A presença africana no Brasil: reflexo da resistência na constituição da identidade brasileira

“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados

por sua personalidade, não pela cor de sua pele”. (Martin Luther King)

O objetivo deste artigo é apresentar a importância da mão-de-obra africana, bem como suas formas de resistência, além do processo de “desafricanização” na constituição da identidade brasileira e as proximidades culturais entre África e Brasil. Sendo assim, trata-se de uma análise como resultado-síntese de um assunto que não pode ser apenas relegado a um plano de aula ou leis que implicam aplicação de conteúdos referentes à questão da história e cultura afro-brasileira.

Faz-se necessário, inicialmente, entender e interpretar como foi constituída a mão-de-obra africana no Brasil: quais as razões históricas, políticas e econômicas por trás delas? Tratados como mercadoria, africanos arrancados de suas terras foram submetidos a escravidão, que muitos autores procuram explicar a partir da idéia de que eles já estariam habituados à escravidão. Em princípio, os escravos eram “maquiados” a fim de o valor de compra ser aumentado. Mesmo que inimaginável nos dias atuais, até mesmo documentos de orientação, para a compra e venda, eram utilizados por proprietários e traficantes, comprovando, portanto, o modo como essa mão-de-obra era utilizada em terras brasileiras.

Em três séculos de escravidão cerca de 3,6 milhões de cativos desembarcaram no Brasil, tendo a violência como pauta desta multifacetada sociedade: vivendo em condições inseguras, mesmo os libertos não eram incluídos (utilizando um termo atual) nas relações sociais. Contudo, as marcas deixadas no corpo e, mais que isso, na memória transformou o Brasil num “museu de horrores”. Isso porque, torturas e humilhações eram instrumentos de apreensão do cativo e correntes, gargalheiras, colar de ferro, ou mesmo o “tronco” possuíam caráter pedagógico. Controle era fundamental para a manutenção do negro em seu lugar na sociedade: uma peça, uma coisa. Por outro lado, o que escapa aos que se encarregam de tratar do assunto são as fugas, os abortos e os suicídios que faziam parte do cotidiano da escravidão. A busca desesperada por liberdade levava uma mãe a abortar um filho que queria ver longe daquela humilhação ou ainda, tirar a própria vida numa escolha pela liberdade ao invés da tortura. Essa resistência passa ao largo do medo que muitos têm de tratar do assunto, contribuindo para uma conservação do mito da democracia racial e da representação de um Brasil menos cruel com os escravos.

Uma estratégia de dissimulação viria a orientar a resistência dos africanos para disfarçar seus cultos, seu anseio ou preparação para a liberdade. Destaca-se o conceito de jogo, dança, luta da capoeira em que a “manha” ou malícia se sobrepõe à força física. Impossível não traçar um paralelo entre a situação do escravo e a repressão que vivia. A capoeira então pode ser entendida como um jogo de contrapoder, cujo objetivo é aproveitar o espaço vazio deixado pelo oponente, derrubando-o. Outro aspecto dessa resistência vem da manutenção dos cultos afros. Considerando a intolerância da Igreja, para que os orixás pudessem ser cultuados e os batuques acontecer, os escravos se utilizavam de festas religiosas e seus ídolos para relacionar os santos com os orixás e assim, conservar a resistência religiosa que até hoje mantém, por parte de conservadores religiosos, ares de práticas malignas, ou seja, é ligado automaticamente os cultos afros com a prática do mal. Convém salientar que esse conceito ou discurso, além de falho não representa a construção dos laços de sociabilidade baseados nas dimensões religiosas, lúdicas e artísticas que constituem a identidade brasileira que se faz por escravos, negros, índios, portugueses, holandês, entre outros. Por este motivo reduzir qualquer discussão apenas às esferas culturais ou religiosas é equivocado e nem de longe explora a riqueza cultural construída por meio dessa resistência.

Nossa compreensão sobre os referentes histórico-culturais orienta nosso olhar sobre a questão da história e cultura afro-brasileira elaborando uma consciência crítica sobre as representações de África e acima dos discursos originados do eurocentrismo com suas ideologias sobre o continente africano. As contribuições africanas para a sociedade brasileira vão além dos aspectos religiosos, somos brasileiros porque a identidade nacional foi influenciada por este povo com seus valores, conhecimentos e o conjunto de hábitos e práticas que só enriqueceram o “brasileiro”.

O estudo da história e cultura afro-brasileira abre possibilidades de compreensão dos inúmeros contextos que tornam dinâmica a trajetória do africano no Brasil e afasta as idéias pré-concebidas e preconceituosas acerca do universo afro-brasileiro. Qualquer tentativa de entender o Brasil passa pela abordagem da história da África, bem como não ceder à tendência de menosprezar o que é a marca distintiva desse povo. Não se esgota a fonte de onde são retiradas as referências para interpretação da questão afro-brasileira, isto é, alguns fragmentos de texto ou mesmo uma disciplina de quarenta horas são insuficientes para desconstruir integralmente o preconceito assombroso e disfarçado que o brasileiro tem sobre suas próprias origens. Dessa forma, discutir, repercutir e ampliar as discussões a respeito do tema é de crucial importância para a transformação do olhar, do pensar e do sentimento relacionado à África.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. aLocKa_dPedra
    jan 26, 2011 @ 11:55:46

    Uau.gostei dissooooooooooooooooooooooo

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  2. B. Caroline
    fev 01, 2011 @ 15:35:17

    Interessante, contestador e muito esclarecedor. Realmente, 40 horas são insuficientes, talvez até uma vida, para explicar séculos de construção da nossa realidade, afinal, dentre as tradições brasileiras, mais de 50% advém das culturas africanas, e o que resta é uma mistureba do que rolou com o casamento entre europeus, indios, africanos e, porque não, asiáticos posteriormente? Somos uma terra tipicamente afrobrasileira, não apenas de pele ou sangue, mas alma. E é motivo de maior orgulho, não vergonha, saber que até os dias de hoje um pedacinho daquele povo guerreiro se esconde no canto de cada filho desta terra que sente vergonha de si mesma e se rebaixa ante as demais.

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  3. karen millen
    set 19, 2011 @ 13:40:29

    I like you article,thank you very much!

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  4. Anônimo
    dez 04, 2012 @ 15:53:40

    foii baum pois conseguii fazer o meu trabalhoo de geografia !!!-

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