Luto, medo, imprensa!

Passado um dia do massacre no Rio, estou ainda em estado de perprexidade. Apesar de meus pares insistirem que a violência se tornou banalidade e que temos que orar pelos que passaram por isso, eu acredito que o que aconteceu tem origem mais profunda, que só uma investigação apurada trará à superfície o que relutamos admitir. Sendo assim, farei a colagem de dois textos distintos, nos quais segue fonte devidademente creditada, e sendo opostos contribuem para ampliação do horizonte de discussão.

O medo de admitir, por Renata Corrêa

Ontem, tristíssima com a tragédia no Rio, do atirador que massacrou crianças em uma escola de Realengo, comecei a ver o Jornal Nacional. Em dado momento, começou a reconstituição do crime via animação. A narração dizia que o atirador fazia disparos a esmo, sem escolher as vítimas. No início do dia, quando eu soube que dez meninas e um menino tinham sido mortos pensei que o atirador estava escolhendo suas vítimas. Logo depois, no Globo News, o Rodrigo Pimentel, que de comandante do Bope a consultor de segurança agora virou comentarista-de-todas-as-nossas-tragédias, especulava que meninas sentavam na frente, e que meninos eram mais ágeis e teriam se safado mais facilmente. Mas aí veio o depoimento do estudante Mateus Moraes, um dos pequenos sobreviventes. Ele foi assertivo: ele atirava nas meninas para matar e nos meninos, para machucar. A tia que perdeu a sobrinha e tinha um filho na mesma turma, que sobreviveu dá o relato apavorante do filho: ele disse que mataria as meninas bonitas.

O que existe entre o relato de Rodrigo Pimentel e a reconstituição do Jornal Nacional, que insistia que o assassino atirava a esmo? Machismo, ou a negação de que além de um crime de ódio inexplicável, o assassino ainda teve o requinte de escolher as suas vítimas? Por que temos medo de admitir que o que aconteceu possui características de crime de ódio, que é o crime que é voltado para uma parcela específica da sociedade (negros, gays, mulheres, crianças)? Estamos todos muito chocados, realmente é difícil de engolir. Mas é mais difícil de engolir que no afã de explicar uma tragédia inexplicável a imprensa esqueça tudo o que aprendeu no curso universal por correspondência e esqueça um dado tão importante quanto esse: o assassino escolheu e encurralou suas vítimas preferenciais: meninas. E isso se configura como crime de ódio. Essa mesma imprensa esta manhã está soltando matérias com títulos como  ”Atirador TERIA sofrido Bullying”. “Teria” é futuro do pretérito, conjugação verbal  que conta para o leitor ou ouvinte que algo, no passado, pode ou não ter acontecido. Teria, galera, deveria ser abolido de todas as manchetes e ainda mais agora num caso como esse.

Me despeço aqui, pois a indignação, a dor e a tristeza não findaram com o dia de ontem. Deixo meus sentimentos para as famílias atingidas e que os garotos e garotas sobreviventes possam voltar a ter uma vida normal e ajudar na construção de um mundo mais justo, menos violento e mais igualitário para todos. Um mundo de paz.

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Tanto luto, por Ariovaldo Ramos

Rio de Janeiro, Escola Municipal Tasso da Silveira, jovem de 23 anos invade escola onde estudou e atira nos alunos, a maioria entre 7 e 14 anos. Mata e fere muitos até que, atingido por um policial, se suicida. Quantos matou, quantos feriu? Se fosse apenas uma criança já seria muito, tanto que nenhum número esgotaria. Quantos seres humanos tombam de uma forma ou de outra quando um ser humano é abatido? E quantos, por isso, não terão oportunidade de existir? Começam as perguntas sobre o porquê. Como um ser humano faz algo assim? E corre-se atrás das explicações. Como um ser humano pode ser capaz de tal atrocidade? É a pergunta que ecoa. Como? Ouço e me pergunto: do que estamos a falar?

Só os seres humanos fazem isso com a sua própria espécie: franco-atiradores; homens-bomba; Treblinka; Auschiwitz; Guantanamo; Sistema Presidenciario Brasileiro; Carandiru; Torres Gêmeas; Revolução Cultural Chinesa; Política Stalinista; Hiroshima;  Nagasaki; Ruanda; Serra Leoa; Kosovo; Incêndio de Ônibus com passageiros ou Fuzilamento de Seres Humanos colocados dentro de um ônibus! E mais quantas guerras e atrocidades poderiam ser enumeradas? Só seres humanos fazem isso! Só os seres humanos se sentem seguros, apenas, quando podem matar o próximo. Só os seres humanos chamam a isso de paz. Quantas doenças ou religiões ou ismos teremos de evocar para dar sentido às barbáries humanas?

O que há por detrás de tanta barbárie? Nós: Seres humanos. Nós! Ao chorar por essas crianças, choramos também por nós, por todos nós indistintamente. Precisamos perceber que nosso grande desafio somos nós mesmos. Perceber que há maldade em nós. Precisamos cuidar melhor de nós. Precisamos de zelo pela dignidade humana; de acesso a saúde em todos os sentidos, desde sempre: de uma escola onde um garoto estranhamente diferente possa ser ajudado enquanto é tempo. Precisamos que todo o esforço não seja para, meramente, melhorarmos na vida,  mas, para que a vida melhore em nós. O que me consola é saber que Deus, segundo Jesus de Nazaré, está lutando por nós, o gênero humano. Que tanto luto não mate a esperança.

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