinada tribo indígena, há separações complexas entre o que é mito, contos e fábulas. E, por meio dessas divisões determina-se quem pode acessar esses conhecimentos, ou seja, os iniciados tem primazia em relação à mulheres e crianças. Por exemplo, é por meio de um ritual (“ditado” por estes “entes”) que se dá poder para este iniciado. O poder de entender e reproduzir e até mesmo interferir nesta ou naquela realidade. Portanto, independete de qual orientação religiosa, cultural ou social tal sujeito é, o mito é o caminho pelo qual se alcança a iluminação: o sentido ou segredo das coisas.

Walter Benjamim por sua vez afirma que “no momento em que a experiência coletiva se perde e a tradição comum já não oferece nenhuma base segura, outras formas narrativas tornam-se predominantes.” A partir do momento em que a narrativa é “atropelada” por outras formas de comunicação, como a imprnsa, por exemplo, o sujeito já não tem bases para alicerçar suas experiências. Isso equivale dizer que a sociedade moderna perdeu a faculdade de intercambiar experiências, numa afirmação também de Benjamim. Com o advento do romance, e da informação, já não há referências e muito menos o  exercício da criatividade ao recontar um história do seu jeito. Nos último séculos e mais fortemente nos últimos cinquenta anos, a sociedade passou a consumir notícia como se nada fosse: aquele evento que antes ocorria em outra parte do mundo e chegava até nós carregada de um força simbólica perde sua intensidade, pois nao há espaço para preenchermos as lacunas, tudo já vem pronto, cheio de detalhes, vídeos, imagens.

O que se perde neste trânsito de informações é a arte de representar a realidade se utilizando de formas narrativas ricas de simbologia, valores, etc. Para ilustrar esta questão, da ausência da experiência coletiva, temos a morte e seu impacto. Em outros tempos se experimentava a morte da mesma forma que a vida. Na mesma cama em que se dava a luz, morria-se. Hoje, as crianças são trancafiadas em casa e sob a orientação de um adulto, são impedidas de “experimentar” o rito fúnebre. Os rituais, os processos, as tradições dão lugar a um sem número de ações práticas que coibem e não oferecem bases para o sujeito e muito menos a sociedade de aprender a experiência comum.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Bruno Faria
    abr 17, 2011 @ 01:58:57

    Olha só…Esse cara é fogo…De uns dias pra ká as ideias deles tem explodidos em textos incriveis….Meu você foi benção pra mim e continua sendo…Ainda não o conheci pessoalmente mas já éum brother…Stora muleke…So seu fã….é nois storando no JubracNet!!!Abração!!!!

    Responder

  2. Juliano Fabricio Ferreira
    ago 05, 2011 @ 23:18:12

    muito legal o blog brother…..

    Responder

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