A significação: uma abordagem pedagógica

Por ser social, o homem é capaz de pensar conceitualmente e de forma alegórica, de maneira a transcender o conhecimento empírico das coisas e do mundo, assim como tornar-se apto a estabelecer as relações mais lógicas entre elas. De acordo com essa afirmação de Lévi-Straus é possível compreender que para validar a afirmação acima basta pensarmos, logo existimos e, existindo passamos a identificar e relacionar o mundo ao nosso redor. Além disso, na teoria do desenvolvimento e aprendizagem de Vygosty, o ser humano distingue-se dos animais porque possui a autoridade consciente de sua conduta, isto é, o homem é capaz de pensar em elementos ausentes, de imaginar circunstâncias vividas, de planejar ações, entre outros. Esta afirmação “o homem não pensa sozinho, mas o faz socialmente” é de Cardoso de Oliveira (1998),em “O trabalho do antropólogo”. E, neste contexto de Educação em ambientes não escolares, vem bem a calhar, pois na medida em que educador e educando estabelecem relação inicia-se uma “teia de significados” que despertam a faculdade de intercambiar experiências e assim o fazendo, deixam de pensar sozinho e pensam um com o outro. Isto é, numa explicação “moderna” e não filosófica da afirmação.

A significação das coisas do mundo é o início da atuação do Homo sapiens sapiens. Isto porque, ao representarmos as coisas que nos cercam exercitamos a representação e, baseado na premissa de que o homem não pensa sozinho é na inter-relação com o outro que estabelecemos o diálogo filosófico na busca por entender aquilo que nos cerca. E de acordo com Bakhtin, refletir a respeito do modo como construímos a nossa realidade, o nosso universo de significações, e de como a linguagem tem papel fundamental em nossa reelaboração do mundo, da vida e de nossa subjetividade, enfim, refletir sobre o caráter cultural do nosso psiquismo. O desafio de ultrapassar as marcas socialmente e culturalmente estabelecidas pelo sistema escolar representa o privilégio de se utilizar do espaço não escolar para a educação. Equivale dizer que, por conta de reunidas no mesmo local as mais diversas representações sócio-culturais o diálogo será sempre enriquecedor para quem se lança nesta viagem por compreender as nuances da educação para além dos muros da escola.

A educação não se reduz à relação educando-educador no interior de um processo pedagógico intra-escolar. Ela se insere no processo social, como parte de um todo mais amplo. A partir dessa afirmação e baseado no pressuposto acima, temos os ambientes supracitados como exemplos de ambientes que potencialmente, pelo menos teoricamente, estão abertos a intervenções sólidas e com objetivos de “repensar” ou transformar a visão de mundo de seus participantes, sejam eles educadores ou educandos.

Quando não se exige uma atuação apenas para promoção do aluno a outras séries, a educação informal:

… passa a ser objeto explícito da atenção, desenvolvendo-se uma ação educativa intencional, então tem-se a educação sistematizada. O que determina a passagem da primeira para a segunda forma é o fato da educação aparecer ao homem como problemática; ou seja: quando educar se apresenta ao homem como algo que ele precisa fazer e não sabe como faze-lo. É isto o que faz com que a educação ocupe o primeiro plano na sua consciência, que ele se ocupe com ela e reflita sobre ela. Quanto a nós, se pretendemos ser educadores (especialistas em educação) é porque não nos contentamos com a educação assistemática. Nós queremos educar de modo intencional e por isso nos preocupamos com a educação.(SAVIANI,2002,p.48).

Portanto, ao unir o conteúdo da sala de aula com a realidade de nossos educandos estabelecemos um novo horizonte: a possibilidade de existir opções que não aquelas permeadas de violência, pobreza e abandono.

Promover a capacidade para usar a leitura como forma de aprendizagem deveria constar nos primeiros tópicos das discussões pedagógicas ou ainda da formação do profissional da educação. Porém, o que encontramos são sujeitos, muitas vezes, incapazes de articular um pensamento de forma coerente e capaz de suscitar discussão. Encontramos, infelizmente, muitos profissionais da área da educação desprovidos da habilidade de pensar, isto é, reproduzem um discurso pré-estabelecido, confortáveis em suas zonas dispensam qualquer discussão, pois não se querem dar a experimentar, questionar, duvidar. Porém, mais do que a leitura (afinal, existem muitos que lêem e lêem muito) é necessário compreender o que se lê.

Em meu artigo “O problema é que você lê pouco” que você lê aqui,  discuto justamente essas questões.

Referências

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.

CARDOSO. de Oliveira, Roberto 1998. O trabalho do antropólogo. São Paulo: Unesp

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Autores associados: Campinas, SP, 14ª ed., 2002.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Gabriela Rodrigues
    mar 31, 2011 @ 00:35:31

    Ai, meu amigo… Essa questão é tão complexa e extremamente espinhosa!
    Fazendo estágio no estado, percebemos muito bem o que vc fala no seu texto…
    Estamos criando “automatos” e não pensadores! Futuros adultos que não possuem opinião e voz ativa… É triste isso! Muito triste!

    Bjosss ;D

    Responder

    • Bernardo Campos
      mar 31, 2011 @ 11:47:20

      Não sei ao certo o que você pensa em relação à educação, mas certamente há espaços escolares q a “significação” ocorre…eu estou em uma.
      O que é triste é este lugar comum dizendo que tudo relacionado à educação ser triste.

      Responder

  2. Glória
    abr 01, 2011 @ 11:21:37

    “Quanto a nós, se pretendemos ser educadores (especialistas em educação) é porque não nos contentamos com a educação assistemática.” Hummm…essa afirmação é tão discutível, pois os profissionais da área por $$$$

    Responder

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