Atos de fala:uma análise sobre os efeitos de sentido

I. INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é analisar a tirinha de Carlos Ruas publicada originalmente no blog “Um sábado qualquer”. Observamos nesta um diálogo entre Deus e sua criatura, o primeiro caracterizado com barbas brancas, velho, e o segundo insignificante, sem traços definidos, diante do outro, porém esta desproporção se mostra apenas um recurso à disposição da sátira de Ruas.

II. ATOS DE FALA

 1. “Conseguiu resolver o problema do aquecimento global?”

O ato locucional é realizado pela criatura/homem, neste caso é a própria fala “Conseguiu resolver o problema do aquecimento global?”. Já o ato ilocucional emitido pelo homem diante de Deus é de indagação, questionamento. Não há um tratamento religioso na abordagem, isto é, o homem não utiliza as expressões “Senhor”, “Deus” ou qualquer referência a Deus. Desse modo, o ato perlocucional é a resposta deste Deus. Ele entende a pergunta e a responde, inclusive especificando o que fez em relação ao problema.

2. “Sim, coloquei ele no freezer”

O ato locucional é a própria fala reproduzida por Deus: “Sim, coloquei ele no freezer”. Em seguida, temo o ato ilocucional que é resposta a um questionamento do homem. Além de responder ele diz o que fez com “ele”, o planeta Terra. O ato perlocucional então se dá por mais um questionamento do homem, que não entende a tristeza percebida na fala de Deus já que Ele resolveu, aparentemente, o problema do aquecimento global.

3. “Então por que tá triste?”

A fala “Então por que tá triste” é o ato locucional, isto é, representa o que foi dito. Conseqüentemente, o ato ilocucional é outro questionamento feito pelo homem por não entender a tristeza de Deus na resposta anterior. O ato perlocucional é emitido por Deus que responde esclarecendo o motivo de sua tristeza, ele admite sua tristeza, porque ao tentar resolver um problema cria outro.

4. “Porque resolvendo um problema acabei criando outro”

Neste caso o ato locucional é a fala, o dito: “Porque resolvendo um problema acabei criando outro”. O ato ilocucional é a resposta que Deus dá ao homem. Assumiu sua tristeza por que responde positivamente à pergunta anterior e ao fazê-lo evidencia outro problema. Neste caso não há ato perlocucional.

5. “Era glacial…”

A fala de Deus é o ato locucional: “Era glacial…”. Ato ilocucional: Deus declara com objetivo de esclarecer qual o outro problema criado por ele quando da tentativa de para o aquecimento global. Na tirinha esta intenção é apoiada pela ilustração da Terra dentro de um recipiente de gelo, senão a própria barra de gelo. O ato perlocucional neste caso é a forma engraçada (ele ri: He He) com que o homem recebe a afirmação de Deus e sua necessidade em espalhar, em seu entendimento, a besteria que “Ele” realizou. Ele entendeu a declaração de Deus e fez chacota disso.

6. “He he…Eva, vem ver a besteira que Ele fez!”

O ato locucional é a própria fala reproduzida pelo homem: “He he…Eva, vem ver a besteira que Ele fez!”. O ato ilocucional  é a intenção de fazer chacota, na maneira engraçada como ele recebeu a afirmação de Deus. Além disso, ele se apressa em espalhar isto e chama por “Eva” que não está presente, mas nos desperta a memória para os homens “originais” (mito) e, por fim, percebemos que este homem, esta criatura, é Adão, mesmo que não haja referência anterior. O ato perlocucional neste caso não há, visto que não temos acesso ao desdobramento da cena.

III. CONCLUSÃO

A análise e compreensão da tirinha de Ruas se dão porque o autor trabalha os elementos lingüísticos e extralingüísticos de forma excepcional, como demonstrado acima nos apontamentos das falas contidas na tirinha. Baseada na Teoria dos Atos de Fala de Austin, o humor, a ironia só é possível em função da utilização das falas com o objetivo de despertar no leitor um efeito de sentido capaz de levá-lo a pensar, neste caso,  sobre o aquecimento global e a uma não tão absurda volta à era glacial por conseqüência disto.

Partindo desta consideração, afirmamos a teoria que entende que existem forças produzidas dentro de um ato de fala e sua escolha não é aleatória. Além do mais, no caso da tirinha, temos um conjunto de fatores que enriquecem o efeito de sentido e a exploração dos significados: o desenho, a forma como o autor representa Deus e Adão, entre outros. Há também um interesse em mostrar um Deus não tão onisciente e sabedor de tudo sabe. A humanização de Deus não desintegra totalmente o que sabemos ou construímos sobre ele, entretanto nos faz pensar que a responsabilidade por este planeta estar nestas condições não se deve a um elemento místico e sim, a um homem, um homem que ri, acha engraçado a situação em que está inserido.

IV. REFERÊNCIAS

ATOS DE FALA: relações entre a teoria dos atos de fala e quadrinhos humorísticos

http://www.nee.ueg.br/seer/index.php/temporisacao/article/view/20

BLOG: UM SÁBADO QUALQUER

http://www.umsabadoqualquer.com/

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