O culto ao corpo: uma análise pela perspectiva da antropologia cultural

“O seu corpo é a base e a metáfora da sua vida, a expressão da sua existência. É a sua Bíblia, sua enciclopédia, sua história de vida. Tudo o que acontece com você é armazenado e refletido no seu corpo. No casamento da carne e do espírito, o divórcio é impossível.” (Gabrielle Roth)

O mito grego de Narciso, em que um belo rapaz deixou-se consumir diante da margem de um rio, apaixonado por sua imagem que se refletia nas águas, sem se dar conta de que era seu próprio reflexo, serve de bom exemplo para o que se pretende abordar neste ensaio: o culto ao corpo, uma análise pela perspectiva da antropologia cultural.

A valorização do individualismo abarca os conflitos do homem moderno e neste recorte, dos brasileiros que na busca por identidade se priva da interação como forma de se comunicar, fazer parte do social e só consegue achar a própria imagem, refletida no espelho da sua cultura e a implicação mais próxima é a enxergar apenas no corpo o resultado de quem ele é.

Partindo desse princípio, o culto ao corpo não pode ser entendido apenas como fenômeno moderno e sem implicações mais profundas. Sua origem remonta ao culto religioso, que segundo Bosi “dá sentido ao tempo redimindo-o da entropia cotidiana e da morte que cada novo minuto decreta sobre o anterior”. Entretanto, com o passar dos tempos o corpo, que em tempos medievais era submetido a castigos por conta do pecado, hoje representa a subjetividade da cultura contemporânea e mais, transforma-se de acordo com a massificação estética e ideológica que programas televisivos de grande audiência, como “Big Brother Brasil (BBB)” e “Dr. Hollywood” nutrem.

As conseqüências de um culto ao corpo na cultura de massa do Brasil alcançam a discussão antropológica por analisar as perspectivas e implicações culturais que isso representa. Como indica Stolcker: “A modernidade da antropologia social faz dela uma ferramenta de investigação que, não obstante, deve ser ela mesma perpetuamente interrogada. Uma reflexão constante sobre os modos de pensar ‘moderno’ é inseparável da investigação antropológica”

Dessa forma, é necessário entendermos como o brasileiro relaciona-se com este mundo social em que um princípio supremo é a valorização do corpo, ou a devoção (culto) ao corpo. A indústria cultural e a ênfase dada a reality-shows com essa tônica captam audiências fiéis no ciclo viciante de devoção ou adoração ao corpo, objeto de culto. Ao oferecem ao telespectador a oportunidade de ter ele mesmo um corpo perfeito, seja pela intervenção cirúrgica, seja pela atividade física, um comportamento linear se apresenta: o desejo quase que “religioso” por ter um corpo como aquele artista, aquele ex-BBB. Essa necessidade de aceitação social, parecer belo, seguro e confiante, bem sucedido alimentam as práticas da dimensão simbólica que um bom corpo representa. É necessidade imperativa, quase uma compulsão na qual se somam duas sensações poderosamente prazerosas – com a forma física alcançada e com o domínio da vontade sobre o corpo.

A ideologia existente no culto ao corpo revela-se na doutrina ou sistema de valores que a indústria cultural explora. Por outro lado, o processo social no qual os brasileiros definem e modelam suas vidas deve ser entendido como a busca pelo estilo (estética corporal) que lhe facilitará a inclusão em diversos grupos sociais.

Os padrões de beleza sofrem há milênios a influência da cultura. O desejo de diferenciação social, segundo estudiosos, tem papel fundamental na definição do que é belo: quanto mais afastado dos estratos subordinados e mais próximo das elites, mais bonito se é. “A polaridade, no caso da beleza corporal, enraíza-se em uma profunda rede de exclusões. Inacessível à maioria, o belo é um signo de distinção social para poucos”, afirma a historiadora Maria Angélica Soler, da PUC de São Paulo em entrevista à revista Veja em fevereiro de 2008. A história do Brasil oferece exemplos: no final do século XIX, mulheres acima do peso como dona Domitila de Castro, a marquesa de Santos por quem dom Pedro I ficou apaixonado, estavam longe de ser consideradas fora do padrão. Corpos cheios, braços roliços e seios fartos, cobertos por uma macia camada adiposa eram representações por oposição da escravaria. O moreno e o negro eram relegados à posição de trabalhadores braçais. Já nos anos 60 e 70 a figura de Leila Diniz, bronzeada, ousada em seus biquínis, era a representação do belo. Mulheres passaram a utilizá-la como modelo na busca por um corpo semelhante.

