Paciência que se finge

Despertado por um relógio impaciente, o sujeito tem que produzir, viver. Cada minuto perdido indica quantos outros além do horário terão de ser acrescidos. Uma fila interminável na hora do almoço sinaliza a subtração de tempo para a mastigação do lanche comprado no fast-food, este raras vezes “fast”. O mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós: um pouco mais de paciência.

Lenine, em sua poesia “Paciência”, aponta o controle exercido pelo tempo e a paciência que se finge ter em relação a ele.  Nada mais contraditório do que a tentativa de domesticar efetivamente os impulsos animais diante da pressão que o relógio exerce sobre nós. O tempo é curto para ao menos experimentar a extensão das promessas frustradas. Nesse sentido a racionalidade esgota-se traduzindo a incapacidade de se fingir o tempo todo ter paciência com o chefe estúpido, as intermináveis conversas com o colega que não percebe as bobagens que diz, o tempo gasto com o transporte público, além da poluição sonora que aflige os habitantes de uma grande metrópole como São Paulo.

Muitos amigos, em suas férias, reclamam que sentem falta da agitação, do caos, dizem estar acostumados com tudo aquilo. Desconfio que eles estejam devidamente perdidos, pois têm o tempo em suas mãos e não sabem o que fazer com ele. O dilema da saturação pode ser observado na essência dos desabafos: “Amanhã é segunda-feira”, “Eu não tenho tempo pra nada”. Às vezes, penso que o trabalho, as atividades extras, são como uma substância de enchimento do vazio provado pela contemporaneidade, o que alguns chamam de pós-modernidade.

Será que é tempo que nos falta pra perceber? Será que temos esse tempo todo pra perder? Certos modelos de compreensão da realidade não dão conta de explicar a aparência delirante da constante novidade que o mundo subtraiu de nós. A cada dia um novo single é lançado, um famoso casal se separa, um novo filme é lançado, livros à espera de leitores, um conflito generalizado em países orientais, as contas que multiplicam-se como se tivessem vida própria, e todo esse movimento nos envolve e nos leva como discípulos seguindo a Novidade. Como diria Gil em uma de suas canções: “A novidade era o máximo/Do paradoxo estendido na areia/Alguns a desejar seus beijos de deusa/Outros a desejar seu rabo pra ceia”.

Forma e conteúdo se projetam na alógica sucessão de movimentos eternos que misturam forma, conteúdo e tempo numa cisão que exigem de nós “um pouco mais de paciência”.

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
Leitura: “O tempo e a máquina do tempo: estudos de filosofia e pós-modernidade”, por Ricardo Timm de Souza.
Filme: “I’m here”, um short-film de Spike Jonze

 

 

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