A massificação e a importação de modelos culturais hegemônicos separam ainda mais o brasileiro dele mesmo. Para Bosi, “os símbolos e os bens culturais não são objetos de análise detida ou de interpretação sistemática. Eles são vividos e pensados, esporadicamente, mas não tematizados em abstrato”. As estruturas de consolação a que Umberto Eco se refere e Bosi faz menção, para qualificar o sentido e manter a atenção de milhares de consumidores, aparecem nessa estratégia de dominação das mentes brasileiras no que cerca a questão do corpo e sua manutenção seguindo modelos pré-fabricados. Neste processo, outros símbolos são criados para controlar o modo de vida das pessoas (dietas) e para gerar lucros (remédios para emagrecer, academia). Essa cultura industrial em volta do culto ao corpo chocasse com a cultura erudita na medida em que a reprodução de modelos torna-se sua característica mais fundamental. É importante ainda que não se tenha esperanças que esse quadro transforme-se. Não se deve esperar da cultura de massas e, menos ainda, da sua versão capitalista de indústria cultural, o que ela não quer dar: lições de liberdade social e estímulos para a construção de um mundo que não esteja atrelado ao dinheiro e ao status.

Se o culto ao corpo é, hoje, preocupação geral que atravessa todos os setores, classes sociais e faixas etárias, apoiado no discurso da estética e da preocupação com a saúde, a maneira como repercute no interior de cada grupo é imprevisível não dando margem para pressuposições de como se dará no futuro. Cuidar do corpo é muito bom, querer um corpo magro e belo também é bom, mas os limites que se tem ultrapassado para a conquista deste corpo é que devem ser avaliados e discutidos. A banalização do corpo na era contemporânea traz uma grande responsabilidade e a discussão totalmente válida à perspectiva antropológica.

O modernismo contemporâneo trouxe consigo o capitalismo desenfreado, onde tudo está à venda, incluindo o corpo. O capital procura matéria-prima e mão-de-obra para manipular.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. lud_mill92
    jan 26, 2011 @ 11:31:18

    Adoro cultuar corpos esculpidos, é um pecado????

    Responder

  2. B. Caroline
    fev 01, 2011 @ 15:54:57

    UHAUHAUAHUHAUHAUHA, boaaaaaaaa.

    Nem sempre um corpinho recém-saído da faca é saudável. Sem dizer os riscos que oferece posteriormente, não há garantias caso o/a sujeito/a não fecha a boca um segundo que seja. A busca pelo corpo ideal quase sempre busca atalhos, e a diferença é que, os que buscam esses atalhos, querem se encaixar na sociedade, no estereótipo de “beleza” ditado atualmente (que mudará uma vez mais e de novo, com tantas mulheres frutas por aí, escreva), enquanto os que trilham a estrada toda, seja em uma academia, regulando a boca ou mesmo trocando alguns alimentos por outros o fazem em prol da própria saúde, o que já não podemos discriminar. Há, aí, um sem-número de pessoas que preferem morrer a não caber naquele vestido especial, enquanto isso, a nós, meros mortais, basta lutarmos apenas para conseguirmos andar de bicicleta sem tem uma crise respiratória depois, rsrsrs.

    Adorei a discussão, bem escrito e, bem, divulguei já ;*

    Seu blog tá sendo uma mão-na-roda para quem precisa se localizar, e para os interados também, parabéns pela proposta, mais uma vez.

    Responder

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